O ALENTEJO – AQUI AO LADO, TÃO LONGE– MEMÓRIAS – por João Machado

A primeira vez que tive uma ideia sobre o Alentejo foi quando li A Ilustre Casa de Ramires. Como devem calcular, foi há muitos anos. Não seImagem2 passa no Alentejo, pois não, mas perto de Oliveira, que, na geografia imaginária do Eça, seria algures no Douro Litoral. Mas sucede que, em Villa Clara, uma noite, o Gonçalo Mendes Ramires vai cear com os amigos o João Gouveia, administrador do concelho, e com o Titó, aparecendo ao fim o Videirinha do Violão. À sobremesa, discutem política, a começar pela venda de Lourenço Marques aos ingleses, preparada sorrateiramente pelo governo do S. Fulgêncio. E é então que, por entre a ficção, começa a vislumbrar-se a realidade. Gonçalo, Fidalgo da Torre, ataca o governo pela venda aos ingleses, defendendo que se negociasse com povos latinos, franceses, italianos, raças fraternas. João Gouveia apoia a venda, defende até a venda de Moçambique, toda a África, às talhadas, em leilão, no Terreiro do Paço! E, como alternativa à exploração das colónias (a expressão é minha), refere que: “Ora a Portugal restava toda uma riquíssima província a amanhar, a regar, a lavrar, a semear – o Alemtejo!

Cai-lhe em cima o Titó, desdenhando o “Alemtejo, como uma pellicula de terra de má qualidade…”. João Gouveia replica acusando a “O Alemtejo! Província abandonada, sim! Abandonada miseravelmente, desde seculos, pela imbecilidade dos governos… Mas riquíssima, fertilíssima!” E para acabar, como Gonçalo condena todo o Alentejo como “uma desgraçada ilusão!”, põe uma questão fundamental;

“- Você já esteve no Alemtejo?           

– Também nunca estive na China, e…”.

Dirão que o Eça poderá ter exagerado. Mas conhecia o Alentejo, e o rigor das suas análises é indesmentível. Quase todos os dias aparece alguém a chamar a atenção para a sua actualidade. E, a seguir, deixem-me dizer-lhes que a primeira vez que fui ao Alentejo teria eu aí uns cinco anos (portanto, sou melhor que o Gonçalo Mendes Ramires). O meu pai, na altura, era professor em Évora. Do que me lembro melhor, devo confessar, é da luz do dia (tão brilhante), das histórias aos quadradinhos que lia no café e de ter partido a cabeça a andar de baloiço (ainda tenho a cicatriz). Mas voltei lá outras vezes, em patuscadas (não conto) e em passagem para o Algarve. Canal Caveira e, depois, a Mimosa, deixam recordações, claro, mas duvido que sejam interessantes. Mas tenho outra história para vos contar.

Decorridos bastantes anos sobre a minha primeira leitura de A Ilustre Casa de Ramires, mas também já lá vão mais de quarenta anos, o serviço onde eu trabalhava foi abordado pela Junta de Hidráulica Agrícola para fazer inquéritos aos lavradores que eram supostos usar as águas de barragens alentejanas, acabadas de construir, com dinheiro emprestado pela Alemanha, para regarem as suas terras, e melhorarem as suas culturas. Com o dinheiro que pagassem, poder-se-ia fazer face aos encargos com aqueles empréstimos. Mas entretanto a Junta deparava-se com grandes resistências dos lavradores a pagarem os dinheiros necessários. Então fomos encarregados de apurar qual a situação concreta em que se encontravam, com o fito de se conseguir uma melhor compreensão da situação.

Tive a honra de participar nesses trabalhos, em conjunto com outros técnicos. Dos inquéritos em que participei, cerca de cinquenta, as conclusões de que me lembro melhor, apontavam no sentido da desmotivação para a actividade da maioria dos lavradores, fossem eles pequenos, médios ou grandes. Inclusive, à pergunta sobre se desejariam que os filhos ou outros herdeiros viessem a continuar a actividade de agricultura que vinham desenvolvendo ali nas suas propriedades, a resposta negativa foi unânime. A apoiar o que diziam referiam desde a violência do trabalho em si, até às dificuldades em escoar a produção. Sentia-se, em geral, uma enorme descrença no futuro da actividade. Paralelamente, pudemos aperceber-nos do peso que a emigração tinha sobre as pessoas. Interrogávamos-nos sobre como, numa região tão escassamente povoada, a emigração podia ser tão grande. Pude confirmar este facto ao trabalhar na acção social nos arredores de Lisboa, e encontrei tantos alentejanos fixados na Amadora, em Almada e noutros locais, numa autêntica diáspora interna.

Entretanto, as estatísticas dizem-nos que a população do Alentejo decresceu nas duas últimas décadas. É a única região do país em que a população tem diminuído. Numa região cuja área constitui um terço do total do país, a população não chega a 800 mil habitantes, menos de 10% do total do país. O número de pessoas com mais de 65 anos é superior a um quarto do total, enquanto que no total do país não atinge os 20%.

Voltando ao que vem em A Ilustre Casa de Ramires, podemos dizer que, mais uma vez, sob o manto diáfano da fantasia, perdurou a nudez forte da verdade. O Alentejo, do outro lado do Tejo, em certas coisas (muitas coisas) está mais longe que a China. Porquê? Uma resposta adequada já a dava, em 1972, Antonio Pintado, em La Raya de Portugal (Editorial Cuadernos para el Diálogo, S. A. Jarama, 19. Madrid-2), no capítulo Un Hidalgo Portugues, na primeira parte do livro, em que descreve as relações paternalistas entre um grande proprietário, não absentista, com a mentalidade relativamente aberta que seria na altura a indicada para optimizar o sistema de latifúndios do Baixo Alentejo. Deixa claro que esta descrição dá sentido aos episódios que a seguir descreve. Podemos acrescentar que dá sentido ao que ele e Eduardo Barrenechea, o outro autor da obra, descrevem na parte restante.

Ilustração: quadro de Dorindo Carvalho

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