DE NISHAPUR A LISBOA, EM FLAGRANTE DELITRO – por Carlos Loures

caneta1

Imagem2Omar Khayyām, o grande  Omar Khayyām, nasceu em 18 de Maio de 1048 na cidade persa de Nishapur, no actual Irão. Matemático, astrónomo e, sobretudo, filósofo e poeta. Concebeu um calendário cuja margem de erro era de um dia em cada 3770 anos. No campo da álgebra, criou um método para resolver equações cúbicas pela intersecção de uma parábola com um círculo, método que veio a ser retomado séculos depois por Descartes. A filosofia de Omar Khayyām era bastante desalinhada relativamente aos dogmas islâmicos – aceitava a existência de Deus mas recusava liminarmente a ideia de que cada acontecimento, de que cada fenómeno, resultavam de intervenção divina. Defendeu o princípio de que as leis da natureza chegam para explicar todos fenómenos e que, portanto, as divindades, existindo ou não, são inúteis. 

Em consonância com essa tese, declarou que pouco o preocupava se Deus existia ou não (pois nunca o saberia), mas no caso de existir, não lhe interessava saber o destino que a divindade lhe reservava. Num dos seus poemas afirmou que mais vale um exame de consciência feito numa taberna, bebendo um copo de vinho, do que, com o espírito ausente, prostrado numa mesquita, simular devoção. Quase mil anos depois, o que aconteceria a quem, vivendo num país islâmico, produzisse afirmações desta índole?

 Omar Khayyām era um sábio respeitado apesar de as suas ideias não coincidirem com os dogmas do Islão. Comparando esta tolerância com a recente condenação à morte de uma sudanesa cristã, por não querer abjurar da sua fé religiosa, demonstra-nos como, em quase mil anos, a sociedade islâmica regrediu. A sociedade cristã, ocidental, não teve   também uma evolução ética compatível com o seu desenvolvimento científico e tecnológico. Prevalece a lei do mais forte, a exploração capitalista é desenfreada, as religiões, nomeadamente a católica, têm um papel importante na prevalência das injustiças sociais que são a mola real do sistema, mas ultrapassaram a fase fundamentalista. A Inquisição deixou de de ser necessária e a liberdade de culto existe, de facto, na maioria dos países cristãos. Para aceder aos benefícios da civilização ocidental, os muçulmanos deveriam respeitar os princípios de humanidade que por aqui sobrevivem. Se querem viver com normas que violam grosseiramente a Declaração dos Direitos do Homem, os estados regidos pela Sharia deveriam ser banidos da ONU e os seus senhores, em vez de comprarem carros topo de gama, deveriam trocar camelos entre si. Mas voltemos a Omar Khayyām. Eis um rubai;

Vinho! O meu coração enfermo quer este remédio!

Vinho de perfume almiscarado! Vinho cor de rosas!

Vinho, para extinguir o incêndio da minha tristeza!

Vinho e o teu alaúde de cordas de seda, ó minha bem-amada!

  E também disse estas palavras que, hoje, lhe podiam valer uma fatwa:

Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes, mas ninguém se deleita sempre em suas páginas. No copo de vinho está gravado um texto de adorável sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia. E disse ainda. Eu estava com sono e a Sabedoria me disse: A rosa da felicidade não se abre para quem dorme; por quê te entregares a esse irmão da morte? Bebe vinho; tens tantos séculos para dormir.

Imagem1Entre dornas e jarros de capitoso tinto, passaremos da Pérsia dos séculos XI e XII da era cristã e depois de termos pasmado com a tolerância islâmica de há um milénio,  viremos até Lisboa, chegando em Setembro de 1935. Agora vejam o que oito séculos depois, Fernando Pessoa, na foto abaixo apanhado «em flagrante delitro», escreveu:

Não digas que sepulto já não sente

O corpo, ou que a alma vive eternamente,

Que sabes tu do que não sabes? Bebe!

Só tens por tudo o nada do presente.

Depois da noite, ergue-se do remoto

Oriente, com ar de ser ignoto,

Frio, o crepúsculo da madrugada…

Do nada do meu sono ignaro broto.

Deixa aos que buscam o buscar, e a quem

Busca buscar julga que busca bem.

Que temos nós com Deus e ele connosco?

Com qualquer coisa o que é que uma ou outra tem?

Sultão após sultão esta cidade

Passou, e hora após hora a vida, que há-de

Durar nela enquanto ela aqui durar,

Nem ao sultão ou a nós deu a verdade.

(30-5-1931)

 

 

 

 

 

Leave a Reply