CARTA DE LISBOA – Flores de Maio – por Pedro Godinho

lisboa

Depois de Abril, só mesmo Maio.

E, desde 74, que os cravos daquele gritam, vermelhos, o anúncio de liberdade, e do calor do primeiro verão que Maio trará.

Foi bonita a festa, pá

Fiquei contente

E inda guardo, renitente

Um velho cravo para mim [1]

Primavera plena, as flores já rebentaram e exibem-se nas suas roupagens coloridas, plurais. Aumenta a luz nas ruas de Lisboa e o sol convida os corpos a receberem o calor. Quem pode ficar-lhe indiferente,

Maio maduro Maio, quem te pintou?

Quem te quebrou o encanto, nunca te amou. [2]

Agora, nem o sol, nem as cores, nem as flores, nem os cantos de Maio nos deixam desfrutar em paz, todos os dias a matraquearem-nos com as falsidades das mesmas frases estereotipadas, com que nos acusam do pecado e se apresentam como nossos salvadores, enquanto nos tiram passado e presente e a alegria de viver.

Unidimensionais, para nós deixam a tristeza do cinzento, para eles guardam o dourado.

Há que combatê-los, e às suas acções e narrativas, para que possa haver um futuro.

We shall fight on the beaches,

we shall fight on the landing grounds,

we shall fight in the fields and in the streets,

we shall fight in the hills;

we shall never surrender [3]

Porque a resistência passa, também, por não deixar que nos encurralem na tristreza e depressão, como sub-humanos, importa insistir em sair para a rua e, como pessoas normais, gozar os prazeres da vida, na pluralidade das suas cores e aromas.

Por exemplo, visitando o jardim botânico da Ajuda, o primeiro jardim botânico português, mandado construir pelo Marquês de Pombal, em 1978, para desfrute da família real que se tinha transferido, com a corte, para a Ajuda após o terramoto de Lisboa de 1755. Com a proclamação da República o jardim foi aberto ao público, estando integrado no Instituto Superior de Agronomia.

Visitar os 3,5 ha do jardim botânico da Ajuda (o acesso é pago mas gratuito nas manhãs de domingo) é desfrutar das mais de mil espécies plantadas, do dragoeiro com mais de 400 anos, do jardim dos aromas, da magnífica vista sobre Lisboa, o Tejo e a ponte 25 de Abril, da companhia dos pavões (os da espécie justa, não dos pretensos que se passeiam pelos corredores do poder).

É também oportunidade para se lembrar que o conhecimento e a sua divulgação valem a pena que, nem tudo é cortes e destruição e que a vida se faz de renovação, que a pluralidade e a diversidade são sempre preferíveis à coisa única, que o que é criado, desigualmente, apenas para alguns pode vir a ser usufruído por todos, que na nossa vida também há lugar para as cores, os aromas, para as flores.

Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer [4]

 

 

 

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[1] Chico Buarque, Tanto Mar
[2] José Afonso, Maio maduro Maio
[3] Winston Churchill, We shall fight on the beaches
[4] Geraldo Vandré, Pra não dizer que não falei das flores

1 Comment

  1. Continuas literariamente inspirado, pelo que te felicito, Pedro. Encontro no Botânico da Ajuda…ou no Tropical ou mesmo na Politécnica !

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