JURMALA, A ESTAÇÃO BALNEAR DA LETÓNIA DE NOVO « ANEXADA » PELOS RUSSOS – um trabalho de JÚLIO MARQUES MOTA, com base em THIERRY PORTES

Selecção, tradução e desenvolvimento por Júlio Marques Mota

Falareconomia1

Jurmala, a estação balnear da Letónia de novo « anexada » pelos russos

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Um texto que teve na sua base um trabalho de Thierry Portes

Le Figaro, 21 de Maio de 2014

Baltics country

 REPORTAGEM – Nesta prestigiada estação balnear, localizada a meia hora de Riga, onde os grandes do regime soviético tinham uma mansão, ouve-se por todo o lado a língua de Puchkin.

Em Riga,

Galina estava presente na abertura do sanatório Costa de Ambar, em 1973. A uma meia hora de Riga, no extremo da famosa estação balnear de Jurmala, incluindo os pinheiros, as dunas e a areia fina evocam a baia de Arcachon, ela nunca tinha deixado esta construção austera, que continuou como propriedade da presidência da Federação da Rússia. Ela mostra-a hoje aos grupos de turistas, principalmente russos, que afluem à famosa estação balnear.

A acreditar, as virtudes curativas da água local, a pureza do ar e a calma das florestas circundantes desde há muito tempo eram já conhecidas. . Os soldados russos que vitoriosamente expulsaram as tropas napoleónicas foram os primeiros a aproveitar estes benefícios, seguidos por alguns estropiados do Grande Exército. Mas foi durante os anos 1970 soviéticos que o sanatório conheceu as suas horas de glória. Trabalhadores de mérito e outros stakhanovistas que se entregaram inteiramente ao plano quinquenal vinham para aqui recuperar as suas forças.

Às pessoas importantes do regime e aos altos dignitários dos países irmãos era reservada uma bonita residência, escondida entre os pinhos e a praia privada, nunca muito longe. Na “datcha de Brejnev”, nada mudou. Brejnev pessoalmente nunca veio aqui. Mas Kossyguine e Andropov apreciavam muito este sítio que frequentaram igualmente os bons camaradas checos e amigos da Stasi. Telefones, lâmpadas e mobílias são do mais puro estilo “kitsch funcional soviético”. Sauna, sala de cinema ou de bilhar, para o descanso. “A datcha aluga-se ainda hoje, assegura Galina, mas somente o director conhece o nome dos visitantes. Nós, não os vemos”…

Uma ligeira emoção soviética passada, a nova Rússia aparece alguns quilómetros mais longe , na magnificência das casas em madeira, restauradas, aumentadas, e sem dúvida com os seus interiores transformados de acordo com os gostos dos seus ricos proprietários. Jurmula, “a mais prestigiada das estações balneares da Letónia” dos guias turísticos, está em riscos de ser anexada pelos russos. Durante o verão, ouve-se por toda a parte a língua de Puchkine. Sobretudo aquando do festival de música Nova vaga, que atrai desde 2002 os turistas russos aos milhares, um acontecimento retransmitido sobre a mais importante cadeia de televisão russa

Novos ricos de calções

“Eu, no verão, eu fujo”, admite humildemente Uldis Kronblums, que anima a “Associação de defesa de Jurmala. Este letão, com uma indiferença cool não gosta dos novos ricos em shorts e o facto de que o seu refúgio de paz nas pequenas casas de madeira já levemente degradadas se tenha transformado, à custa de milhões, numa cidade balnear. “Isso não tem nada a ver com os russos, não tenho nada contra eles,” repete Uldis Kronblums, mas é mesmo o dinheiro russo que corrompe os prefeitos, modifica o plano de ocupação dos solos e permite construir cada vez mais casas e sempre mais altas. A intenção de construir uma Igreja Ortodoxa de cerca de 38 metros de altura, segundo ele, distorce a sua vila . “Será necessário, que, pelo menos a Igreja não exceda em altura a copa dos pinheiros,” sussurrou este nativo.

Mas como poderia o seu pequeno país resistir à pressão financeira russa? Para travar a crise que atingiu duramente a Letónia em 2008, a Letónia oferece a cada comprador de um bem imóvel importante permitir uma autorização de residência por cinco anos.

Sobre a população da Letónia:

Quando a Letónia assumiu a sua independência (4 de Maio de 1990), por uma resolução do Conselho supremo do 15 de Outubro de 1991, a cidadania letã foi atribuída às pessoas que já a tinham antes de 17 de Junho de 1940 (data da invasão da Letónia pela URSS) e aos seus descendentes. Os outros, titulares de um passaporte soviético, ficaram de facto sem cidadania após o desaparecimento da URSS (25 de Dezembro de 1991). Esta situação verificou-se em apenas duas das 15 antigas repúblicas constitutivas da URSS, a Letónia e a Estónia, onde a minoria de origem eslava era importante; a Lituânia, que tinha uma população de origem estrangeira muito importante, pelo seu lado escolheu “a opção zero” (atribuição da cidadania lituana a todos os residentes).

Este estatuto especial de não-cidadão foi codificado pela lei adoptada pelo Saeima a 12 de Abril de 1995 e assinada pelo Presidente Guntis Ulmanis , a 25 de Abril de 1995.

 Os não-cidadãos não são apátridas (bezvalstnieks em letão) de acordo com a definição da convenção de Nova Iorque de 28 de Setembro de 1954, porque o termo de apátrida aplica-se “à qualquer pessoa que nenhum Estado considera como sendo seu cidadão por aplicação da sua legislação”. Eles também não são estrangeiros. Porque o paradoxo é que os não-cidadãos letões têm um passaporte letão, mas de uma cor diferente da dos cidadãos letões, sobre o qual efectivamente está escrito de forma bem precisa que o titular do passaporte está sob a proteção da República da Letónia.

De acordo com as mais recentes estimativas (1º de Julho de 2010) há 335.918 não cidadãos na Letónia, o que representa aproximadamente 15% da população residente. 66% seriam de nacionalidade russa, 13% de nacionalidade bielo-russa, 10% de nacionalidade ucraniana, etc. ……. ou seja à 89% de origem eslava (NB: não confundir cidadania e nacionalidade no quadro de uma cidadania determinada. Pode-se ser cidadão letão de nacionalidade letã, russa, bielo-russa, lituânia , etc. ou mesmo de fazer a escolha sem nacionalidade).

Os não-cidadãos não podem participar em nenhuma eleição (enquanto que os cidadãos da UE podem votar nas eleições locais e europeias). Cerca de sessenta de profissões, nomeadamente na função pública e no campo judicial, são-lhes um proibidas. Os não-cidadãos podem entrar sem visto em 31 países estrangeiros, contra 82 para os cidadãos letões. Ao contrário, beneficiam da maioria dos direitos sociais, não têm necessidade de visto para entrar na Rússia, e os jovens não efectuam serviço militar, o que talvez não incentive tanto a aquisição da cidadania letã.

Mas e a naturalização é naturalmente possível. A prova é que, de 876.000 em 1993, o número de não-cidadãos passou para 336.000 hoje. Mas para isso, deve passar-se num exame em letão sobre a língua da Letónia, a constituição e a história da Letónia. Para alguns, particularmente os idosos, para quem o conhecimento de russo é ainda hoje suficiente e o da língua da  Letónia não é necessário (vê-se isso todos os dias), trata-se, portanto, de uma missão impossível.

http://www.lefigaro.fr/international/2014/05/21/01003-20140521ARTFIG00218-jurmala-la-station-balneaire-lettone-a-nouveau-annexee-par-les-russes.php#auteur

 

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