TRÊS CONTOS BRASILEIROS – RACHEL GUTIÉRREZ NA SPA VI

Apresentamos a parte final da palestra.

clarice lispector 2

“E preciso contar-lhes outra associação que também me invade cada vez que leio esse conto.

A Ana de Clarice Lispector me remete insistentemente a uma personagem muito bonita e comovente de Roberto Rossellini, no filme Europa 51. E não posso deixar de imaginar que Clarice teria visto esse filme, que foi lançado em 1952. (A primeira edição de Laços de Família, pela Francisco Alves, do Rio, é de 1960. Pode ser apenas uma coincidência….). No filme, Ingrid Bergman encarna uma mulher rica da sociedade romana, uma socialite, que vivia uma vida de festas e superficialidades mas que, ao  perder seu único filho, em estado de choque profundo, procura dar sentido à sua vida e passa a se dedicar aos pobres, aos sem teto, aos sem comida e aos doentes. Evidentemente, isso cria um sério conflito com seu marido e com a família, principalmente, é claro, porque ela entrega também o seu dinheiro. Sua sanidade mental é questionada e ela acaba num sanatório, naturalmente.  Sabe-se que o próprio cineasta preferia esse filme entre todos os que realizou, e que o considerava uma nova versão de “As flores de São Francisco”, da perspectiva de uma mulher. Essa personagem da alta sociedade é julgada não apenas louca, mas perigosa e comunista, pois além de tudo, ela vai trabalhar numa fábrica e declara que não podia mais  suportar que os seus privilégios de classe não fossem comuns a todas as pessoas.

A Ana de Clarice é apenas pequeno burguesa, pertence à classe média média, mas num determinado momento  pensa em seu delírio de bondade, ou amor total, que seria  obrigada a beijar o leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. … Ah era mais fácil ser um santo do que uma pessoa. E uma figura histórica também um tanto “franciscana” foi a filósofa judia Simone Weil.

                                *     *     *

Os três personagens parecem assombrados pela loucura: o de Machado, ao perder sua alma externa, teme enlouquecer; o de Rosa já começa evocando todos os temores que os espelhos inspiraram ao longo do tempo em diferentes culturas, mas é a personagem de Clarice, quem chega mais perto da loucura durante o delírio no Jardim Botânico… E ela, como os outros, também vai ser salva e se reintegrar no papel de mulher casada e mãe, protegida pelo seu “anti-Orfeu”.

E para finalizar, gostaria de mais uma vez apenas sugerir que os personagens dos 3 contos nos dizem, sim, quem nós somos: esse alferes, tão vaidoso, tão narcisista e por isso tão atual mais do que nunca a partir do século XX, tão convencido de que é o que aparenta ser e que valoriza o Ter e o parecer acima do Ser;  ou o  eu menino redescoberto por Guimarães Rosa, tão puro e tão belo ;  ou a Ana,  tão aguda no seu conflito dramático, atingida pelo demônio da fé ou pela tentação do amor total,  a mulher que quase se perde ( ou será que se encontraria?)  na “tentação da solidariedade”, ou na de enxergar o Outro,  e a ele se  consagrar.

Digamos que eles nos acenam, portanto, com essas 3 possibilidades: a de nos identificarmos com a aparência; a de  mergulharmos em nós mesmos em busca do nosso eu mais profundo ; ou a de exercermos algum tipo de  “franciscanismo”.

 Invoquei Rilke no início, portanto, vou evocá-lo agora para terminar com esta sua afirmação: “Sempre pensei que é o dom do poeta tornar mais claro e mais visível para os outros o que eles possuem.” E a vossa –  mas também um pouquinho nossa –  Maria Helena Vieira da Silva disse que “o quadro não é uma evasão, deve ser um amigo que nos fala, que descobre riquezas em nós e à nossa volta.”

Acrescentemos ainda o que a Professora Elisa Costa Pinto lembrou, com absoluta propriedade e grande sensibilidade – o último parágrafo do conto Amor, de Clarice Lispector, que encerra a nossa palestra com a personagem Ana diante do seu espelho:

E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena chama do dia.”

Para consultar partes anteriores da palestra:

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/02/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/03/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-ii/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/04/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-iii/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/05/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-iv/

http://aviagemdosargonautas.net/2014/06/06/tres-contos-brasileiros-rachel-gutierrez-na-spa-v/

 

 

 

Leave a Reply