OS MEUS DOMINGOS – MONÓLOGO DO ENGRIPADO – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

 

II

Outros, que têm menos que fazer, dão-se à satisfação de nos vir visitar e contemplar no nosso leito de dor. Primeiro conversam na sala com a nossa família, que lhes explica que na sexta-feira passada já não nos sentíamos bem, que nos doía bastante a cabeça, que não jantámos quase nada e que, finalmente, no sábado não nos levantámos e tivemos muita febre. O momento é esplêndido para o visitante contar das pessoas da sua família e conhecidas que estão também de cama, para fazer considerações de ordem meteorológica acerca do inverno, do frio, do vento e de todos os agentes de doenças do momento e, já que se está na discussão dessa espécie de assuntos, vem muito a propósito citarem-se os meninos conhecidos que estão com anginas, sarampo, bexigas, sarna e papeira.

Depois, tendo inquirido se não nos incomodam as visitas, vêm até ao nosso quarto e aí, como já estão informados, explicam-nos a nós a doença que temos. Toma-se um ar de senhora que acaba de ter três gémeos e com movimentos de cabeça e simples monossílabos concorda-se com tudo: que “a dor de cabeça é uma maçada”, que “essas coisas trazem sempre muita febre”, que “tudo isso felizmente não há de ser nada”, etc., etc. Tornamos a ouvir a relação de pessoas conhecidas que também estão doentes e, como entre elas há sempre noventa e cinco por cento com as quais embirramos cordialmente, olhamos sorrindo para a garrafa do purgante, lembrando-nos que, àquela hora, os tais embirrentos também têm à cabeceira um néctar da mesma natureza.

Em seguida, entra-se no melhor da visita. As pessoas que se dão ao incómodo de nos ir ver, doentes e deitados na cama, o que não é um espectáculo de entusiasmar – isto aqui para nós e peço desculpa, D. Vénus de Milo, de ter esta opinião – não se maçaram por interesse da nossa saúde. Foram lá porque tinham alguma coisa desagradável para nos contar.

Trazem uma má notícia muito embrulhada em reticências, como um rebuçado em papéis de seda, e depois de muitos rodeios acabam por nos contar a sua história, gozando o prazer de nos ver ali estiraçados e a certeza de que, depois deles saírem, não nos poderemos facilmente distrair e teremos por força que pensar naquilo que nos vieram relatar.

E então, se temos um negócio entre mãos, anunciam-nos que lhes consta, que lhes garantiram que nada se fará como desejamos. Rematam sempre dizendo com um suspiro:

– Logo por azar você metido aqui na cama!

Contam-nos também dos momentos bons que perdemos por não sair de casa, do que vai de divertido pela cidade e nós não gozaremos. Exageram tudo para nos ralar e hipocritamente rematam o relato de uma pândega formidável que houve na véspera:

– Lembrámo-nos muito de ti.

Creiam que vale a pena estar doente para saborear a boa intenção que têm os nossos amigos e conhecidos de nos serem desagradáveis. Depois do citrato de magnésia é mesmo a melhor coisa que a “gripe” nos pode dar.

11 de Fevereiro de 1923

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