CONTOS & CRÓNICAS — por José Brandão

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É nestes termos que o procurador Julius Grinnell se dirige ao júri:

«A lei acha-se posta à prova. A anarquia está em julgamento. Estes homens foram selecionados, escolhidos pelo grande júri (câ­mara de acusação) e inculpados, porque eram dirigentes. São mais culpados que os milhares de homens que os seguem. Senhores jura­dos, condenai estes homens, fazei deles exemplos, enforcai-os, e salvareis as nossas instituições e a nossa sociedade.»

Estava dado o mote.

Parsons, Engel, Fischer, Spies, Lingg, Schwab e Fielden são condenados à morte por enforcamento, enquanto Neeb é sentencia­do a 15 anos de prisão.

Debaixo das mais rigorosas prevenções, quatro forcas são montadas num pátio da prisão de Chicago.

Às 11 h 30 m do dia 11 de Novembro de 1887, Parsons, Fis­cher, Spies e Engel são conduzidos a esse pátio. À tarde, morrem estrangulados por uma corda brutal que lhes asfixia o direito à vida.

Lingg, que também deveria ser enforcado nesse dia, preferiu tomar nas suas mãos o direito de morrer, deflagrando na boca um pequeno cartucho de dinamite que lhe faz explodir a cabeça.

No dia anterior, Engel tentara também pôr termo à vida na sua cela, bebendo uma garrafa de láudano, mas não conseguiu o seu intento.

Fielden e Schwab tinham visto as suas penas comutadas em prisão perpétua, enquanto Neeb cumpria os 15 anos a que tinha si­do sentenciado.

Nem um só condenado cedera um milímetro na sua verticali­dade. Todos se mantiveram firmes na determinação de enfrentar com dignidade este destino trágico da morte no cadafalso.

«Virá o dia em que o nosso silêncio será mais poderoso que as vozes que nos estrangulais hoje», articulou calmamente Spies no momento em que lhe tapavam o rosto com uma máscara.

«Hurra! à Anarquia. Este é o momento mais feliz da minha vida», exclamou Fischer com a corda já à volta do pescoço.

«Deixem que a voz do povo se faça ouvir!», são as últimas pa­lavras de Parsons.

As mulheres que lhes estavam ligadas por alguma afeição ja­mais deixaram de os apoiar e encorajar nestas horas dramáticas.

«Se de mim depende que o Albert peça perdão, que o enfor­quem», declarara estoicamente a esposa de Parsons, uma corajosa mulher de descendência negra, indiana e mexicana.

Nina van Zant, uma milionária que durante os julgamentos se enamora de Spies, escreve o seguinte: «Prefiro a censura dessa so­ciedade moral, que não pode compreender o verdadeiro amor, du­plicado pela comunhão de ideias, que aceitaria, elogiando-me, o meu casamento com um velho vicioso e inválido, mas que possuísse grandes riquezas.»

A mãe de Lingg escrevia ao filho: «Depois da tua morte, esta­ria tão orgulhosa de ti como estive toda a vida.»

Uma tia que o adorava, dizia-lhe: «Querido Lingg, aconteça o que acontecer, ainda que seja o pior dos males, não te mostres fra­co perante esses miseráveis.»

Deste modo pereceram os que viriam a chamar-se os «mártires de Chicago». No ano seguinte a American Federation of Labor (AFL) decidiu continuar a luta para conquistar o dia de trabalho de oito horas. Marcou para o 1 de Maio de 1890 a data da próxima manifestação de massas. Entretanto, encontraram-se em Paris os represen­tantes de diversos movimentos operários mundiais para tentar coordenar o combate. Os americanos contaram aos europeus a tragédia de Chicago. Em toda a Europa se deci­diu então fazer do 1º de Maio uma jornada de reivindicação à memória dos «cinco mártires».

Apesar da ligeireza do tribunal em aplicar tão severas penas aos réus de Chicago, ficaram muitas dúvidas quanto à verdadeira culpabilidade dos sentenciados pelo Tribunal de Cook County.

A par da indignação que se gerou por todo o Mundo e que vi­ria a culminar na consagração do dia 1º de Maio como Dia Inter­nacional dos Trabalhadores, a justiça norte-americana acabará por reconhecer publicamente a inocência dos oito condenados de Chi­cago.

Após alguns anos de inquérito, em 25 de Junho de 1893, o go­vernador do Estado de Ilinóis, John Peter Altgeld, vem publica­mente admitir que o Tribunal de Cook County cometera um gravís­simo erro judicial ao enforcar os quatro inocentes, demonstrando que no tribunal não tinha havido provas concludentes para a sen­tença proferida.

A maior parte das provas tinham sido totalmente forjadas — disse o governador do Ilinóis John Altgeld, um liberal, que reabilitou as vítimas, o que lhe deu cabo da carreira. Os testemunhos foram arrancados a ho­mens ignorantes e aterrorizados, a quem prometeram a tortura, se recusassem aceder aos desejos da polícia.

Era demasiado tarde.

Das oito vítimas, apenas três podiam aproveitar a reabilitação.

Os outros cinco já constavam definitivamente da História como os «Mártires de Chicago».

Com este acontecimento a América ganhava lugar de destaque no prestígio sindical. A pátria do Capitalismo era também o local de glória operária a nível mundial.

O período que vai de 1869 até às grandes jornadas do 1º de Maio de 1886 assinala uma página ímpar na história do movimen­to operário nos Estados Unidos. Os trabalhadores revoltam-se em massa contra a duração desumana do tempo de trabalho e pela conquista de leis que reconheçam e reforcem os direitos de organi­zação.

Entre 1870 e 1880, diversas greves de grande envergadura dão origem a violentas lutas que levarão a recontros armados. Em 1877, durante a greve iniciada pelos ferroviários de Pitsburgo, que se estendeu a toda a rede de dezassete Estados, fortes contingentes de tropas, compostos por soldados e voluntários das milícias pa­tronais são lançados contra os grevistas num confronto de propor­ções até então nunca verificadas.

Thomas Scott, presidente da Pennsylvania Railroad entre 1874 e 1880, acon­selhava: «Distribua durante alguns dias aos operários e aos grevistas uma alimenta­ção de balas de espingarda, e verá como eles assimilam esse pão.»

A batalha das oito horas de trabalho nos Estados Unidos.

Com a criação, em 1880, da Federação dos Trabalhadores dos Estados Unidos e Canadá, a luta pela conquista das oito horas vem encontrar novas energias. De facto, ao estabelecer, em Chicago, que o dia 1º de Maio de 1886 seria o dia marcado para uma grande greve geral pelas oito horas de tra­balho, esta Federação estava a dar sinal de partida para o que em breve passaria a ser consagrado como o dia histórico dos trabalha­dores de todo o mundo.

É nesta conferência do operariado americano que, pela pri­meira vez, aparece fixado o dia 1º de Maio como data de manifes­tação proletária.

Praticamente toda a década de 80 esteve dominada por vasta campanha em favor da obtenção das oito horas de trabalho. Em 1886, muitos Estados praticavam já esse horário, embora não fosse extensivo a todos os sectores da população operária.

Os acontecimentos do 1º de Maio de Chicago surgem no âm­bito desta grandiosa epopeia do movimento operário norte-americano. As terríveis consequências da tragédia ecoarão por todo o Mundo, abalando profundamente o operariado dos Estados Uni­dos.

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