CONTOS & CRÓNICAS – Uma nota sobre Manuel da Fonseca – por João Machado

contos2 (2)

A propósito da conferência da Rachel Gutiérrez, na Sociedade Portuguesa de Autores, em 23 de Maio de 2014.

A argonauta Rachel Gutiérrez esteve há dias deste lado do mar e deleitou-nos com a sua amável companhia durante alguns dias.Um dos pontos altos da sua estadia foi uma notável palestra, que proferiu na Sociedade Portuguesa de Autores, no dia 23 de Maio passado, em que se debruçou sobre três contos, de três grandes escritores brasileiros, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Sobre a palestra propriamente dita a Clara Castilho já tratou, aqui no nosso blogue A Viagem dos Argonautas, melhor do que eu alguma vez o faria. Contudo, a propósito de uma referência feita, na conversa que se seguiu com o público, penso ser oportuno apresentar a nota seguinte.

Foi realçada por Rachel Gutiérrez a importância do conto na literatura. Tanto ela, como o também argonauta Manuel Simões, que estava entre o público presente, referiram, muito apropriadamente, que na literatura portuguesa há poucos contistas. Foram mencionados alguns exemplos, como o de Manuel da Fonseca. Em sequência, tendo em conta o que se disse e o que ficou por dizer (nestes encontros fica sempre alguma coisa por dizer, e tanto mais quanto melhor for a conversa) pareceu-me oportuno referir algumas coisas sobre Manuel da Fonseca.É sempre importante recordar Manuel da Fonseca, e neste caso mais ainda porque o encontro foi promovido por A Viagem dos Argonautas.Por outro lado na sessão foi referida a situação da mulher,e alguém referiu o pouco que se escreve sobre elas, e a problemática que as afecta.

Sobre Manuel da Fonseca, escritor alentejano, e talvez ainda mais escritor do mundo, convirá recordar que nasceu em Santiago do Cacém, em 1911, e faleceu em 1993, em Lisboa, no Hospital de S. José, para onde fora transportado, após sofrer uma queda na sua terra natal. Viveu grande parte da sua vida na zona de Lisboa, mas acabou sempre por voltar ao Alentejo. Foi poeta de grande talento, romancista e mestre na arte do conto. A começar pelas histórias que contava aos amigos ao serão, muitas das quais infelizmente terão ficado por escrever. A este respeito diz-se que ele, contista exímio, adorava entreter os amigos ao serão com uma boa história, e, por vezes, quando lhe recomendavam que a passasse a escrito, dizia que ele já tinha tido o trabalho de a inventar, e portanto teria que ser outro a aguentar o encargo de a escrever.

Para melhor definir o escritor é de citar Urbano Tavares Rodrigues que na introdução à antologia Alto e Baixo Alentejo (Livraria Bertrand, colecção Antologia da Terra Portuguesa, Lisboa, ano?), falando do Alentejo e dos autores que sobre ele escreveram, diz, na pág. 22, sobre Manuel da Fonseca:

Dotado de vigor e graça picaresca e de sentido da peripécia dramática, aparece-nos Manuel da Fonseca, um neo-realista singular, obedecendo mais à sua própria fantasia e talento de improvisação do que às directrizes de “escola”.

Com poucas palavras, Urbano Tavares Rodrigues diz muito sobre Manuel da Fonseca, resumindo a sua postura na abordagem à literatura. Será de acrescentar que, pelos elementos que dispomos, Manuel da Fonseca desde cedo que se interessou por contar histórias, devido a influências familiares e a contactos que teve com diversas literaturas, começando pela portuguesa, claro, mas também com a brasileira e a norte-americana. Se os seus primeiros passos na literatura foram claramente na poesia, escrever contos deve ter sido para ele, também desde muito cedo, um caminho a seguir, na sua carreira de contador de histórias. Já em 1942, tinha ele portanto 31 anos, foi publicado o seu primeiro livro de contos, Aldeia Nova.

Peço a vossa atenção para um dos contos de Aldeia Nova,Maria Altinha, que julgo vir ao encontro do que acima referi relativamente ao que ficou por dizer na sessão. É a história de uma das “mulheres que vivem lá para o sul, ao pé do mar”, e que todos os anos “atravessam as serras e espalham-se pela planície, para a monda e para o trabalho dos arrozais”. Maria Altinha vem à procura de ganhar dinheiro, para que a mãe e os irmãos pequenos não passem fome no Inverno. “Por isso a sua voz clara transbordava de alegria quando cantava e os malteses quedavam-se a ouvi-la até o sono vir”. Depois a dureza do trabalho vai surtindo efeito, enquanto Valdanim tenta abordá-la, sendo rejeitado. O paludismo domina Maria Altinha, e fica sozinha e indefesa, sem mesmo poder ir ao trabalho. O predador vê a oportunidade e usa-a. No fim da faina, é o regresso para o sul “E aquela moça que tanto cantava e ria, para ali vai, murcha, calada como uma sombra. Só lá por dentro os pensamentos se enrodilhavam numa amargura sem fim”.

No prefácio à 11ª edição de Aldeia Nova, Editorial Caminho, da Lisboa, 1984, Manuel da Fonseca refere que, pouco depois de saída a 1ª edição, em 1942, tinha sido abordado pela embaixada alemã, comunicando-lhe que, por lapso dos serviços, não lhe tinham pedido autorização para a tradução deste conto, que entretanto já teria saído em dois jornais, Die Zeit e Der Reich. Isto durante a Segunda Guerra Mundial, com cada uma das facções beligerantes a querer exercer influência e captar apoios das várias camadas sociais do nosso país, incluindo escritores e artistas. Mas será de assinalar que este conto teve eco na altura em que foi publicado, apesar das grandes dificuldades prevalecentes. A tradução para o alemão terá sido feita, segundo as informações de que dispomos, por Ilse Losa.

É de realçar a enorme qualidade deste conto, em que se combinam o talento, a veia poética e a indignação de Manuel da Fonseca perante a exploração brutal das mulheres, que culmina na violação de Maria Altinha. Sem qualquer cariz panfletário, com um apurado sentido estético, consegue contar-nos em poucas páginas o drama de uma jovem trabalhadora, que procura ajudar a sua família, e expõe-se a perigos e violências, desde a prepotência do capataz à ferocidade de um predador. Fico perplexo ao constatar como este conto é tão pouco conhecido no nosso país, hoje em dia.

Permitam outra citação, do artigo Duas Sequências Alentejanas: Ética e Estética nos contos Maria Altinha e Mestre Finezas, de Manuel da Fonseca, de Fernando de Moraes Gebra e Fernando António Machado, saído na Revista de Letras Norte@mentos – Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Edição 11 – Estudos Literários 2013/01. Esta revista electrónica é da UNEMAT, Universidade do Estado do Mato Grosso. O primeiro dos autores pertence à área dos estudos literários, o segundo à da ciência política e sociologia. Poderão ter acesso ao texto pelo link:

http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/norteamentos/article/view/1187

Os autores procuram integrar o neo-realismo português na literatura do seu tempo, e a seguir debruçam-se sobre dois contos de Aldeia Nova, Maria Altinha e Mestre Finezas. Admitem que ambos os personagens representam um grupo, através de um processo metonímico, em que o sujeito não se limita a representar um indivíduo, mas também um grupo. Em Maria Altinha referem a importância do espaço em que a acção se insere, e a importância do factor trabalho na identificação da presença humana. Maria Altinha representa a classe trabalhadora, enfrenta um destino trágico comum ao proletariado. Realçam a forma como o projecto estético do escritor acompanha o seu envolvimento (engajamento) no enfrentamento e procura de mudança de uma condição imposta, forma essa resultante de uma reflexão sobre qual será o papel da arte nessa mudança.

Algumas das ideias expostas pelos autores poderão merecer discordância, contudo julgo que conseguem fazer ressaltar muito bem como Manuel da Fonseca consegue equilibrar forma e conteúdo, com vantagem para a história que conta e para a causa que serve. Acertam quando assinalam que Maria Altina representa a classe trabalhadora no enredo do conto, mas não ao ponto de reconhecerem a especificidade da condição da mulher, sujeita a um grau de exploração ainda mais violento, o que julgo que o autor terá querido fazer ressaltar.

2 comments

  1. Prometido é devido… Aqui está a resposta, muito bem escrita e a abrir o apetite para se ir ler o conto.

    Gostar

  2. António Gomes Marques

    Muito bem, João, não podemos permitir que Manuel da Fonseca seja esquecido. A «Seara de Vento» é uma obra-prima em qualquer literatura, os seus contos, não apenas os de «Aldeia Nova» mas sobretudo os de «O Fogo e as Cinzas», são do melhor que alguma vez se publicou. No que me diz respeito, a amizade permitiu que eu fosse um dos ouvintes dos seus contos orais, lamentavelmente não passados a escrito e publicados.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: