Rodrigues Lapa, galego de Anadia – por Carlos Durão

Este artigo do argonauta galego Carlos Durão foi publicado no blogue Estrolabio.
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Manuel Rodrigues Lapa, na sua casa de Anadia, com um amigo barbudo (o professor galego Dr Domingos Prieto); eu sou o “jovem” da direita (começos dos 80, não posso precisar a data exacta):
Carlos Durão

 

O título deste artigo poderá parecer exagerado a leitores que não saibam da paixão (ele próprio a qualificou de “vício”, aí sim talvez exagero) do mestre Manuel Rodrigues Lapa pela língua da Galiza: uma e outra vez demostrada, com persistência, com amor, com teimosia galega até, ao longo de muitos anos. Ele sentia como seus os problemas da língua ao norte da Raia, a sua prostração, os ataques do espanholismo, e certeiramente previa muitos dos desvios daqueles que se diziam “galeguistas”, como também os perigos do colaboracionismo linguístico (e não só) e os raquíticos frutos que depois deu.

Existem duas citas da firme posição deste valente homem a respeito da Galiza: “Sempre considerei a Galiza, essa terra maravilhosa, desgraçada e incompreendida, como sendo a minha própria terra; e historicamente e geograficamente assim é, pois estou dentro dos limites da velha Galécia, que chegava pelo sul ao rio Mondego”(1) . “Pergunto daqui ao meu querido amigo Ramón Piñeiro, que na dedicatória do seu Cancioeiro da Poesia Céltiga [sic] (1952) me considerou “o mais ilustre galego de aquém-Minho”, o seguinte: -Se eu tenho orgulho em ser galego desta Galiza de aquém-Minho, e não é a primeira vez que o manifesto (sou de Anadia, nos limites da Galiza anterga [sic] (2), por que razões ele, homem de Lugo, que pertencia à metrópole de Braga, não há-de ter orgulho em ser português? Dizendo melhor: por que não havemos todos de ter muita honra em ser galego-portugueses?” (3)

Por isso foi, e é, querido na Galiza por pessoas, entre as mais novas, para quem a Raia não é fronteira linguística. E por isso foi, e é, odiado na Galiza por pessoas, entre mais velhas, para quem a Raia não só é fronteira linguística mas também política: o limite de quatro províncias do Estado Espanhol (EE), a que chamam “Galicia”.

Cedo começou Rodrigues Lapa a dar mostras desse seu amor digamos magistral. Já nos anos 30, do século passado, as páginas da revista galega NÓS ecoavam as suas iniciativas sobre um acordo luso-galaico para uma reforma ortográfica, considerada indispensável pelos redactores da revista. Só um exemplo do que ele opinava naquela altura: “O acordo filológico entre as duas regiões seria coisa facílima, não precisando sequer da intervenção oficial: bastava um entendimento entre o Centro de Estudos Filológicos e o Seminário de Estudos Galegos”. (4)

Veio (ou “vieram-na”) depois a guerra civil espanhola, que esmagou todo projecto possível, pela via simples de matar os seus promotores, e até os que mais não tinham que atitude aberta e ideias livres. (Aqui cumpre anotar que não é verdade que a mal chamada “guerra civil” [na realidade insurreição fascista contra a ordem constitucional republicana] tivesse poupado a Galiza; é verdade que as grandes frentes de batalha [nas que valentemente combateram galegos, como R. Carvalho Calero e E. Líster, por só citar dous] estiveram noutras partes do EE; mas na Galiza as frentes foram mais insidiosas que as militares: as terríveis vinganças pessoais e interesseiras; as repressões das pessoas independentes na política ou na cultura; os fuzilamentos sumaríssimos ou os simples “passeios” da porta da casa à valeta mais próxima, para ali deixar o cadáver à vista e infundir terror; a caça à guerrilha nos montes galegos; enfim a sanha do fascismo bruto [galego também: é preciso dizê-lo], que durou e perdurou na “longa noite de pedra” que cantara Celso Emílio).

Nos anos 50, é Rodrigues Lapa quem ecoa, ele próprio no exílio no Brasil, as propostas do também exilado galego Ernesto Guerra da Cal, encaminhadas a “fazer uma reunião entre portugueses, brasileiros e galegos, para lançar as bases de uma reforma ortográfica”(5) . E, do ponto de vista filológico, lembra: “Uma das grandes dificuldades para quem se ocupa dos trovadores é e continua a ser a determinação dos seus lugares de origem, da sua pátria, digamos, no fraseado de hoje, que não correspondia ao de então. É, em muitos casos, uma tarefa vã; e isso mesmo tem um significado lisonjeiro, porque revalida a ideia de uma perfeita identidade entre as duas Galizas, a de além e a daquém Minho”. (6)

Ele é, em fim, um vulto fulcral na orientação do reintegracionismo linguístico galego-português. Não o único, é óbvio, por mais que os seus detratores se empenhem absurdamente (ou maliciosamente) em o acusar de imperialismo linguístico (alguns académicos da Real Academia Galega assim o disseram); mas certamente fundamental, e claramente orientador e encorajador ao longo de todo o difícil processo, no que estamos.

Foi assim como ele veio a redigir e publicar o seu soado artigo “A recuperação literária do galego”(7) , que foi considerado como uma ingerência na Galiza pelos servidores do EE, mas que não foi mais do que a sua resposta a uma carta aberta do citado Ramón Piñeiro na revista “Colóquio/Letras”, e já anunciada à redação do Boletim do Grupo de Trabalho Galego de Londres(8). Nele resume assim a sua clara posição: “Nada mais resta senão admitir que, sendo o português literário actual a forma que teria o galego se o não tivessem desviado do seu caminho próprio, este aceite uma língua que lhe é brindada numa salva de prata”.

São ideias que sintetizam as por ele já de sempre sustidas: “Falta ao galego de hoje a consciência de que galego e português foram e são ainda a mesma língua, apesar das diferenças que a uma delas imprimiu o contacto com outra língua, culta e dominadora. […] Por isso, quaisquer que sejam as vicissitudes que o destino e a cobardia dos homens reservem ao idioma galego, uma coisa temos como certa: esse doce linguajar não morrerá, pois se ouve e se lê em Portugal, onde é uma língua de cultura […] De qualquer maneira, estamos a braços com um dilema, que exige uma opção crucial: ou o galego se perde, submergido pelo castelhano; ou se salva, apoiando-se na força duma língua em ascensão como é o português”(9).

O nosso homem não foi ouvido, e não admira: a máquina do denominado isolacionismo linguístico, sempre fortemente apoiada e financiada pelo EE, ganhou essa pírrica batalha, e instalou (se bem timidamente), na administração autonómica e no ensino, o que o perspicaz Rodrigues Lapa não duvidou em qualificar de “castrapo”: “o galego de hoje é um composto de formas arcaicas e populares do galego-português com mistura aberrante de castelhanismos de toda a espécie. A este idioma desgraçadamente poluído dá-se o nome de ‘castrapo’”(10).

O resultado é tristemente fácil de se ver: gerações inteiras desertam desse galego “que não serve para nada”, como é o dito corrente. Há outras causas da desfeita (como nós dizemos à derrota ou ruína): mas essa é fundamental, porque está no alicerce mesmo da consideração da língua própria: como um idioma regional, co-oficial na “Galicia”, considerado como “también español” pela Constituição do EE, e tolerado desde que permaneça em estado de hibernação que “não cria problemas”(11) e do que se podem aproveitar todo tipo de políticos e intelectuais, com dinheiros públicos; ou então como a língua nacional da Galiza, que também é internacional, assim considerada hoje por academias de Portugal e do Brasil, e já desde as negociações dos Acordos Ortográficos (do 86 e do 90), nas que participou extra-oficialmente como observadora, mas com pleno direito. Esse é também um sucesso que devemos, em não pequena medida, ao nosso grande Dom Manuel (como às vezes foi carinhosamente chamado entre nós).

Ele sentiu-se então defraudado pelos seus amigos do grupo Galaxia, como escrevia a outros amigos: “Com a teimosia, levada ao paroxismo, o Galego sofre hoje de outro mal, o complexo da singularidade; e isso leva-o a recusar o retorno à tradição comum”(12) . Não viu cumpridos os seus anseios. Hoje está, com Guerra da Cal, com Carvalho Calero, com Bóveda e Castelão, entre os nossos bons e generosos. Mas uma nova geração agoma, sem medo, e descontrói o mal construído, e desoculta o propositadamente oculto, assentando nas bases que ele em parte delineou. Sejam dele as derradeiras palavras:

“a singularidade só se compreende dentro de um largo espírito de comunhão, que a reforça e engrandece. O culto injustificado e abusivo da diferença, respeitável em si mesmo, só pode conduzir à desgraça. Foi o que aconteceu ao filho pródigo; e é também o que pode acontecer ao galego, em termos de língua e de cultura”(13).
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1-Estudos galego-portugueses, Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979, prefácio
-“anterga”: antergo/entergo/entrego=velho, antigo (lat. integru); é “galeguismo” propositadamente empregue por Rodrigues Lapa, para mostrar a sua coerência, como tb muitos outros, hoje recolhidos em diversos dicionários da Lusofonia
3-“Otero Pedrayo e o problema da língua”, revista Grial, no 55, 1977, p. 44
4-revista Seara Nova, Lapa, no 425, 1935, pp. 261-262
5-Carta de R. Lapa a F.F. del Riego desde o Rio, 15 novembro 1958, em Cartas a Francisco Fernández del Riego sobre a cultura galega, de Manuel Rodrigues Lapa, 2001, Ed. Galaxia
6-Escolma de Poesía Galega, vol. I, p. 9, Galaxia, 1952, Limiar
7-revista Colóquio/Letras, Lisboa, no 13, 1973, pp. 5-14
8-correspondência particular a C. Durão, 17 novembro 1972
9-Boletim do Grupo de Trabalho Galego de Londres, no 8, abril 1972, p. 2
10-“Princípios básicos para a criação de uma língua literária comum”, em Tradición, actualidade e futuro do galego. Actas do Coloquio de Tréveris, Xunta de Galicia, Santiago, 1982, pp. 235-236
11-é frase de Manuel Fraga Iribarne, um tempo Presidente da “Xunta de Galicia”
12-comunicação pessoal a C. Durão, 24 março 1981
13-alocução na Exposição do Livro Galego, na Universidade de Aveiro, 16 julho 1982, publicada em “Algo de novo sobre o problema do galego”, revista Grial, no 74, 1981, p. 500

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