MANUEL RODRIGUES LAPA, PALADINO DA LÍNGUA PORTUGUESA E EXEMPLO DE CIDADANIA – por Carlos Loures e José Ferraz Diogo

Imagem1Manuel Rodrigues Lapa é, sem dúvida, uma das figuras cimeiras do universo da Língua Portuguesa e da luta pela Democracia em Portugal durante a longa noite da ditadura. Enfrentou as adversidades comuns às pessoas que, nascendo em famílias pobres, pretendem evoluir culturalmente e depois, já adulto e, mercê da sua insaciável sede de saber, teve também, devido às suas convicções democráticas, de lutar contra os obstáculos que o regime ditatorial interpunha entre ele e os seus objectivos. Perseguido, foi forçado a exilar-se. Mas lutou sempre. Desde que deu os primeiros passos em Anadia até quando, também ali, morreu no hospital José Luciano de Castro.

Por vezes, ao lermos as biografias de grandes personalidades, ao apreciarmos a lista das suas obras, o rol de homenagens que lhes são rendidas, ficamos com a ideia de que são seres pertencentes a um mundo onde as coisas acontecem com fácil naturalidade – o estudo, a investigação, a obra, a comenda, a homenagem… Falsa ideia. As grandes personalidades (salvo as que, nascidas em berço de ouro, tudo têm facilitado), têm de abrir caminho a golpes de audácia, de sacrifício, de génio e, sobretudo, de muito trabalho. É o caso de Rodrigues Lapa. Nada lhe é dado – tudo o que alcança é fruto da sua luta, da sua rectidão de carácter, ímpar inteligência e honestidade intelectual. Porém, para ilustrar estas afirmações, viajemos até Anadia. Estamos a 22 de Abril de 1897. São três da tarde…

OS DIAS DE INFÂNCIA

Neste momento, Manuel Rodrigues Lapa está a nascer, na freguesia de S.Paio d’Arcos, em pleno centro da vila de Anadia. Baptizado no dia seguinte na Igreja Paroquial da freguesia, consta no seu assento de nascimento que é filho de António Martins Canas (que não reconhecerá a paternidade) e de Maria da Conceição Lapa. São padrinhos Manuel de Jesus Mendes, casado, cocheiro de profissão, e Maria do Carmo, solteira. Em seu redor, no mundo a que acaba de chegar, falando de Portugal, o novo Governo liderado por José Luciano de Castro, que entrara em funções em Fevereiro, dá os primeiros passos. De notar que Luciano de Castro é homem da região de Aveiro (nasceu em Oliveirinha), tal como o pequeno Manuel. Aníbal Lapa, irmão da mãe, é empregado de mesa no palacete dos Seabras de Castro em Anadia, perto da casa onde o petiz nasceu. Por vezes, leva o sobrinho à residência. O político, que morrerá em 1914, sempre que se cruza com o rapazito, acarinha-o, tratando-o por «Manelzinho». Em Março de 1897, realizara-se um Congresso Operário em Lisboa. Em Maio, novas eleições irão dar a vitória ao Partido Progressista de Luciano de Castro. Em Agosto, é criada a Carbonária Portuguesa, braço armado da Maçonaria – embora surja sob a designação de «agremiação filantrópica, filosófica, mutualista e apartidária». Irá dar muito que falar…

Passemos a 1903: Manuel é inscrito na 1ª classe da Instrução Primária. O professor nota nele, desde logo, uma grande vontade de aprender. Sua mãe, em Abril de 1906, tem uma filha, agora de seu marido, Francisco Augusto Sarabando do qual virá a ter outros três filhos. Neste mesmo ano, em Março, cai o governo de Luciano de Castro, subindo ao poder Hintze Ribeiro. Em Maio é a vez de João Franco ocupar a chefia do Governo. Por decisão de D. Carlos, Franco governará em ditadura, ou seja, com a supressão do funcionamento das Cortes. Em Julho de 1907, Manuel fará o seu exame da 4ª classe, passando com distinção. Em Outubro, faz exame de admissão à Real Casa Pia de Lisboa. Para «Manelzinho» começa um novo ciclo.

LISBOA, O LICEU, A FACULDADE.

Manuel é agora o aluno n.º3671 da Casa Pia. Num ofício enviado ao Provedor, o Director da instituição diz que «por informações fidedignas, que me foram prestadas pelo professor que leccionou o referido aluno, consta-me que é dotado de bastante inteligência e de muita aplicação ao estudo». Assim, Manuel será matriculado no 1.º ano do curso liceal, frequentando o colégio de Santa Isabel (pertença da Casa Pia). Entretanto, em 1908, o rei D. Carlos e o príncipe real serão mortos num atentado levado a cabo pela tal «agremiação filantrópica», a Carbonária. A República vem aí.

Em 1912, «Manelzinho» frequenta a Biblioteca Nacional, onde requisita, sobretudo, obras sobre Literatura e História. Diz: «Por felicidade, naqueles verdes anos, encontrei na biblioteca um excelente guia na pessoa do 1.º bibliotecário, o velho José António Moniz, um homenzarrão de maneiras afáveis, que soube farejar em mim uma vocação de pesquisador». Frequenta o 6.º ano liceal, pensa-se que no Pedro Nunes, pois em 1913 dirige o jornal Os Novos, da associação de alunos daquele liceu.

Em Junho de 1914, termina o curso dos liceus e requer autorização à Direcção da Casa Pia para se matricular na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O pedido é deferido e Rodrigues Lapa vai, com outro colega, residir num quarto na Calçada das Necessidades. Por cada um dos alunos, a dona da casa recebe um subsídio de 9$00. Será também bolseiro, até 1920, do legado Luz Soriano., frequentando o curso de Filologia Românica. «Como se vê nas folhas dos livros de trabalhos práticos, não era um aluno particularmente assíduo: falta frequentemente às cadeiras de literatura e tem de repetir três cadeiras do terceiro ano». Em 1915, começa a publicar textos em jornais locais com um texto sobre Camilo Castelo Branco saído no Povo da Anadia. A actividade de publicista será como que o fio condutor da sua actividade intelectual – só a morte a interromperá.

Em 1918 e 1919 integra a direcção da Associação Académica da Faculdade, a qual desempenha papel importante nas lutas académicas que eclodem em consonância com a agitação social e política que o país (e a Europa) atravessa. Ainda em 1919, ao mesmo tempo que inicia a sua carreira docente, ensinando francês na Escola Académica, matricula-se em Direito. Em Dezembro faz o exame de licenciatura, sendo aprovado com a nota final de 13 valores. Em 1920, inscreve-se na Escola Normal Superior de Lisboa e no 2.º ano de Direito. Neste ano, inicia funções como sub-bibliotecário da Biblioteca Nacional. Raul Proença, director da instituição, que preside às provas de admissão, atribui-lhe o primeiro lugar no concurso. Os vencimentos que recebe como professor e como bibliotecário, permitem-lhe prescindir da bolsa.

Em 1921, publica o seu primeiro livro – A cultura moral e o Ensino da língua francesa (Tipografia da Biblioteca Nacional). Em Lisboa, no mês de Outubro, inicia-se a publicação da Seara Nova, dirigida por dois homens da Renascença Portuguesa (1912) – Jaime Cortesão e Raul Proença. Outros «seareiros» são: Aquilino Ribeiro, Azeredo Perdigão, Câmara Reys, Raul Brandão e António Sérgio (que entrará quando da remodelação de 1923). Como iremos ver, esta revista fará, a partir de então, parte integrante da vida de Rodrigues Lapa. No ano seguinte, será nomeado professor agregado do Liceu Camões, pelo que deixa o cargo de bibliotecário. Em 11 de Abril de 1923, casa-se na Igreja de São Cristóvão, em Lisboa, com Inês Augusta Coelho da Costa. Manuel não autoriza que a cerimónia seja fotografada. Ficam a viver com os pais de Inês, na Rua da Costa do Castelo, n.º60-4º andar. Em 21 de Junho do mesmo ano, é nomeado professor efectivo do liceu Central de Martins Sarmento, em Guimarães. No dia 17 de Janeiro de 1924, nasce Armando, que será o único filho do casal. Publica D. Afonso V e o Príncipe D. João: ensaio sobre uma regência.

Em 1925, de parceria com Câmara Reys, publica os livros didácticos La douce France e Le petit élève de français, que terão edições sucessivas até 1935. Em 1926, após leccionar três anos no liceu de Guimarães, é transferido para o Gil Vicente, em Lisboa. Em 1928, por proposta do seu antigo professor e reputado filólogo José Leite de Vasconcellos, é admitido com professor auxiliar contratado na secção de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa. Em 1929, publica Cantigas de Afonso O Sábio. Inicia a sua colaboração na Seara Nova com o texto Misticismo e heresia nos trovadores galego-portugueses. Nesse mesmo ano, interromperá as funções docentes, pois é-lhe outorgada uma bolsa para estudar durante oito meses em Paris, na Sorbonne. Ali frequentará cursos de francês medieval, de provençal e o de literatura médio-latina. É durante esta permanência em Paris que redige a sua dissertação doutoral, Das origens da poesia lírica em Portugal na Idade Média. Este ensaio será editado em 1930 pela Seara Nova. Em Dezembro de 1930, defende a tese, perante uma hostil contra-argumentação do doutor Oliveira Guimarães, professor de Coimbra (mas é aprovado; em 1932, receberá o seu diploma de Doctor in Liberalium Artium Facultate, assinado pelo reitor Caeiro da Mata). Em Abril de 1931 regressa ao lugar de professor auxiliar contratado da Faculdade de Letras. Porém, a guerrilha com Oliveira Guimarães não termina com as provas de doutoramento – Em A Língua Portuguesa, Rodrigues Lapa contesta uma recensão do professor de Coimbra ao seu livro publicado pela Seara. Manuel afirma que Guimarães usou de forma manipulada a escassa bibliografia que consultou. Saem artigos de Guimarães no jornal A Voz e de Lapa na revista. Outros especialistas envolvem-se na polémica. Guimarães publica um opúsculo onde, à falta de melhores argumentos, alude ao facto de Lapa ser filho de pai incógnito. «A esta insinuação responde Sá Nogueira que é mais grave ter filhos ilegítimos, como acontece com Oliveira Guimarães. Adivinha-se, por estes exemplos, o nível alcançado pelo debate…

Em Agosto de 1932 faz a sua primeira viagem à Galiza para participar numa homenagem a Castelao. É um marco importante da vida de Rodrigues Lapa, pois o seu amor por aquela nação irmã, acompanhá-lo-á para sempre.

EM PROL DA DEMOCRACIA (E EM ROTA DE COLISÃO COM O PODER).

Em 15 de Fevereiro de 1933, profere no Salão da Ilustração Portuguesa, uma conferência que dará brado – A política do idioma e as Universidades. O texto da palestra é publicado na Seara (no corpo da revista e em separata). Como uma cobra que despe a pele, a Ditadura Nacional vai dando lugar ao Estado Novo. Em 19 de Março, conciliando as diversas correntes de opinião que coexistem no seio da Ditadura, realiza-se um plebiscito para aprovar a Constituição da República. Salazar preside ao Governo desde 5 de Julho de 1931. Com «vitória» neste plebiscito, onde a liberdade de expressão e de voto estão totalmente ausentes, fica consolidado o edifício jurídico-institucional que, com uma ou outra mudança de pormenor, irá vigorar por mais de quatro décadas. As críticas de Manuel não ficam impunes – é afastado da docência universitária e – vitória da sabujice – o Conselho Escolar aprova por unanimidade uma censura às suas palavras. Porém, nem tudo é cinzento – a juventude reage: 74 alunos prestam-lhe homenagem junto de sua casa. No Ministério da Instrução Pública, os jovens entregam um protesto pelo afastamento «do insigne medievalista que é o Prof. Rodrigues Lapa». Nove alunos são suspensos. Em Agosto é criada a Polícia de Vigilância do Estado (PVDE, a «pevide», como lhe chama o povo). É a antecessora directa da PIDE. No mês seguinte, surge outro importante instrumento do regime – o Secretariado de Propaganda Nacional, dirigido por António Ferro. Porém, apesar de o clima repressivo se ir adensando, Manuel não desarma e repete a sua polémica conferência na Associação dos Artistas, em Coimbra. Em Outubro, volta a dar aulas num liceu, desta vez no de Viseu. No mês seguinte, presta provas para professor auxiliar (com o Livro de Falcoaria de Pero Menino), sendo aprovado por unanimidade. Em Dezembro, sai no Diário do Governo, o decreto da sua nomeação. No dia 30 recomeça a leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, de onde fora irradiado meses antes.

Em 1934, uma vitória moral: consegue que seu pai, António Martins Canas, reconheça a paternidade. Em Março, deixa de morar com os sogros e vai viver, com Inês, na Rua Newton, n.º 3. É neste ano que sai a público uma das suas mais emblemáticas obras – Lições de Literatura Portuguesa: época medieval – até 1981, foram publicadas dez edições. A sua actividade como publicista prossegue – recensões, ensaios, são publicados em jornais e revistas de Portugal e do estrangeiro. As coisas parecem tomar um ritmo normal. Porém, Salazar está atento e desencadeia uma das primeiras grandes purgas – Em Maio de 1935, demite compulsivamente Rodrigues Lapa, impedindo-o (por decreto-lei) de aceder a qualquer cargo público. Na mesma altura outros 32 funcionários civis e militares são demitidos, entre eles, Norton de Matos, Abel Salazar, Carvalhão Duarte. A carreira universitária de Manuel em Portugal chega ao fim. Na Universidade, «é de novo, Hernâni Cidade quem, embora de forma cautelosa, defende Rodrigues Lapa» , lamentando a «perda de uma colaboração utilíssima». Em Outubro, volta ao ensino, leccionando agora no Colégio Ulissiponense, em Lisboa. No mês seguinte começa a dirigir o semanário cultural O Diabo, substituindo Ferreira de Castro. Quatro meses depois, em Fevereiro de 1937, deixa a direcção do semanário, iniciando a publicação da colecção Clássicos Sá da Costa. Dirige também a colecção de Textos Literários, da Seara Nova. Em Julho, Salazar escapa de um atentado à bomba, levado a cabo por anarquistas (com o envolvimento de Emídio Santana). Em consequência, a repressão acentua-se. Manuel prossegue a sua tarefa de ensaísta, em prol da língua portuguesa e dos direitos de cidadania. Entre as muitas revistas e jornais onde os seus textos saem, a Seara continua a ser um palco privilegiado. Em 1939, no ano em que eclode a II Guerra Mundial, Rodrigues Lapa traduz e apresenta a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Em Abril de 1940, morre sua mãe. Em 1941, Manuel continua dirigindo as colecções da Sá da Costa e da Seara Nova. Em Janeiro, morre José Leite de Vasconcelos e, em Abril, Salazar profere o famoso discurso Todos não somos demais para continuar Portugal. Em Maio, é a vez de falecer Raul Proença. Nos anos seguintes, em 1943, seu filho Armando casa e, em 1944, nasce o primeiro neto – Fernando. Em 1945 publica na Seara Nova a sua obra de maior êxito editorial – Estilística da Língua Portuguesa (até 1984 foram publicadas oito edições em Portugal e três no Brasil). Em Dezembro de 1947 morre seu pai. E assim, com numerosas publicações pelo meio, chegamos a 1949: o general Norton de Matos candidata-se pela Oposição democrática às eleições para a presidência da República. Manuel, numa entrevista ao Diário de Lisboa (5 de Janeiro), não tem papas na língua – «É chegada a oportunidade de acabar, sem sobressalto, com este estado de coisas, que nos envergonha como europeus»: refere-se, obviamente, à ditadura salazarista. No dia seguinte é preso em sua casa. Está sete dias detido no Aljube «ouvindo bimbalhar os sinos da Sé de Lisboa e vendo as pombas revoar livremente no céu azul.» Passados dias é solto, mediante caução – a ficha da PIDE esclarece que o professor foi preso «por atentar contra o brio e decoro nacionais e injúrias ao Governo da Nação» – briosa e decorosa PIDE! Manuel não desarma nem se atemoriza – em O Estado de São Paulo publica uma série de seis artigos sob o título genérico de Em prol da democracia.

AGORA, O BRASIL.

Nos anos que se seguem, prossegue infatigavelmente a sua tarefa de pedagogo, saindo textos seus na Seara Nova, na Revista Portuguesa de Filologia, de Coimbra, na revista Anhembi, de São Paulo, no Diário Carioca, do Rio de Janeiro, nos Cuadernos de Estudios Gallegos, de Santiago de Compostela, na revista Romania, de Paris. Em 8 de Agosto de 1954, viaja de avião para São Paulo onde, logo no dia 10, participa no Congresso Internacional de Escritores, na companhia de Adolfo Casais Monteiro e de Miguel Torga. Dá lições na Universidade e depois, em Setembro, parte para Belo Horizonte onde dá conferências na Faculdade de Filosofia da Universidade de Minas Gerais, após o que viaja para o Rio de Janeiro. Regressa a Lisboa e prossegue a sua batalha – sai a lume a sua comunicação ao congresso de São Paulo – Das origens da poesia lírica medieval portuguesa. Na Anhembi publica dois artigos, um deles sobre a Galiza e Portugal; aspectos da cultura galega. Em 1956 integra a Comissão Promotora das Comemorações no Distrito de Aveiro do 65.º Aniversário do 31 de Janeiro de 1891. Mas para ele e para Inês, o ar de Portugal vai tornando-se irrespirável. A ditadura não lhe dá tréguas (e ele também vai dando bastante trabalho a censores e polícias…). Chegou o momento de partir. Em Maio de 1957 fixa residência no Brasil, em Belo Horizonte. Lecciona Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Intensifica a colaboração em jornais e revistas do Brasil, sem deixar de colaborar na «sua» Seara.

Em 1958, em Janeiro, nasce-lhe outro neto – Pedro. Em Portugal, Salazar decide afastar Craveiro Lopes e as suas veleidades «de esquerda» e promover Américo Tomás – Não conta é com o furacão Delgado. Nas eleições presidenciais de Junho, Humberto Delgado ganha nas urnas (apesar de todas as habituais fraudes cometidas pelos salazaristas), mas Tomás é eleito. O Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, escreve uma carta aberta ao ditador, defendendo a abertura do regime. Salazar «abre-lhe» a porta de saída, retira-lhe a diocese e obriga-o a exilar-se. Manuel continua no Brasil, ensinando, publicando, lutando. Em Dezembro de 1959, ele e Inês deixam Belo Horizonte e vão fixar-se no Rio de Janeiro. Em 1960, na revista Grial, de Vigo, sai uma recensão sua ao livro de Luciana Stegagno Picchio In margine all’edizione di antichi testi portoghesi. Em Agosto de 1961, o neto Fernando, chega ao Rio. Irá viver algum tempo com os avós.

REGRESSO A PORTUGAL.

Em Dezembro de 1962 resolve vir a Lisboa. É preso pela PIDE logo no Aeroporto da Portela, sendo solto no mesmo dia. Ele e Inês voltarão a viver em Portugal, apesar de tudo. Em 1964 lecciona um curso prático na Universidade de Santiago de Compostela. A revista Grial, de Vigo, dedica-lhe um dos seus números. Entre muitas outras publicações deste ano, destaca-se, no Jornal de Letras e Artes, de Lisboa, o artigo Castelao: um grande artista galego. Em 1965, ano em que voltará ao Brasil, publica uma das suas mais importantes obras Cantigas d’escarnho e de mal dizer dos Cancioneiros medievais galego-portugueses. (Editorial Galáxia, Vigo). Em epígrafe, uma comovida dedicatória: «À Galiza de sempre, raiz anterga da nosa cultura, adico afervoadamente iste libro». Em edição do Instituto Nacional do Livro, do Rio de Janeiro, sai a público a sua primeira Miscelânea de língua e literatura portuguesa medieval. 1966 é um ano triste para Manuel e Inês – no Brasil, com 21 anos, morre o neto Fernando, vítima de insolação. É sepultado em Belo Horizonte. Em 1967 publica na Seara um artigo de homenagem a Raul Brandão, no centenário do seu nascimento – O «Balanço à Vida» na obra de Raul Brandão.

70 ANOS – TEMPO DE HOMENAGENS

Em 1968, a Seara Nova, nos seus números de Maio, Junho, Julho, Agosto e Setembro, homenageia Rodrigues Lapa, que completa 70 anos em Abril, com textos e depoimentos de, entre outros, Orlando Ribeiro, Vitorino Magalhães Godinho, Lindley Cintra, Sophia de Mello Breyner, Ruy Luís Gomes, Mário Sacramento… Em Agosto, Salazar cai da cadeira e é substituído por Marcello Caetano. A «primavera marcelista», a promessa de uma liberalização do regime, revela-se uma falsa esperança – continua a Guerra Colonial e a repressão política. As coisas mudam de nome, Marcello vai à televisão conversar «em família», mas no essencial tudo fica na mesma. Em 1969, ano em que, em Fevereiro, morre António Sérgio, em Maio, Manuel, a convite de Mário Sacramento (entretanto falecido em Março), participa no II Congresso Republicano de Aveiro, presidindo a algumas sessões de trabalho. Em 1971 participa na organização de uma Semana Cultural Galego-Portuguesa, em Coimbra, proferindo a palestra A Galiza, o Galego e Portugal. Em Fevereiro de 1973, substitui Augusto Abelaira na direcção da Seara Nova, mantendo essa responsabilidade até Dezembro de 1974. Ainda em 73, publica A recuperação literária do galego, única colaboração que terá na revista Colóquio-Letras, O seu texto merecerá uma resposta-comentário do escritor catalão, e seu amigo, Fèlix Cucurull (1919-1996).

1974 será um ano memorável. Em 18 de Abril viaja para o Brasil, pois vai ser condecorado pelo Governo de Brasília. Em 21, na cidade de Ouro Preto (Minas Gerais), recebe a medalha de ouro da Inconfidência Mineira pelos seus trabalhos de investigador do século XVIII brasileiro. É, pois, no Brasil que sabe que no dia 25 o odioso regime, que tanto o perseguiu a ele e a todos os democratas, cai finalmente. No dia 29, regressa a Portugal. Prossegue a sua actividade, publicando textos na Seara Nova ena Vértice, principalmente. Em Dezembro é forçado a abandonar a direcção da Seara. Em 1975 publica diversos textos no Suplemento Literário do jornal Minas Gerais, de Belo Horizonte,na Biblos, de Coimbra e na revista Árvore, do Porto. Em Maio de 1976, nasce o seu terceiro neto – Ricardo Manuel. Em Setembro, a Sociedade Brasileira de Língua e Literatura atribui-lhe a Medalha Oskar Nobiling, pelos «relevantes serviços prestados à causa do ensino e da pesquisa científica nos domínios da Linguística, da Filosofia e da Literatura em nível universitário».[1] Manuel receberá a medalha, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, na Reitoria da Universidade de Lisboa, em 25 de Julho de 1977. Ainda em 1976, no dia 5 de Outubro, é condecorado pelo Governo português com a comenda de Grande Oficial da Ordem da Liberdade, acto que será formalizado em 25 de Abril de 1980.[1] – Texto do diploma assinado pelo Professor Leodegário A. De Azevedo Filho.

E morreu serenamente logo após ter proferido estas palavras.

80 ANOS – «AINDA ME NÃO ARREPENDI».

Em 22 de Abril de 1977 completa 80 anos. No mês seguinte, a classe de Letras da Academia das Ciências de Lisboa, sob a presidência do professor Jacinto do Prado Coelho, aprova um voto de saudação pela passagem do seu octogésimo aniversário. No acto, o académico Norberto Lopes recorda a obra «de um dos mais fecundos e brilhantes escritores e investigadores linguísticos, figura cimeira do ensino universitário e combatente valoroso da luta pela liberdade que se travou neste País». Em 1979, publica, na Sá da Costa, Estudos Galego Portugueses: por uma Galiza renovada. Em Junho de 1981, faz uma última viagem à «sua» Galiza; vai a Santiago para participar no lançamento de um livro de Carvalho Calero. No n.º1 da Revista da Biblioteca Nacional, publica um longo texto autobiográfico – Um rapaz curioso na velha Biblioteca Nacional, no qual após tecer diversas considerações sobre as opções que fez na vida, conclui em jeito de balanço final: «escolhi sempre a via libertária. Apesar de alguns contratempos e desilusões, posso afirmar que ainda me não arrependi».

Em Julho de 1982, na Universidade de Aveiro, profere uma conferência – O problema linguístico da Galiza; sobre cultura e idioma na Galiza. Em 1983, mais homenagens – destacamos a que, realizada na Biblioteca Nacional, foi presidida por Tito de Morais, presidente da Assembleia da República, em nome do chefe de Estado, Ramalho Eanes. De realçar um impressivo discurso da professora Maria de Lurdes Belchior. Em Novembro 1984, homenagem prestada pela Câmara Municipal de Anadia, com a participação do primeiro-ministro, Mário Soares. O município homenageia um dos mais ilustres filhos do Concelho. Haverá ainda outra homenagem, a do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa que lhe consagra dois volumes do Boletim de Filologia, com uma nota introdutória dos professores Lindley Cintra e Maria Elisa Macedo de Oliveira. O volume é composto por 55 textos de 58 autores de diversas nacionalidades. Nos anos seguintes, não param nem as homenagens nem a publicação de textos e a reedição de obras de Rodrigues Lapa. Em Dezembro de 1988, realiza-se a cerimónia de doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Aveiro. Em 27 de Março de 1989, a menos de um mês de completar 92 anos, o nosso Manuel morre, às onze da noite, no Hospital José Luciano de Castro. Um acidente vascular cerebral é a causa do óbito. Mário Soares, presidente da República, envia, com um ramo de flores, uma mensagem que é lida no funeral: «Desde os tempos em que fui estudante da Faculdade de Letras de Lisboa, de cujos quadros Lapa havia sido expulso pouco tempo antes, por se recusar a ser cúmplice do despotismo e da mediocridade então reinantes, ele constituiu para mim e para a minha geração inconformista, exemplo do português de um só rosto, de antes quebrar que torcer, que afrontou perseguições e riscos por amor às suas convicções de homem livre». Outras lapidares palavras sobre o nosso biografado, são as do professor Vitorino Magalhães Godinho, proferidas por ocasião do seu 70.º aniversário: «Portugal não quis, ou não soube aproveitar a pleno Rodrigues Lapa. A amargura oprime-nos, ao pensar nos irreparáveis desperdícios de valores autênticos, daqueles que, mais do que quaisquer outros, estavam preparados para trabalhar pela pátria, enriquecendo o seu património pela criação com categoria internacional».

NOTA: A fonte mais utilizada na feitura deste texto foi o da Fotobiografia de Manuel Rodrigues Lapa, de José Ferraz Diogo (edição da Câmara Municipal de Anadia e da Casa Rodrigues Lapa, Anadia, 1997). Inclusivamente, as ilustrações foram retiradas daquele livro. Por se tratar de um trabalho de um dos co-autores e por serem tão numerosas as referências a que seria necessário proceder, preferimos remeter o consulente para a leitura daquela obra.

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