A União Europeia podia ser um espaço e uma entidade política, económica e social onde os cidadãos se sentissem pertença do mesmo corpo e portadores do mesmo destino. Podia se os europeus não fossem como os muçulmanos. Os muçulmanos acreditam num só Deus – Alá – mas os sunitas entendem que os xiitas são o diabo, falsos, perigosos e ambiciosos e os xiitas excomungam os sunitas com os mesmos argumentos. Uns e outros estão de acordo que o seu mesmo deus quer a morte dos outros. O mundo islâmico, tal como a União Europeia vive na fé de um estranho Deus que tem filhos degenerados,com os do Norte a acusarem os do Sul e estes os do Norte.
Na União Europeia ainda não chegámos ao apuro da fé de nos arrasarmos a tiro e à bomba em nome da justiça do profeta, como entre a Síria e o Irão, como fizemos há 100 anos e há 75. Estamos só na fase do insulto e das punições de quaresma: os povos pecadores do Sul têm de jejuar, a bem ou a mal. Pagam com língua de palmo não só o sol, o vinho, o peixe comoos fundamentos da filosofia, da literaturacultura e da religião matricial da Europa. Os do Norte – e foram eles que estabeleceram a divisão –entendem que depois de terem comido, bebido e até pensado à conta dos do Sul lhes podem sacudir os bolsos como os magrebinos sacodem os pés das areias do deserto.
A União Europeia até tem uma madrassa. É alemã e decretou um ramadão a uns tantos pecadores.
A União Europeia podia ser um espaço de convivência se não fosse dirigida por uns mullahs que falam de défice como um clérigo islamita de torresmos e bagaceira. Que falam de gregos, de portugueses, de espanhóis como se fossem coelhos com mixomatose, ou galinhas com gripe, de mulheres que riem e que guiam automóvel. Sub-espécies humanas. Infra humanos. Os europeus deviam estar de sobreaviso quanto aos mitos da superioridade racial. Nem em Bruxelas, nem em Berlim parecem estar.
Tal como no islamismo com sunitas e xiitas, dentro do que ainda se chama UE conflituam duas ideias principais sobre a verdade que leva ao paraíso: a dos ingleses, que a vêm à distância a União Económica e Monetária como umPanzeralemão e os alemães, que a vêm como um campo de trabalho que eles dirigem com mão de ferro. Quanto ao resto ninguém tem a menor ideia do que é a União Europeia, nem do que devia ser. Por isso o presidente da coisa na sua versão actual é uma caixa de ressonância que se chama Durão Barroso, que tem da política a mesma noção que um tocador de bombo tem da música. De vez em quando faz Bum!
Além da inspiração islâmica, a União Europeia recebeu também a herança romana da construção naval. A UE estava a ser construída segundo os princípios das trirremes romanas: seria dirigida por uma tripulação escolhida de eurocratas e tecnocratas financeiros, transportaria em primeira classe uns passageiros alemães e uns banqueiros,seria movida à custa de uma multidão de escravos do sul amarrados aos remos, nos porões.
A convicção de que é possível construir um império duradouro com base no racismo, na xenofobia, na exploração e na escravatura tem maus antecedentes históricos, mas era preciso conhecer alguma coisa de História para encontrar uma alternativa. As eleições para o Parlamento Europeu, com o reforço dos nacionalistas de direita e de esquerda – nacionalistas antes de tudo e, como todos os nacionalistas, agindo para imporem a superioridade da sua tribo – deixaram ver o totalitarismo através da porta que esses vencedores abriram.
Grande linha divisória dos europeus passa hoje por ser a favor de um projecto Europeu, de uma Europa como casa comum dos democratas e dos progressistas ou ser a favor dos projectos patrióticos, sejam eles de nacionalistas que se dizem de direita ou de esquerda.
Em conclusão: o resultado destas eleições prova que os anti-europeístas estão a cantar vitória à volta de velhas fogueiras… que estão a preparar uma jihad enquanto prometem as delícias dos seus paraísos jamais visitados…