COMO NOS CONHECEMOS UNS AOS OUTROS? A “ALMA” VÊ-SE NO ROSTO? por Clara Castilho

 

Para Rachel, Carlos, Helena, João, Helena, Manuel, António e Célia

Vem isto a propósito de um almoço de colaboradores do nosso blog e das relações estabelecidas. Uns, amigos de há longos anos e com vivências comuns, outros mais recentes e uma desconhecida.

Conhecíamos a sua escrita, alguma da sua obra, alguns poemas, emails trocados. E uma foto que, pela internet nos chegava, assim como tudo o resto. A curiosidade era de ambos os lados. Eis-nos reunidos com Rachel Gutiérrez.

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Helena Vieira da Silva

“De que estrelas caímos para nos encontrarmos aqui?” é uma das falas de Nietzsche na obra de Raquel Gutiérrez (pag.11 – 1). Poderíamos dizer o mesmo sobre as nove pessoas ali sentadas, no Restaurante Pessoa Lda, na Rua dos Douradores, em Lisboa.

E por falar em Fernando Pessoa, (in “Tabacaria”) talvez um pensamento comum a todos fosse:

“ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

E então, que deixaremos nós? Do projecto comum que é o blog “aviagem dos argonautas” – um blog um blogue português, mas aberto ao mundo, com especial carinho pela Galiza, Catalunha, Brasil, um espaço plural, não partidário, contrário ao pensamento único e ao dogmatismo, um espaço  livre, que tem na Liberdade e cultura as suas paixões, que defende a democracia e a justiça social –  deixaremos o que lá formos escrevendo, as questões que lá formos levantando, as posições que formos tomando. Está descoberto o primeiro ponto em comum.

Olhando olhos nos olhos, podemos sentir, antever o “ser” do outro”? Alguma coisa certamente (Raquel me disse ao ouvido: Olhe que olhos X tem. Tem que ser boa pessoa!). E depois a conversa, saltitando da gastronomia, a viagens, a vivências, a projectos, pessoais e colectivos, ao prazer do vinho escolhido….

E em comum, atrevo-me a dizer, um segundo ponto. Utilizarei palavras de Rachel para o descrever:

“Qualquer que seja a trajetória do artista, seu desregramento ou seu sofrimento, sua dedicação ou sacrifício – em uma palavra: sua paixão -, o que transcende e justifica tudo isso é que a obra de arte nos revela, como diz Borges, a nossa própria cara.” (pag. 69 – 2).“Narcisismo e Poesia”.

Ou dito de uma outra forma, agora com as palavras de Thomas Dylan, referidas na mesma obra (pag. 78):

 …”Que importa o que é a poesia afinal?…Você sempre será levado de volta ao mistério de ter sido tocado pelas palavras”.

E a conversa continuava, todos aceitando as opiniões dos restantes, bebendo o momento presente que se não voltaria a repetir. E volto a um texto de Rachel (afinal…. tudo isto vem a propósito da sua vinda a Portugal) sobre Clarice Lispector, e ainda no mesmo livro (pag. 99):

 “O perguntar é generoso. Perguntar é abrir, é descortinar, é vislumbrar e expandir horizontes. Responder é limitar, fechar, encerrar. Perguntar é o eterno recomeço, é a vida nascendo e se alargando em infinitas possibilidades, inclusive a de errar e de recomeçar. Perguntar tem o peso da consciência crítica e a leveza da imaginação. Perguntar é pensar”.

E eis o terceiro ponto em comum: o perguntar. Eu, por mim, vim de lá com mais interrogações.

1-       GUTIÉRREZ, R. – Lou Andreas Salomé/Palavra de mulher/Solo para computador: Teatro.
Rio de Janeiro, Booklink, 2011.
2-       GUTIÉRREZ, R. – Narcisismo e poesia. Rio de Janeiro, Booklink, 2004.

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