CYRO MARTINS NO CLUB DE LECTORAS – por Carmen Maria Serralta

livro&livros1Cyro Martins é um escritor brasileiro ilustre e com uma obra importante, mas quase desconhecido em Portugal. É natural que isso aconteça e é um problema que ocorre nos dois sentidos – ficaríamos surpreendidos com o desconhecimento que há no Brasil sobre destacados vultos da nossa literatura. Um oceano separa-nos e os nomes que atravessam essa imensidão nem sempre são os que mais merecem ser conhecidos. Nós não podemos (sobretudo não queremos) levar em linha de conta essa circunstância e, quem sabe, pode ser que esta palestra que a nossa amiga Carmen Maria Serralta dedica ao grande escritor gaúcho, comece a construir a ponte que permita a Cyro Martins atravessar o Atlântico e vir encantar leitores portugueses.  Atenção, portanto, às palavras de Carmen Maria Serralta.

Antes de tudo, agradeço à Maria Helena Martins, Diretora de Cultura, Humanidades e Literatura do CELPCYRO a honra e a confiança de estar aqui como integrante/representante do Club de Lectoras – “Las Virginianas” (assim também nos nomeamos), das cidades de Santana do Livramento e de Rivera (Uruguai), para celebrar os 80 anos da primeira publicação dos contos Campo Fora do escritor Cyro Martins e aplaudir a bem-vinda versão e-book – iniciativa e lançamento do Instituto Estadual do livro (IEL).

Gostaria de acrescentar à cordial e simpática apresentação de Maria Helena, alguns detalhes sobre o Club de Lectoras. O grupo nasceu nos idos de 82, composto por professoras e profissionais liberais, a maioria uruguaia e, nasceu, obviamente, do amor pela Literatura. “Las Virginianas” manejam-se indistintamente nas duas línguas de uso na fronteira – espanhol e português. Reúnem-se uma vez ao mês para o estudo de um autor escolhido por consenso.

Gostaria ainda de dizer-lhes o que nós – “Las Virginianas” – consideramos ser o verdadeiro “espírito do grupo” e o que define, queremos crer, nossa peculiaridade, se é que existe… Acontece que aos poucos – meio inconscientemente – fomos percebendo que em nossos encontros literários procurávamos, a par da leitura, algo que também tivesse a ver com a prática do “Savoir Vivre“, dos franceses. Em outras palavras – com a “Arte de aprender a Viver” –, o que se aproxima, parece-me, da busca de alcançar a felicidade. Mas creio que nessa tentativa de busca conseguimos criar momentos privilegiados de plenitude. Instantes fecundos e amenos. E tantas vezes advertimos, ao nos despedir, que saíamos “em estado de graça”. A fusão entre a boa literatura e a amizade tornou possível esse acontecimento.

Ademais, julgamos que a Literatura seja um modo de estender a percepção humana do mundo e uma forma de conhecimento que nos chega pela emoção, gozo estético, reflexão, fruição, etc. Em suma, pelo prazer da leitura.

Digo isso para que se possa avaliar o grau de envolvimento que tivemos com a feliz revelação dos contos de Campo Fora – proporcionada pelo Projeto Fronteiras Culturais realizado em Santana do Livramento/Rivera (2001), pelo CELPCYRO. A bem da verdade, até aquela data, jamais tínhamos nos proposto (como grupo) elaborar textos criativos. Desnecessário dizer que fomos arrastadas pelo universo – encantado – do inato contador de histórias que é Cyro Martins e a ele devemos momentos especiais de plenitude.

Escolhemos como referência três jóias literárias: “Sem rumo”, “Guri” e “Caty”. Jogamo-nos por inteiroà tarefa e produzimos três textos: dois em castelhano e um em português. Uma companheira fez a ilustração em aquarela e uma amiga de Rivera uniu-se ao grupo e compôs duas canções com letra em português em que sobressai a figura sensível do guri Nilo, e onde Quinca Serpa, o vendedor de moirões, surge como personagem coadjuvante. Por sinal, tivemos notícias, porregistros verbais, de que o Quinca Serpa teria andado bem perto de Rivera. Parece mais do que plausível! A última vez que o vimos – estava lá no Caty, no quartel de João Francisco no conto “Caty” – a meio caminho, entre Quaraí e Livramento. E quem fala de Livramento fala de Rivera também, já que configuram, como muitos sabem, uma única cidade – porque indivisas – física e culturalmente. A fronteira, sua delimitação física, só aparece nos mapas oficiais.

As narrativas nos tocaram fundo de várias maneiras e sob vários aspectos. A começar porque sentimos, em sendo fronteiriças, que o autor falava de nós e para nós. Como gosto de citações, lembro o poeta André Breton quando diz em francês: “L’amour c’est quand quelquun vous donne de vos nouvelles”, ou seja, o amor é quando alguém nos dá notícias nossas. E foi exatamente o que ocorreu.

 

Admiramos o modo como o ficcionista recria em relatos, e em imagens nítidas e emocionadas – poeticamente perfeitas – o mundo da infância e juventude vivida nos vastos campos da fronteira. Cyro Martins realiza o resgate desse mundo por ele tão ternamente percebido. Penso logo em Poiesis, a palavra grega que, como se sabe, significa o fazer, a fabricação, a criação de um produto pela arte. De fato, o então jovem escritor transfigura pelo poder de seu processo criativo o cenário (geográfico e humano) que lhe é familiar, e assim afasta do esquecimento um tempo e um espaço ido e vivido – território de memória. E sabemos que a memória passa pela paixão – como se diz em outras línguas: by heart, par coeur – ou então ela não passa. Leio, como amostra do que acabo de dizer, um pequeno trecho extraído do livro Campo Fora: “O choro do vento nos oitões e a zoada do arvoredo despilchado de inverno enchiam o vazio do sol e da vida”

E noutro momento, em narração sensível e densa, concisa e sentida, o escritor comove ao mostrar a forma como o guri Nilo viu pela primeira vez a cara da morte. “O guri recolheu, na esperteza campeira dos olhitos alarifes, toda a viva emoção daquele instante supremo na vida do gaúcho”.

“Todos estavam calados. Ele também. Não indagava nada. Olhava no mais. (…) Esse dia o guri não brincou”.

E o que dizer da força de evocação que o narradorCyro Martins provoca inserindo e prendendo o leitor dentro da paisagem (seja ela física ou humana)? Partilhamos com ele o gosto de sentir, por exemplo, o cheiro da terra e do capim molhado, os odores do suor do cavalo, dos arreios e pelegos, da cozinha com seus lentos cozidos, e tantos mais…

E dos sons? Verdadeira sinfonia pastoral – ressonâncias da natureza e dos animais, feita de silêncio e canto, cantos da terra e dos céus, da chuva e dos ventos.

E quanto às paisagens? Agora, no sentido literal de espaço físico – até onde alcança o nosso olhar. O escritor, qual mestre pintor, aguça a percepção e a emoção do espectador diante de uma realidade exposta com fineza e precisão como nesta frase: “Alta manhã. Impulso de seiva nos pastos, nas ervas e nas árvores, brotando no ardor violento das fecundidades verdes. Horizontes limpos, circunferenciais, rasgados em luz.”

Todo o universo da fronteira (tipos humanos com seu imaginário, geografia, costumes, etc.) surgiu inteiro e intacto diante de nós da leitura dos 14 contos que compõem Campo Fora.

Festejamos também em Cyro Martinsa transposição espontânea, sem artifícios, que faz do falar típico da Campanha para o texto literário. E valorizamos, veementemente, a preservação desse linguajar, resultante do contágio de duas línguas, que terminou criando outra linguagem: uma linguagem híbrida própria do tempo e lugar. Pinço, quase ao acaso, um exemplo:

Nacerta que era coisa arreglada (…) E não era debalde. Havia muitos arrolhados atrás das moitas, de relógio na mão. E mais um: “Potreada buenaça. Botaram olada grande, aqueles. Pegaram um fundo inteirito ainda. E que pingaços! (…) Invitavam o instinto guerreiro dos índios”.

Hibridismo que, diga-se de passagem, também caracteriza os habitantes da fronteira e se explica pela interpenetraçãode uma língua na outra, leia-se, de uma cultura na outra. Situação favorável à criação de um “eu duplo” – um “doble chapa”. (Doble chapa é aquele cidadão que possui dupla nacionalidade, vocábulo que vem de uma época em que os carros eram emplacados nas duascidades). Esse cidadão – nem só brasileiro nem só uruguaio, que é o “fronteiriço”, tem o privilégio de não apenas conviver com duas culturas, mas de vivê-las na intimidade que somente a experiência do cotidiano pode proporcionar. O que parece ser bom e ser óbvio pela simples, mas não irrelevanterazão, de que a incorporação de uma outra cultura representa um acréscimo de experiência e conhecimento, e uma aberturapara o mundo – hoje plural e multipolar.

Além davalorização do texto pelotexto, a afinidade com o escritor Cyro Martinsreforçada por uma realidade comum, aliás,por ele magistralmente exposta – serviu, entre outras coisas, para nos fazer voltar no tempo e repensar a situação de pertencimento àquela particular região. E a partir daí, assumimos, com renovado olhar, os elementos que culturalmente nos constituíram no passado e, ainda, de alguma forma persistem. Fomos levadas a afinar nossa consciência de fronteiriças, também pelo viés da reflexão literária. E partimos para outras leituras afins: O Príncipe da Vila – do próprio Cyro Martins – é um bom exemplo, entre outros.

Cyro Martins, já nesta primeira obra de juventude,desvia com brio o meramente regional e alcança a dimensão do universal. O motivo é claro: ao tratar da sua gente e do mundo que a cerca, aborda – com nobreza e simplicidade – os grandes assuntos de vida e morte. Lança um olhar compassivo e realista às pessoas e ao lugar que o viu nascer e fala não apenas sobre eles, mas também, e, sobretudo, através deles. Ainda por cima, encontramos muita riqueza poética em seu texto. Poesia em prosa, verdade, mas mesmo assim, poesia. E sabemos que a poesia é atemporal por excelência:não se esgota no aqui e agora.

Essa circunstância (do universal e do atemporal) que faz a distinção entre os grandes escritores e os outros dá a Cyro Martinspresença definitivano âmbito da literatura, garantindo-lhe o interesse dos leitores de hoje e dos que hão de vir. Em termos humanos, nada se parece tanto à ideia de “vida eterna” do que as obras de arte que resistem ao tempo. Sem hesitação, colocamos o livro Campo Fora no patamar das coisas que perduram. Creio que de um autor não se pode pedir muito mais.

*Palestra realizada na sede do Instituto Estadual do Livro ( IEL)

evento CYRO MARTINS – 80 Anos CAMPO FORAP. Alege16 de abril de 2014 – IEL

 

* Carmen Maria Serralta é tradutora e escritora, autora de A fronteira onde Borges encontra o Brasil– vestígios de uma travessia. Porto Alegre. Movimento.

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