
III
O americano ainda fez um gesto para sacar do bolso traseiro das calças o revólver e dar um tiro no holandês, quando o diabético, erguendo no ar uma mão expressiva e eloquente, tomou a palavra por sua vez:
– Essa da ostra fez-me lembrar a da cadela da minha tia Quitéria. Tenho uma tia chamada Quitéria, de raça vulgar, que possui uma cadela de raça extraordinária. Minha tia tinha muito gosto em assegurar à sua cadela, que se chama Aspirina, uma descendência regular; mas, por uma questão dos princípios herdados de família que formam a base do seu espírito esclarecido e sorumbático, por coisa alguma deixaria Aspirina cruzar-se com uma raça que não fosse a dela, raça extraordinária como disse e agora repito.
Uma tarde – é singular que todas estas nossas histórias começam à tarde! – minha tia Quitéria estava fazendo uma manta de crochet para o seu esquentador a petróleo, quando de súbito a sua criada, – Epifânia se chama ela, caso não vejam nisso qualquer inconveniente, – entrou açodada na saleta onde minha tia se entretinha em seus lavores e exclamou, tendo na sua voz uma irreprimível comoção:
– Minha senhora! Minha senhora! A mulher da capelista tem um cão da raça da cadela da minha senhora…
Minha tia cuidou morrer de apoplexia e deixar-me desde logo herdeiro dos vários bens que hão de acudir um dia aos meus males.
– Que diz você, mulher? Vá correndo à senhora capelista e peça-lhe o cão emprestado por um bocadinho.
– Sim, minha senhora, – concordou a criada, que desceu a quatro e quatro os degraus da escada e se precipitou para a rua correndo.
Cinco minutos depois, voltava com o cão. Minha tia pôs os óculos e examinou o animal. Não havia dúvida. Era da raça de Aspirina.
– Feche os dois na dispensa e logo á tarde leve o cão outra vez à capelista, – ordenou a minha tia.
Assim se cumpriu e, para que não falhasse o plano maravilhoso, durante toda a semana se fecharam na dispensa, por espaço de meia dúzia de horas, Aspirina e o cachorro da capelista.
Depois, minha tia Quitéria aguardou pacientemente uns meses. Infelizmente Aspirina não dava sinal de cumprir as esperanças da sua dona, até que esta foi lamentar-se um dia à capelista do insucesso da sua tentativa.
A capelista ouviu-a com toda a atenção e no fim explicou:
– Se me tivessem explicado para que queriam o cão emprestado, eu tinha-as logo avisado. O Joli não se pode contar com ele para certas coisas, não porque seja um cão menos cadeleiro que os outros, mas porque, coitadinho, está embalsamado, vai agora fazer dez anos no dia de Santo Ambrósio.
28 de Janeiro de 1923
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