EDITORIAL – Os impérios também se abatem

Imagem2Os impérios parecem eternos, mas são perecíveis. Feitas as contas, o Império Romano do Ocidente, durou 500 anos – numerosas gerações se sucederam pelo mundo que se aninhava em torno do Mediterrâneo.Sabendo-se o que dura uma vida humana, não é de estranhar que os impérios, as potências dominantes, pareçam eternas a quem vive sob o seu jugo. Hoje, o Império Romano serve de argumento a filmes de aventuras…

Quando os reinos da nossa Península se lançaram na descoberta do mundo, deixando os estados europeus mergulhados nas suas lutas dinásticas e territoriais, criaram uma hegemonia à escala planetária que teve um ponto alto em 7 de Junho de 1494, faz hoje   520 anos, quando em Tordesilhas se firmou um tratado que na prática dividia o planeta em duas partes. E durante o século seguinte, os estados europeus continuaram envolvidos nas suas querelas territoriais e dinásticas. O poder de Portugal e da coroa dual de Castela e Aragão, era enorme. As armadas peninsulares podiam interceptar qualquer nave francesa, inglesa, veneziana, flamenga – a política de mare clausum impedia os barcos dos estados europeus de circular sem autorização em águas que , com o apoio da Santa Sé, um ou outro destes estados controlava. Ingleses e flamengos,vendo as rotas comerciais vigiadas por portugueses e castelhanos, tentavam constituir peças jurídicas que pudessem limitar o poder dos dagos. Foi em 7 de Julho de 1494 que o Tratado de Tordesilhas, assinado entre as coroas de Portugal e Castela e Aragão veio sancionar com a benção papal uma situação que os estados europeus tradicionalmente poderosos contestavam. Francisco I de  França pediu ao papa que lhe mostrasse o Testamento de Adão que excluía o seu estado da partilha do mundo. Tordesilhas consagrou a política de Mare Clausum. Os orgulhosos estados europeus – Inglaterra, França, Flandres, as repúblicas de Veneza e de Génova, tiveram de se resignar ou recorrer à pirataria.

Do rescaldo da II Guerra Mundial, emergiu uma nova superpotência. Nas primeiras quatro décadas da sua vigência, o império americano teve na União Soviética uma força que   impunha agum equilíbrio. Vários «tratados de tordesilhas» foram assinados entre as duas potências. Pelas razões históricas que se conhecem, os Estados Unidos estão hoje aparentemente sozinhos na liderança do planeta. Para quem nunca conheceu outros amos, parece eterno este império – fomos obrigados a aprender a língua imperial, a adoptar hábitos que    vão do consumo de cereais ao pequeno-almoço aos serões televisivos com estúpidos talk shows.

Alain Resnais, o realizador de Hiroshima, mon amour, disse que é trágico nascermos no tempo americano e não sermos americanos. Sentimos isso, mas sabemos que este império está em contagem decrescente. Provavelmente, outro império se esboça na sombra deste. Poderá ser que os nossos netos ou bisnetos tenham de aprender mandarim e comer arroz…

Uma terra sem amos? Temos de acreditar que é possível.

 

 

 

 

 

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