EDITORIAL – Paz e ordem? Não, obrigado.

logo editorialFaz hoje 88 anos, vivia-se o último dia da I República. O desespero, a desorientação, alastravam como uma mancha de óleo. No dia 25 o governo de António Maria da Silva decidiu deixar de estar representado na Câmara dos Deputados, interrompendo o fluxo entre executivo e parlamento que permitia um funcionamento minimamente democrático. O labirinto de ideias, de problemas insolúveis, de ambições e de ódios, crescia e   adensava-se, parecendo ter apenas uma saída – a ditadura.

Muitos democratas estavam de acordo – a situação era insustentável – só um período de tranquilidade imposto militarmente, podia impedir a República de se auto-aniquilar. “Arrumada a casa”, a democracia voltaria, mas respeitando regras, excluindo abusos. E   a contagem decrescente começou. O Congresso Mariano convocado para o dia 28 em Braga determinou que aquela cidade fosse o ponto de irradiação do golpe. Naquela quinta-feira, dia 27, Cunha Leal organizou um almoço com gente influente da capital do Minho. Num discurso arrebatado, atacou o Partido Democrático, «outrora obediente à ameaça do chicote de nove rabos do Dr.   Afonso Costa», mas que agora já nem sequer tinha liderança sendo «um instituto tresmalhado». No chamado discurso do Bom Jesus, Cunha Leal desmontou, peça por peça, o aparelho de uma democracia doente e precocemente anquilosada por doenças endémicas, por deficiências estruturais que tinham destruído o regime monárquico e que a República não tivera capacidade para solucionar.

Este discurso colocou uma passadeira para que o golpe militar entrasse triunfalmente na História O general Gomes da Costa chegou às dez da noite a Braga. Às seis da manhã de sexta-feira, dia 28 de Maio de 1926, forças militares que ascendiam a 13 mil homens começaram a movimentar-se na direcção de Lisboa. No imaginário de alguns acendia-se o exemplo da marcha dos fascistas sobre Roma que, em 28 de Outubro de 1922, trouxera a Itália «a paz e a ordem». A paz e a ordem que reina nos cemitérios.

Salazar preparava-se para transformar o País num redil de ovelhas, com cães rodeando o rebanho, não o deixando tresmalhar. A paz e a ordem iriam manter-se por quase meio século. Quase nove décadas depois, alguns dos problemas que não se resolvem com mudanças de regimes e, muito menos, com mudanças de nomenclatura política, colocam-nos num labirinto cuja saída não encontramos. Mas temos obrigação de saber por onde «não sair».

«Paz e ordem», nunca mais.

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