SOBRE O TEXTO DE RICARDO A MARX, DE MARX A RICARDO, SOBRE O LIVRO DE PIKETTY, SOBRE A DINÂMICA DAS DESIGUALDADES: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Sobre o texto de Ricardo a Marxde Marx a Ricardo, sobre o livro de Piketty, sobre a dinâmica das desigualdades: algumas reflexões

21 de Maio de 2014

Parte VIII

(CONTINUAÇÃO)

IV. Globalização e repartição: a necessidade de um regresso aos grandes clássicos

Deixem-nos utilizar um texto de um projecto de livro para o qual com os meus colegas nunca encontrámos editor, onde se quer mostrar o comportamento diferenciado face à poupança das diferentes classes sociais perante o sistema económico que vem já dos anos de 1990 que enquanto gera instabilidades financeiras para uns cria certezas financeiras.

Façamos aqui a análise no caso dos Estados Unidos da evolução da relação entre o valor patrimonial líquido e o rendimento disponível, por grupos homogéneos de rendimento, dividindo as famílias em cinco grandes grupos ou quintis, por um lado e por outro estudando também a ligação ou contribuição de cada um dos grupos na formação da poupança agregada. Utilizemos para isso um estudo do FED em que nos mostra esta questão do consumo dos mais ricos até ao ponto extremo que é o facto de serem os mais pobres, as famílias de menores rendimentos a pouparem para os mais ricos gastarem neste consumismo extremo de alto, muito alto luxo, como se viu antes, num país em que a taxa agregada de poupança das famílias é negativa. Estes dados mostram-nos até ao limite do não insuportável como é a estrutura de rendimento e de património nesta lógica de uma globalização assente na mobilidade quase que absoluta dos capitais e das mercadorias, assente na flexibilidade dos mercados, sobretudo do trabalho, na subordinação das políticas nacionais, monetárias, cambiais e orçamentais, aos interesses do capital financeiro internacionalizado, subordinação esta a que ironicamente também se chama a privatização do Estado. Mostra-nos ou confirma tudo o que temos estado a firmar quanto aos bens de luxo.

Consideremos a população dividida em cinco segmentos de rendimento, ou seja, uma repartição em cinco quintis. A tabela abaixo mostra que entre 1992 e 2000 os 20% das famílias americanas com mais elevado rendimento tiveram e por uma larga margem um acentuado aumento na sua relação entre o seu valor patrimonial líquido e o seu rendimento disponível e uma diminuição da taxa de poupança em comparação com as restantes famílias americanas, ou seja, em comparação com os 80% das famílias americanas de menor rendimento. As 20% das famílias de maior rendimento começaram a década de 1990 com uma taxa de poupança consideravelmente mais elevada do que as outras famílias: 8,5% (coluna (C) da tabela abaixo). No entanto, as taxas de poupança neste grupo das famílias mais ricas caiu muito fortemente durante esta década, cerca de -10,5 p.p. que é a diferença entre as colunas (D) e (C), e no ano 2000 representavam o único grupo cuja despesa ultrapassava o rendimento disponível (uma taxa de poupança negativa de 2,1%). O grupo das famílias entre os 61% e 80% de percentil na distribuição do rendimento diminuiu ligeiramente as suas taxas de poupança, enquanto beneficiaram de uma moderada subida na sua relação entre o valor patrimonial líquido e o rendimento disponível ao longo dos anos de 1990. Enquanto isto, as taxas de poupança e da relação entre o património líquido e o rendimento disponível eram basicamente constantes, entre 1992 e 2000, entre as famílias do quintil de rendimento médio e ao mesmo tempo as taxas de poupança entre os 40% de menor rendimento aumentaram notoriamente e quase que dobraram neste mesmo período. Em 2000, eram estas famílias relativamente pobres que estavam a poupar a taxas consideravelmente mais altas que as restantes famílias americanas.

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Os dados mostram-nos até à evidência que a taxa de crescimento mais rápido da relação entre o património e o rendimento disponível assim como o decréscimo acentuado da taxa de poupança das famílias ao longo da década de 1990 podem quase que exclusivamente ser atribuídos ao comportamento do grupo dos 20% de famílias mais ricas dos Estados Unidos.

Para visualizar de modo mais preciso as tendências de que se está a falar, a tabela abaixo decompõe os níveis das taxas da relação entre o património líquido e o rendimento disponível e os da poupança em 1992 e 2000 e, então, decompõe as variações que se deram neste período em contribuições feitas pelas famílias nos vários grupos de rendimento.

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Entre 1992 e 2000, o valor agregado na relação entre património líquido e o rendimento disponível aumenta 144 p.p. enquanto a taxa de poupança agregada cai 4,6 p.p. A evolução da primeira variável no caso dos 20% mais ricos representa 105,7 p.p., ou seja, 73% da diferença total. Quanto à taxa de poupança agregada desta mesma classe de rendimento diminuiu 4,6 p.p., exactamente igual à variação da taxa global de poupança. Tudo isto nos leva a poder afirmar que há uma ligação directa entre o crescimento da relação entre o património líquido e o rendimento disponível das famílias provocado pelo boom dos mercados financeiros e das bolsas e a redução da taxa global de poupança, sendo o grupo que mais beneficiou da evolução dos rendimentos o mesmo que mais baixou a sua taxa de poupança. Foi o acréscimo da despesa dos americanos mais ricos que gerou o rápido crescimento da despesa agregada verificada ao longo da década. Entre 1992 e 2000, o nível da poupança agregada caiu cerca de 200 mil milhões reflectindo uma quebra de 240 mil milhões de poupança no conjunto dos 20% das famílias mais ricas dos Estados Unidos e esta redução foi parcialmente compensada por um acréscimo na poupança de 40 mil milhões dos restantes 80% das famílias. Este valor de 240 mil milhões representa 7,5% do nível da despesa de 2000 das 20% das famílias mais ricas dos Estados Unidos, o que representa 1 p.p. anual na taxa de crescimento das despesas ao longo do período. Mostra-se assim pela primeira vez a dramática resposta em termos de comportamento dos 20% dos mais ricos americanos e mostra-se que a magnitude desta resposta foi capaz de valer por todo o declínio na poupança agregada das famílias ao longo da última década. Um país com défice externo como é os Estados Unidos, o comportamento das classes de menores rendimentos, ao aumentarem a sua taxa de poupança, evitaram que o desequilíbrio externa atingisse ainda superiores, tendo acabado por ser a classe amortecedora dos disfuncionamentos do sistema económico. Também é verdade que foi o consumo na economia americana que dinamizou a economia mundial e foi então o consumo dos mais ricos dos Estados Unidos que mascararam a realidade explosiva que estava a ser criada e que rebentou em 2008.

Aliás, o então Director-Geral do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, um profundo conhecedor dos mecanismos da economia conforme mostra num livro traduzido para a língua portuguesa, A Chama e a Cinza, diz-nos numa entrevista dada ao jornal Le Monde, a confirmar o que temos estado a afirmar, que face à crise “não se pode parar as políticas públicas de apoio ao crescimento. A procura privada tem estado a ser extremamente fraca, arriscamo-nos a uma recaída. Por outro lado, são agora necessárias estratégias de saída da crise adaptadas para cada país e tornadas públicas para que os actores compreendam o que se está fazer”. À pergunta se a retoma será suficientemente forte, responde: não obrigatoriamente e a questão das novas fontes de crescimento está colocada. É assim que a crise pode ajudar a resolver significativamente os grandes desequilíbrios, em especial o défice americano e o excedente chinês. Nos Estados Unidos está a melhorar a taxa de poupança das famílias que estava praticamente a ser nula e agora situa-se ao nível dos 5% e ouvem-se especialistas a quererem que suba para 10%. Excelente para os défices. Mas quem substituirá o consumidor americano para puxar a carroça do crescimento mundial? A Europa? Não, com certeza. Esta apenas contribui para a retracção deste mesmo crescimento com as políticas de austeridade impostas a todo o continente.

(continua)

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Para ler a Parte VII deste trabalho de Júlio Marques Mota,  publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

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