Selecção e tradução por Júlio Marques Mota
Thomas Piketty e os jovens marxistas sobre o disparar da desigualdade
Timothy Shenk | The Nation | 5 de Maio de 2014
Thomas Piketty and Millennial Marxists on the Scourge of Inequality
Parte VI
(CONTINUAÇÃO)
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Bater no peito sobre a metodologia e sobre as leis no capitalismo seria de pouco interesse, se não se juntasse a descobertas intelectuais substantivas. As contribuições de Piketty nesta frente aparecem em três vias interligadas: históricas, teóricas e políticas. Baseando-se principalmente em dados da Grã-Bretanha, Estados Unidos e França, ele lança o seu olhar sobre o que o historiador francês Fernand Braudel, citado por Piketty, tomou como uma das suas inspirações, denominada a longue durée. Muito do Capital in the Twenty-First Century é, essencialmente, a história do mundo moderno, vista através da relação entre dois factores: crescimento económico, com todas as suas promessas e a taxa de rentabilidade do capital, uma recompensa que vai para a pequena fracção da população que pode ser caracterizada pela faceta que Tina Fey em 30 Rock expressou “o que os ricos fazem quando eles transformam dinheiro em mais dinheiro.”
Os ricos aperfeiçoaram esta arte desde há muito tempo. De acordo com Piketty, a rentabilidade média sobre o capital próprio, após ajustamento pela inflação, tem-se situado em torno dos 5 por cento ao longo da história, com um ligeiro declínio após a segunda guerra mundial.
Quaisquer que sejam os problemas que os capitalistas terão de enfrentar no futuro, o que nos sugere Piketty é que uma crise gerada pela queda dos lucros não é susceptível de ser um deles. O crescimento económico, pelo contrário, tem uma cronologia muito mais abreviada. De acordo com as estimativas mais confiáveis — incompletas, mas melhor que nada — para a maioria da história humana, o crescimento económico terá sido na ordem dos 0,1 por cento ao ano, quando não se está perante situações de fome generalizada, pragas ou catástrofes naturais. Este registo sombrio começou a mudar para uma parte do mundo durante a Revolução Industrial. Tendo em conta normas mais recentes, a “revolução” pode parecer um termo muito generoso quando se esteve perante taxas de crescimento na produção per capita a menos de 1,5 por cento na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Mas comparado com toda a história anterior da existência humana, essas taxas foram surpreendentes.
Os desenvolvimentos mais impressionantes são ainda outros. O século XX, escreve Piketty, foi o momento quando ” o crescimento económico se tornou uma realidade tangível e inconfundível para todos.” Nos Estados Unidos, que tinha beneficiado anteriormente de altas taxas de crescimento, o maior pico de produção per capita assinalado ficou situado a pouco menos de 2% entre 1950 e 1970. No mesmo período, o crescimento na Europa duplicou. Os países asiáticos em média estariam apenas a um passo atrás da Europa; e muitas nações africanas atingiram números mais perto dos — mas à frente de — Estados Unidos.
Piketty está menos preocupado com esta história global, no entanto, do que com o actual desenvolvimento na Europa. No século XIX, o crescimento não teve nenhum efeito para a redução da desigualdade de rendimento. Este foi o mundo que Marx diagnosticou em O Capital e em aspectos cruciais, Piketty acha que Marx teve razão. Não que todo o aparelho de análise da economia de política marxista se mantenha válido, se alguma vez ele o foi . Sobre a questão-chave da tendência para a acumulação de riqueza nas mãos de uns poucos, Piketty acredita que Marx chegou a uma visão profunda.
Mas não é intemporal. Os salários dos trabalhadores começaram a subir ao longo do tempo e a partir do tempo em que O Capital foi publicado, uma complicação significativa, mas não fatal para a análise de Marx. O verdadeiro desafio veio com a Primeira Guerra Mundial. Piketty utiliza uma fórmula simples para explicar a dinâmica subjacente. A desigualdade tende a aumentar, argumenta, quando a taxa média de rentabilidade do capital excede a taxa de crescimento da economia (ou, como ele diz, quando se tem r > g). Este rácio funcionou a favor do capital ao longo do século XIX e no início do XX, e há aqui pouca ou nenhuma razão para acreditar que isso mudaria sem uma revolução do proletariado. Em seguida, 1914 inaugurou três décadas de catástrofe.
A riqueza da elite europeia foi uma das vítimas da época: destruição definitiva, inflação elevada, tributação confiscatória e governos que começaram a atender às exigências do trabalho e tudo isto se combinou para eliminar vastas áreas de capital. Em 1950, a desigualdade económica caiu fortemente, não por causa da evolução racional do Estado-Providência, mas por causa de algumas das maiores tragédias da história. O que levou a colectividade ao suicídio da Europa capitalista coincidiu com elevadas e surpreendentes taxas de crescimento geradas, produzidas, pela recuperação económica do pós-guerra. Com a renovação e acumulação do capital, o crescimento disparou em flecha, estabeleceu as condições para avanços igualitários sem precedentes, incluindo o nascimento de uma classe média de proprietários e tudo isto por causa de uma extraordinária inversão: pela primeira vez, g > r.
Visto da posição vantajosa de Piketty, milhares de pés acima dos escombros, a fragilidade deste momento torna-se clara. O crescimento económico foi uma invenção recente, as grandes reduções de desigualdade de rendimento são ainda mais recentes. Assim, o rescaldo da II Guerra Mundial estava cheio de profetas a preverem esta união para a eternidade. Kuznets ofereceu a expressão mais sofisticada desta agradável projecção. Extrapolando a partir da história dos Estados Unidos entre 1913 e 1948, Kuznets concluiu que o crescimento económico reduzia automaticamente a desigualdade de rendimentos. Este foi o momento em que, como Piketty observa com tanto pesar e nostalgia, “a ilusão de que o capitalismo tinha sido superado” garantiu a sua aceitação generalizada.
O tempo rapidamente deflacionou este optimismo. Embora o crescimento do PIB mundial tenha acelerado — milhares de milhões de pessoas em toda a Ásia estão a alcançar agora os seus rivais, uma posição análoga para a Europa após a segunda guerra mundial — a melhor evidência disponível sugere que estes níveis são impossíveis de sustentar na fronteira tecnológica. O crescimento per capita na Europa caiu abaixo de 2 por cento de 1980 a 2012; nos Estados Unidos foi ainda mais lento, chegando-se apenas a 1,3 por cento. Enquanto isso, a ligação entre o aumento do PIB e queda da desigualdade de rendimento foi eliminada, com os maiores ganhos de crescimento económico e com este a diminuir a fluírem para os mais ricos dos ricos — nem mesmo para os 1 por cento, mas sim para os 01,% e ou ainda mais ricos
Embora os contornos da história contada por Piketty confirmem o que historiadores económicos já sabem, a sua anatomização das fortunas ao nível dos 1 por cento ao longo dos séculos é uma revelação. Quando se juntou ao seu magistral material de origem o seu dom para a síntese, revela-se uma história não de constante expansão económica mas de paragens e de arranques, com espaço para partidas repentinas de situações aparentemente rígidas. Por sua vez, ele liga esta história à teoria económica, demonstrando que não há nenhum movimento tendencial nos mercados em direcção à igualdade de rendimento. É o oposto, na verdade, dada a tendência para a taxa de rentabilidade sobre o capital ultrapassar a taxa de crescimento . Infelizmente para nós, ele conclui, “a desigualdade r > g claramente tem sido uma verdade durante a maior parte da história humana, até a véspera da primeira guerra mundial, e provavelmente será verdade novamente no século XXI.”
(continua)
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Texto disponível em The Nation, cujo endereço electrónico é o seguinte:
http://www.thenation.com/article/179337/thomas-piketty-and-millennial-marxists-scourge-inequality
Timothy Shenk, a doctoral student in history at Columbia University, is the author of Maurice Dobb: Political Economist.
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