CONTOS & CRÓNICAS – Salgueiro Maia – Militar, capitão de Abril: – (1944-1992) – 1 – por Carlos Loures

Assinalando a passagem do 70º aniversário de Salgueiro Maia, publicaremos esta biografia, transcrita do site Vidas Lusófonas. Pela sua extensão, dividimo-la em três partes que serão editadas às 10:00, 11:00 e 18:00 horas.

 

QUANDO TUDO ACONTECEU…

1944: Em 1 de Julho, nasce em Castelo de Vide, Fernando José Salgueiro Maia, filho de Francisco da Luz Maia, ferroviário,Imagem1 e de Francisca Silvéria Salgueiro. Frequenta a escola primária em São Torcato, Coruche. Faz os estudos secundários em Tomar e em Leiria. – 1945: Termina a 2ª Guerra Mundial. – 1958: Eleições presidenciais. Delgado é «oficialmente» derrotado por Américo Tomás. – 1961: Começa a guerra em Angola. A Índia invade os territórios portugueses de Goa, Damão e Diu. – 1963: Desencadeiam-se as hostilidades na Guiné e em Moçambique. – 1964: Salgueiro Maia ingressa em Outubro na Academia Militar, em Lisboa. – 1965: Humberto Delgado é assassinado pela PIDE. – 1966: Salgueiro Maia apresenta-se na EPC (Escola Prática de Cavalaria), em Santarém para frequentar o tirocínio. – 1968: Integrado na 9ª Companhia de Comandos, parte para o Norte de Moçambique. – 1970: É promovido a capitão. – 1971: Em Julho embarca para a Guiné. – 1973: Regressa a Portugal, sendo colocado na EPC. Começam as reuniões do MFA. Delegado de Cavalaria, faz parte da Comissão Coordenadora do Movimento. – 1974: Em 16 de Março, «Levantamento das Caldas». Em 25 de Abril, comanda a coluna de carros de combate que, vinda de Santarém, põe cerco aos ministérios no Terreiro do Paço e força depois, já ao fim da tarde, a rendição de Marcelo Caetano no Quartel do Carmo. – 1975: Em 25 de Novembro sai da EPC, comandando um grupo de carros às ordens do presidente da República. – 1979: Após ter sido colocado nos Açores, volta a Santarém onde comanda o Presídio Militar de Santa Margarida. – 1984: Regressa à EPC. – 1989-90: Declara-se a doença cancerosa que o irá vitimar. É submetido a uma intervenção cirúrgica. – 1991: Nova operação. A última. -1992: Morre em 4 de Abril.

CRÓNICA DE UM PAÍS CINZENTO

Era uma vez um país cinzento onde nada acontecia… Ou melhor, as coisas e as pessoas aconteciam e nasciam, mas logo que acabavam de acontecer e de nascer, a cor era-lhes retirada, tudo passava a ser cinzento como nos noticiários da televisão da época. Até que…

3.25: ALEA JACTA EST:

MÓNACO, MÉXICO E TÓQUIO SÃO OCUPADOS

Na Rua Rodrigo da Fonseca, em Lisboa, na esquina com a Sampaio Pina, perto do Liceu Maria Amália, há um café-restaurante chamado «Pisca-Pisca». É quase meia-noite do dia 24 de Abril de 1974. Uma noite fria e ventosa, apesar da Primavera. Um grupo de cinco clientes entra no estabelecimento onde as cadeiras estão já arrumadas sobre as mesas. Pedem cafés. Um deles pergunta a um empregado se vão fechar.
– Claro, diz o homem – amanhã é dia de trabalho!
– Se calhar não vai ser – responde o freguês. – E, olhe, no futuro até vai ser feriado!
O empregado olha surpreendido aqueles clientes tardios e com um sentido de humor tão estranho. Se reparasse que apesar dos casacos diferentes, todos vestem calças, meias e sapatos iguais, ainda ficaria mais surpreendido.
São jovens, pouco mais de trinta anos os mais velhos, e estão excitadamente alegres. Com alguns outros, estiveram até agora fechados nos seus automóveis desde as nove da noite, suportando o vento fresco do alto do Parque Eduardo VII. São o 10º Grupo de Comandos. Às 22.55, nos rádios dos carros, sintonizados para os Emissores Associados de Lisboa, a voz do locutor João Paulo Diniz anunciou o Paulo de Carvalho na canção do Eurofestival «E Depois do Adeus» e provocou-lhes esta excitação de felicidade. Preparam-se para assaltar o Rádio Clube Português, na Rua Sampaio Pina, e para o transformar no emissor do posto de comando do Movimento das Forças Armadas.
À meia-noite e vinte, na Rádio Renascença, a voz de Zeca Afonso irrompe com a «Grândola, Vila Morena». É o segundo sinal. O MFA está em marcha, já nada o pode travar.
Na EPA, Escola Prática de Artilharia, de Vendas Novas, o coronel que comanda a unidade é preso no seu gabinete por um grupo de capitães e tenentes. A central telefónica e a central rádio são ocupadas, as entradas do quartel colocadas sob controlo.
Na EPAM, Escola Prática de Administração Militar, no Lumiar, em Lisboa, os capitães e subalternos preparam-se, com as forças sob o seu comando, para se dirigirem para ali perto, para a Alameda das Linhas de Torres, e ocupar os estúdios da Radiotelevisão Portuguesa.
Do Batalhão de Caçadores 5, em Campolide, sai uma coluna apeada para reforçar o comando de assalto ao Rádio Clube Português, que os tardios clientes do «Pisca-Pisca» e os seus companheiros ocuparam já.
Do Campo de Tiro da Serra da Carregueira (CTSC), pouco depois das 2.00 sai uma coluna motorizada para ocupar a Emissora Nacional, na Rua do Quelhas, em Lisboa.
Entre as 3.15 e as 3.25 da madrugada de 25, ao posto de comando, instalado no Regimento de Engenharia 1, na Pontinha, onde o major Otelo Saraiva de Carvalho coordena as operações, chegam sucessivamente as mensagens de que Mónaco, México e Tóquio foram tomados. São os nomes de código para a Radiotelevisão Portuguesa, para o Rádio Clube Português e para a Emissora Nacional. Os capitães sabem que a guerra da informação é fundamental ser ganha. Por isso, deram prioridade aos objectivos que lhes irão permitir dominar as comunicações e ter o controlo da informação.

CAI NOVA IORQUE
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Tudo está a correr de acordo com a ordem de operações. Todas as forças vão atingindo os seus objectivos. A coluna do Regimento de Infantaria 10, de Aveiro, chega junto dos portões do Regimento de Artilharia Pesada, da Figueira da Foz, às 3.40. O comandante é preso. Aguarda-se a chegada das forças do CICA 2, também da Figueira, e do Regimento de Infantaria 14, de Viseu. É o agrupamento Norte que, depois de concentrado, se dirigirá aos seus alvos, controlando um segmento da fronteira com Espanha, ocupando o Forte de Peniche, a Pide/DGS do Porto… Outras forças correm para outros objectivos: quartéis da Legião Portuguesa, unidades da GNR e da PSP, as fronteiras mais próximas, as antenas de rádio… Tudo corre bem. No posto de comando, na Pontinha, apenas uma preocupação: o aeroporto da Portela ainda não foi tomado. A Escola Prática de Infantaria (EPI), de Mafra, deveria ali ter chegado à hora H (às 3.00) para tomar a torre de controlo, ocupar as pistas, interditando a descolagem e aterragem de aviões. Terá corrido mal alguma coisa? Finalmente, às 4,20 recebe-se uma comunicação:
– Nova Iorque, conquistada e controlada!

O aeroporto de Lisboa está em poder da Revolução!

 

 

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