CRÓNICA DO MUNDIAL – ESTRELAS E BURACOS NEGROS – por Carlos Loures

Imagem3António Gomes Marques, que, por força da ordem alfabética, abriu esta série de crónicas que, em homenagem à memória de Sílvio Castro, um grupo de amigos vai publicar, citou Manuel Vázquez Montalbán e o seu livro Fútbol: una religión en busca de un Dios.  Eu  – que pena não me chamar Zulmiro – tenho de dar sequência a esta série que acompanhará o Campeonato Mundial de Futebol. E cito Eduardo Galeano, escritor uruguaio que muito admiramos, e igualmente amante do chamado «desporto-rei», coloca a pergunta -, “em que é que o futebol se parece com Deus?”. Responde – “na devoção depositada por muitos crentes e na desconfiança de muitos intelectuais”.E Umberto Eco, sem papas na língua, sintetiza, “o futebol é uma das crendices mais difundidas do nosso tempo. É mesmo o ópio do povo  dos nossos dias ”. Após esta entrada erudita, já posso debitar alguns disparates – porém,  ao contrário de muita gente incompetente que cobra fortunas, eu nada recebo em troca dos meus dislates.

A teoria da conspiração anda à solta. Fala-se em favorecimentos, em corrupção.Em negócios obscuros.    Não sei se é ou não verdade, mas não me parece um campeonato particularmente marcado por más arbitragens. Há os pormenores – houve severidade para Pepe e benevolência para Neymar em duas entradas duras, mas enquanto Neymar foi pedir desculpa, Pepe foi ameaçar.

Portugal tem bons jogadores. Talvez nunca tenha tido uma quantidade tão grande de bons executantes. Porém, a política de Paulo Bento parece consistir em privilegiar gente que se dê bem e que o leva a apenas escolher homens da sua confiança. Assim, reuniu uma equipa que se dá bem, mas que joga mal. No balneário não há problemas – no relvado foi o que se viu. Não digo nomes. Vocês sabem do que estou a falar… Viram-se os problemas durante a fase de apuramento – num grupo que nem era dos mais complicados, só no play off conseguimos a passagemo. Cristiano Ronaldo joga muito bem, mas também tem direito à desinspiração e não parece estar a cem por cento. Nem pode jogar pelos outros. O naufrágio ante uma Alemanha agressiva e compenetrada foi a prova concludente de que a política seguida está errada.

Eu disse concludente? Em futebol não há concludências. No domingo, perante os Estados Unidos, tudo o que aqui se diz será confirmado ou desmentido. Como eu gostava de estar enganado…Se há matéria em que não faça questão de ter razão, o futebol está à cabeça. Como diria Groucho Marx – tenho as minhas convicções, mas se não gostarem, eu arranjo outras.

As derrocadas de Espanha e de Inglaterra servem de lenitivo e, para ser franco, não me parece que o Brasil tenha equipa para vencer o campeonato. Pelo menos até agora, as duas exibições brasileiras não foram convincentes. Chile, Costa Rica, Uruguai, Alemanha, parecem mais bem preparados.

Mas repito assumo a minha incompetência enquanto comentador. E nada cobro pelos eventuais disparates que diga. Nem faço questão de ter razão. Duas grandes exibições lusas – contra os camones e contra o Gana – a passagem à fase seguinte, uma série de categóricas vitórias brasileiras, sem ajudas, e aqui estaria eu, qual Ega Moniz, de corda ao pescoço, a pedir desculpa ao Paulo Bento por ter duvidado da sua estratégia e ao Scolari por ter posto em causa a qualidade da «canarinha».

Mas é melhor não gastar dinheiro na corda.

 Para terminar e desejando boas estreias aos três amigos que se seguem, lembro o que Jean-Paul Sartre, outro amante do futebol, disse uma verdade  “num jogo de futebol, tudo fica complicado devido à presença do adversário”. E é mesmo.

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