Durante os dezoito meses do período revolucionário, Sebastião viveu numa permanente euforia. No meio daquela balbúrdia generalizada, os seus documentos falsificados tinham um aspecto de legitimidade tão elevado que, por vezes, o tornavam suspeito. Desempenhou diversos papéis, alguns com interesses materiais como objectivo central, outros por puro divertimento, como foi o de enviado secreto do Vaticano. Tão secreto que sendo um bispo vinha com trajo secular. O Cardeal Patriarca que recebera na véspera uma misteriosa mensagem não assinada, mas escrita com a caligrafia de Paulo VI, avisando-o de que nem sequer na nunciatura devia confiar, por haver comunistas infiltrados inclusive no pessoal eclesiástico. Era um encontro entre dois homens, dizia Pacelli. O Vaticano negaria ter havido qualquer contacto se houvesse fuga de informação. E devia destruir aquele bilhete logo que o acabasse de ler.
Antes de narrar esse encontro secreto, é necessário sabermos que o padre da freguesia onde tinham a herdade, insinuara uma vez na homilia dominical que ele casara com D. Márcia por interesse – o que não sendo verdade, não seria totalmente mentira. Em todo o caso, o sacana (Sebastião quando se referia ao caso, esquecia a sua linguagem apurada), ao exaltar as virtudes do casamento, advertira os fiéis que era uma traição à fé casar sem ser por amor, casar por motivos venais, tais como o apossar-se da fortuna da noiva … E olhara ostensivamente na direcção das cadeiras em que ele e D. Márcia se sentavam… e só depois completou a frase – «ou vice-versa». Acontecera que ao passar em revista os donativos que a esposa fazia mensalmente, com uma verba exagerada para a paróquia, a aconselhou a repartir a verba com os bombeiros voluntários e com a sociedade de recreio e cultura. Quando o padreca, vendo a verba ser tão reduzida, perguntou a D. Márcia o que se passava, ela que não sabia mentir, disse-lhe que seguira o conselho do marido.
O padre ficara a odiá-lo. Quando Sebastião entrava no café da aldeia, ele saía ostensivamente. A guerra começou a ser declarada, aberta – o padre pôs a circular o boato de que Sebastião se envolvera com Genoveva, a mulher de Paulo: «Vocês sabem que na nossa aldeia ainda se exerce o direito de pernada?» – calou-se quando Paulo Martinho e a Genoveva, o encontraram sozinho na sacristia e Paulo, agarrando-o pelo pescoço, lhe exigiu provas imediatas da calúnia que andava a espalhar, uma retractação pública e total. Ou então mandava-o para o hospital todo partido. Genoveva, católica praticante, quando Paulo largara o padre para o deixar escolher, com o seu corpanzil temível, atirou-lhe um pontapé às canelas e perguntou-lhe:
– Então, filho da puta, não respondes?
Claro que o homem optou pela retractação e na missa de domingo pediu perdão a Deus e aos paroquianos por ter difamado uma honrada mulher. Entretanto, antes desta acção de Paulo e de Genoveva. Sebastião mostrava no café um bilhetinho que fora interceptado, do padre para um rapaz da aldeia propondo-lhe um encontro… Enfim, Quando o padre entrava no café, os antigos companheiros do bilhar levantavam-se e saíam.
Nesta visita ao Patriarcado, o bispo francês, mas que falava italiano, entrara pela porta do pessoal, alertara o cardeal contra padres espalhados pelo país, que serviam de caixa de correio a material enviado de Moscovo, propaganda, dinheiro e até armas. Não trouxera nomes, pois temia ser interceptado e quando estava a dizer isto, lembrou-se do seu inimigo e, citou-o como exemplo que retivera. Dizia-se de direita, mas era um agente do comunismo internacional. E era pederasta e pedófilo. O padre nunca chegou a saber porque foi retirado da paróquia e colocado num seminário com funções subalternas, uma espécie de continuo, e vigiado ferozmente. Proibido de contactar os seminaristas, passava o dia na lavandaria ou na rouparia dobrando toalhas… Como general, com mandado da troika formada no Verão de 75 por Costa Gomes, Vasco Gonçalves e Otelo, inspeccionou diversas unidades militares, fazendo observações severas.
Outro episódio digno de registo, foi o do seu aparecimento como enviado especial do PPSh (Partia e Punës e Shqipërisë), Partido Trabalhista da Albânia, com uma saudação especial do camarada Enver Hoxha «para os comunistas portugueses». A Voz do Operário, estava cheia como um ovo. Fez uma vibrante intervenção em francês, lendo primeiro a curta mensagem do camarada Hoxha. Em seguida, cometeu uma gaffe terrível ao emendar a tradução que um “intérprete” fez do seu discurso. Não sabendo francês suficientemente, o jovem improvisou metendo slogans do seu partido na tradução. Em francês, o nosso amigo, corrigiu-o e admoestou-o pela sua fraude manipuladora. Da primeira fila da plateia, Martinho fazia-lhe sinais que ele acabou por se dar conta. Na sala ia um burburinho dos antigos, com os francófonos presentes a traduzir para outros o que o camarada albanês dissera. Antes que a pergunta fatal atingisse aqueles cérebros marxistas-leninistas (“Como é que ele soube que a tradução estava mal?”), pediu calma e começou a falar num português abrasileirado. Trabalhara no Brasil durante mais de um ano e aprendera alguma coisa de português. «Mas falo muito mal a vossa língua». Protestos na assistência – «Falas muito bem. Camarada, continua!…».
Repôs aquilo que, de facto, dissera, mas fez um elogio ao intérprete. Imerecido, pois o rapaz fora aldrabão. Mas quem melhor do que Sebastião para compreender uma aldrabice? As coisas estavam a correr tão bem que não resistiu à tentação de fazer um peditório a favor das mães trabalhadoras da Albânia a quem o criminoso boicote capitalista impedia de alimentar convenientemente os seus filhos. Há bebés com fome…
Uma onda de ternura solidária encheu a velha sala – raparigas e rapazes logo começaram a circular por entre a assistência recolhendo donativos. Rapidamente em cima da mesa instalada no palco se alinharam sacos com moedas e notas.
No altifalantes explodiram os primeiros acordes da Internacional. Cerrando o punho, Sebastião, com voz abaritonada cantou em albanês (pois fizera os trabalhos de casa):
– Këmbë, viktima të urisë!/Qëndrimi ngordhje e tokës!/Ideja si flaka konsumon… Foi a apoteose.