CONTOS & CRÓNICAS – ADIDO CULTURAL DA EMBAIXADA ETÍOPE – por Carlos Loures

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Como sempre tive o hábito de estudar em cafés, encontrei-o nesses meses que se seguiram no Gelo, no Avis, onde eu ia raramente, no Restauração. Depois daquele primeiro encontro em que tinha ficado visivelmente aborrecido com o comentário que fiz à tal história de incesto (projecto que soçobrara por falta de apoios financeiros) estabelecemos, apesar da diferença de idades, uma certa amizade e foi abandonando comigo o ar de grande senhor que ostentara da primeira vez. Um dia em que não estava mais ninguém na nossa mesa, atrevi-me a perguntar-lhe se ainda era adido cultural da embaixada etíope em Lisboa. Tentei compor um ar sério, mas desmanchei-me a rir antes de completar a pergunta. Ele riu-se também e depois explicou-me:

            – Estava desesperado. O meu senhorio exigiu-me que lhe pagasse os meses em atraso. Tinha recebido uns dinheiros do Azevedo Martins por uns textozitos que publiquei no Letra e Artes, propus pagar-lhe um mês, mas o estupor insistia que era tudo, sete meses salvo erro. Tudo até ao fim do mês ou era posto na rua. Foi num sábado. Pelos jornais soube da chegada do imperador e concebi um plano desesperado. Fui desempenhar uma máquina de 16 mm, telefonei a um amigo tipógrafo e encomendei-lhe os cartões e credenciais que me faz nestas circunstâncias – não era verdade, o «amigo tipógrafo» era ele que tinha uma pequena prensa tipográfica, das que na altura serviam para imprimir cartões de visita – telefonei a outro compincha que tem um daqueles táxis sem distintivo, para casamentos. O Aníbal Paiva. O Paiva tinha um velho Mercedes que ele próprio carinhosamente cuidava e que muitas vezes ajudou a montar o cenário sobre os quais Sebastião desempenhava as suas engenhosas cenas. Continuou:

– No domingo de manhã apareci no Terreiro do Paço. Fui mostrando as credenciais aos guardas da PSP e da GNR e fui passando, falando sempre em francês e com o meu amigo taxista traduzindo. Até que apareceu um oficial, um comissário da PSP, um gajo de botas de montar, que, vendo na lapela do meu fraque a roseta da Legião de Honra, se pôs aos gritos com os subalternos e depois, fazendo-me uma continência, me falou num francês razoável, dizendo que podia passar, pedindo desculpa pela estupidez dos homens. Ordenou a um batedor motociclista que me conduzisse até à tribuna – e concluiu: – Com aquela entrada triunfal depois tudo se tornou fácil. Junto da comitiva etíope apresentei-me como um funcionário superior do Ministério dos Negócios Estrangeiros, pelo que nela fiquei integrado, pernoitando nos hotéis e palácios. Uma maravilha.

            – E o filme?

            – Qual filme?

            – O filme do périplo do imperador…

– Ora! Eu tinha lá dinheiro para comprar bobinas de filme…

– Então…

– Pois… a máquina estava vazia. Dava à corda, a luz vermelha acendia, o ruído característico da corda a desenrolar…

Martinho, que chegara entretanto, e eu desatámos a rir e Lopes-de-Souza, riu também:

– Foram cinco dias maravilhosos. O imperador falou muito comigo e, sabe?, não é nenhum ignorante. No último dia apliquei o golpe – passei horas a pedir aos batedores da polícia para me saberem se tinha chegado alguma coisa para mim. e como a resposta era sempre negativa, mostrei-me agastado, primeiro, e depois furioso contra os «tipos do Ministério», Um ministro abexim perguntou-me qual era o problema. Confidenciei-lho – precisava de dar umas gratificações de fazer umas despesas e estava á espera que me mandassem uma dada importância. O homem quis saber quanto – vinte contos disse eu. E traduzi-lhe isso em dólares 800, 1000 dólares. Então não é que o tipo me entrega um rolo de dinheiro. Eu disse que não, mas ele insistiu muito – depois lhe mandava para Adis Abeba – disse.

Quando cheguei ao quarto e contei o dinheiro ia tendo um chilique de alegria – vinte notas de cem, dois mil dólares. Nunca tinha tido tanto dinheiro junto. Quando cheguei a Lisboa, paguei as dívidas quase todas. E depois…

O Martinho piscou-me o olho e disse:

– Depois, Estoril com ele.

– Pois – confirmou em voz sumida.

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