UCRÂNIA, DA ONDA DA HISTÓRIA E DAS SUAS TERRÍVEIS ENGRENAGENS – COMO SALVAR A EUROPA? – por MICHEL LHOMME

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 UCRÂNIA, DA ONDA DA HISTÓRIA E DAS SUAS TERRÍVEIS ENGRENAGENS

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Como salvar a Europa ?

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Michel Lhomme, revista Metamag, 11 de Maio de 2014

O que é que está a acontecer? De repente, compreendemos. Não é que não tivéssemos compreendido mas subsistia sempre uma ligeira dúvida, uma interrogação. Que teríamos nós feito? Em que campo teríamos estado? Que reservará um dia a história? Nós tínhamos lido bastante sobre a geração dos anos 30, de Maulnier a Aragon, de Cocteau a Malraux, de Drieu a Maurras, de Rebatet a Breton, de Bernanos a Sartre que sentíamos efectivamente bem que os seus posicionamentos seguiam os acasos da História, das famílias, das gerações políticas, da clarividência intelectual, das ideias proletárias ou burguesas até mesmo o futuro da poesia. Tudo aquilo nos fascinava.

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Mas hoje, seguindo o seu cenário, assimilando vergonhosamente, como o fazem nos media oficiais, a Crimeia para os Sudetas e um bigode para Putin, que até é branco e viril, reencontramo-nos de facto no mau campo: Assim, se houvesse “uma terceira guerra mundial” oficial, com mobilização geral, seríamos tentados a partir para Moscovo. Novamente, seríamos depois colocados, após o nosso regresso, como sendo colaboradores com o inimigo ou fuzilados em  Bad Reichenhall. Como tudo isto vai muito depressa,  virámo-nos para o mau lado da história, com desprezo pela  verdade e  pela  análise correcta, dado que na questão que nos preocupa estão efectivamente os aliados da Europa, as gentes de Praya Sektor que fazem a saudação romana (saudação nazi)  no início de cada  reunião. Querem as fotografias? Vê-se assim à frente dos nossos olhos esta covardia de gente imbecil tão denunciada no seu tempo por Celine, a desejar a vitória da OTAN e da União Europeia, a partilhar a obstinação de Washington contra a Rússia exactamente como ontem Laval desejava a vitória da Alemanha ou Aragon enaltecia Staline.

 Face ao drama de dezenas de mortes e com o risco de guerra civil generalizada e da partição da Ucrânia, vêem-se e ouvem-se assim os franceses a espicaçar  as tensões na Ucrânia tomando partido, com base num vocabulário político tecido de manipulação ideológica e de provocação, ignorando totalmente as realidades culturais, geopolíticas, económicas e estratégicas.

 Realidades culturais: a profunda divisão nacional, entre Russos, Ucranianos e Rutheno-Galegos

Realidades Históricas: num país que foi martirizado pela União soviética: o holodomor[1] ou genocídio pela fome praticado em 1933; a exterminação dos exércitos de libertação nacional em 1954 e entretanto, o parêntese nazi.

Realidades económicos, um país muito rico, a planície de trigo da Europa tanto pelos seus solos agrícolas (tchernoziom) como pelas suas minas e pelas suas indústrias pesadas.

Realidades estratégicas, as bases navais russas sobre o Mar Negro e o lugar de passagem dos oleodutos ou gasodutos orientais para os mercados ocidentais

Nestas condições, qual é a aberração? Onde está, com efeito, a irracionalidade política? Não é ela esta proposta da União europeia, incitada por uma longínqua potência marítima,  de oferecer de maneira provocante à Ucrânia uma aproximação política e económica ou mesmo militar? A Rússia, com fronteira sobre quase 2/3 das fronteiras ucranianas, não o poderia aceitar. A Ucrânia não significa “fronteira” em russo?

Assim, “os estrategas” da Comissão Europeia ou são uns ignorantes em história, ou estão completamente enfeudados à NATO na perspectiva de uma estratégia global do caos sobre o terreno europeu. Então, tudo estaria pronto para o drama do desmoronamento europeu que se infunde desde Gorbatchev porque se a Ucrânia explode em duas, depois talvez até em três partes, haverá necessariamente uma deslocação regional e réplicas nos outros países dos Cárpatos, dos Balcãs, dos Tatras ou do Cáucaso. Face a esta tragédia, o primeiro dever dos líderes europeus – e mais ainda da França deveria ter sido o de tomar as devidas distâncias ou seja primeiro que tudo procurar compreender a crise. Ora, em vez disso, ouve-se designar os desordeiros de saudação nazi   de serem os  “pro europeus”!

A Ordem Nova aproxima-se e a destruição da zona euro é para muita gente apenas uma questão de tempo! O cenário da Terceira Guerra Mundial, versão século XXI, ou seja sem mobilização geral está em prática. Será a disseminação do caos (Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria). Esta começa a tomar forma sobre o próprio solo europeu. Os acontecimentos aceleram-se em diferentes escalas desde o princípio do ano: escala monetária com as dívidas soberanas impossíveis de reembolsar, escala de bancos com activos cada vez mais tóxicos; escalas estratégicas com a emergência de blocos continentais ou de países dissidentes em face de uma confrontação planetária. Em África: Ruanda, República Democrática do Congo, República Centro Africana, Chade, Somália, Nigéria. Na Ásia: a China contra o Vietname e o Japão

A Europa não tem coluna vertebral, é  pusilânime, está dividida, foi incapaz em 60 anos de existência de criar uma defesa comum. Nos Estados-maiores, devido à Ucrânia, recomeça-se a entender falar de “corta-fogos”, “escalas de escalada”, “de dissuasão alargada”, termos que no entanto foram criados durante a Guerra Fria para estabelecer os diferentes cenários possíveis da guerra na Europa. Gostaríamos de ouvir falar de outra coisa, por exemplo “de potência alemã”. Decididamente seremos nós irrecuperáveis? Começámos por ser pró-russos e a querermo-nos juntar a Moscovo e acabamos por optar por uma Alemanha desperta e descomplexada, uma Alemanha como líder político da Europa potência! Como é pois difícil salvar a Europa!

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[1]

Segundo Wikipédia:  “Holodomor (em ucraniano: Голодомор) é o nome atribuído à fome de carácter genocidário, que devastou principalmente o território da República Socialista Soviética da Ucrânia (integrada na URSS), durante os anos de 1932 – 1933. Este acontecimento — também conhecido por Grande Fome da Ucrânia — representou um dos mais trágicos capítulos da História da Ucrânia, devido ao enorme custo em vidas humanas.”

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http://metamag.fr/metamag-2028-Ukraine-du-flot-de-l-histoire-et-de-ses-terribles-engrenages-Comment-sauver-l-Europe-.html

 

2 Comments

  1. Claro que os políticos tecnocratas e possidónios da europa não sabem nada de história, nem de nenhuma outra matéria de relevo! Se soubessem, não estariam a fingir governar pois em sã consciência e honestidade intelectual teriam de questionar e refrear penalizando, as intenções e as instituições europeias!

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