A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte V

(CONCLUSÃO)

Para muita gente a crise apenas começou, para muita gente ainda está prestes a começar, é o que se assinalava em Setembro passado. Curiosamente o texto da Standard and Poor’s deste mês bate no mesmo sentido, ao afirmar que o longo caminho para o desendividamento apenas agora está a começar. Terrível, portanto, e para darmos um outro exemplo saiba-se que actualmente em Espanha, a seguir às mortes por causas naturais,  a segunda causa de morte é  actualmente o suicídio! E tudo por causa da crise quando agora nos dizem que a desalavancagem começou muito mal e que verdadeiramente só agora é que vai começar! Mas entretanto continua-se a apostar nas políticas de austeridade. Acabo de escrever isto e lembro-me da frase acima: “Quando as pessoas pedem ajuda, é muitas vezes como um último recurso”. Relembro no espaço entre os meus olhos e o ecrã a figura daquela mulher a olhar para o chão. Espero que não seja o último recurso.

Por confronto a esta mulher cujo nome continuo a ignorar, perdida na vida e à procura da mesma, relembro a minha marechala que encontrei um dia pelas ruas de Faro à procura do caminho para ir apanhar a camioneta para Albufeira e sobre a qual escrevi uma crónica de Faro sobre as Marias do mundo. Mas esta Maria, queimada pela vida desde há muitos anos, queimada pelos  sistemas em que acreditou e que ruíram, mandou os seus netos e filha para a Rússia, para aí conquistarem o direito a um futuro por uma formação condigna, técnica, obtida  nas escolas e nas Universidades onde se ensina, esta Maria fazia-se ressaltar pela força de vida que dela emanava, enquanto esta mulher, aqui em Coimbra, é a dor e a impotência em movimento lento como resultado de uma  crise que os netos lhe levou, é a curvatura na linha de ombros que com isso a marcou. Relembro a minha marechala de blusa branca, bordada, muito direita, a fazer-me lembrar a minha mãe, na aldeia de Fratel a vender queijos ao domingo, de cestos de queijos à cabeça e de blusa relativamente semelhante, relembro-a também na força quase que bruta que mostrava perante a adversidade. Relembro o que então escrevi:

“Fixei-me na segurança daquela mulher, a Marechala. Fico-me com a certeza de que ninguém lhe fará mal, na boleia que pode ser pedida ou que lhe pode ser oferecida, fico-me com a certeza de que ninguém será mesmo capaz de lhe fazer mal, mesmo que queira, tal é a vida, tal é a força que se respira nos seus movimentos, nas suas palavras.

Quando acaba de falar, paro eu cheio de espanto, para ela olho e vejo-a então como uma Maria, a da Rússia, como uma Maria a de Jerusalém, como uma Maria a de West Side Story e sobretudo, mas sobretudo, vejo-a como a Maria de Fritz Lang em Metropólis, na cidade dos escravos, onde só há agora escravos ou senhores porque os outros, os poucos intermediários que existem, estes, só conhecem o caminho socialmente descendente.

Na Rússia ela quer os seus netos como senhores talvez de outro sistema certamente o que era bem explícito na crítica velada ao nosso sistema de saúde, disposta ela a todos os trabalhos que para isso forem necessários, porque cultiva a cultura e di-lo a um professor universitário que se sente num país onde as Universidades cultivam a ignorância e que por isso abandona o ensino antes do final do seu contrato face ao descalabro cultural a que estava a assistir e de que não queria ser cúmplice.

Mas a Maria, a da Rússia, ignora a crise ocidental, os mecanismos que a produzem e que tudo arrasam e hoje não sei se terá emprego, em Albufeira ou algures, se não lhe terão cortado nas remunerações, se o dinheiro a enviar passou a não ser suficiente para formar os seus netos, jovens do futuro, se tudo se lhe tornou ou não ainda mais precário. Ela ignora a crise que é traçada e desenvolvida a partir das cidades onde se dinamiza a crise que as Marias algures combatem, nas Metropolis do mundo moderno”

De novo assaltam-me as lembranças. E relembro o relatório já citado da Cruz Vermelha onde se afirma:

“Levará décadas a aparecerem à superfície, a tornarem-se visíveis, as consequências a longo prazo desta crise. Este relatório mostra que os problemas provocados serão sentidos durante décadas mesmo se a economia mudar de rumo para melhor num futuro próximo.”

Pois bem, esta mulher que gostaria de ser como eu, foi o que disse,  e cujo nome não conheço faz parte já desses efeitos invisíveis, não registados em nenhuma das estatísticas de Eurostat. Esperemos que se levante como o fez a nossa marechala citada. Esperemos, mas a capacidade anímica não é claramente a mesma. Entretanto as políticas de austeridade vão-se continuando a impor, a tornar tudo ainda mais difícil, e com estas políticas o sistema neoliberal vai criando novas bombas prontas a rebentar ao menor sinal de tensão, bombas estas que criarão novos efeitos a nível local e global, efeitos que se irão adicionar aos que até agora não se trataram, ou que basicamente só se agravaram.

Da próxima bomba, da próxima deflagração, no Canadá, vos venho então falar hoje e a pergunta que por aqui vos deixo é a de quando é que faremos isto parar para que histórias como a que acabei de relatar nunca mais se possam encontrar?

 

  Textos de referência

Cruz Vermelha Internacional, Pensar diferente, impactos humanitários da crise económica na Europa, publicado em A Viagem dos Argonautas.

Júlio Marques Mota, Pequena Crónica sobre Faro-nº4, A Crise na vida das “Marias” do Mundo, publicado em A  Viagem dos Argonautas.

 Matt O’Brien, Why the euro crisis still isn’t over, in 1 chart, Washington Post.

Satyajit Das,  The Road to Nowhere – Europe’s Debt Crisis. Publicado em A Viagem dos Argonautas.

Satyajit Das, Europe’s Debt Crisis Endgames—Stealth Solutions.Publicado em A Viagem dos Argonautas.

Standard and Poor’s, The Long Haul: Eurozone Deleveraging Could Stunt Growth For Years, Junho de 2014.

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Para ler a Parte IV desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

1 Comment

  1. Ah! Júlio, antes fosse assim tão simples – não é!
    Hoje somos todos cidadãos do mundo, o que quer dizer que todos os indivíduos, em qualquer parte do mundo, estrangeiros ou nacionais, todos temos direitos de cidadania. Aprofundando a reflexão, vivemos num mundo cada vez mais democrático, e democracia significa que o poder (a política – política quer dizer EXERCÍCIO DO PODER) é exercído pelo povo, isto é por todos nós.
    O busílis da questão é que nós,os cidadãos, achamos muito mais confortável delegar o poder em políticos.
    Está mais do que na hora de tomar o poder nas nossas próprias mãos e, por exemplo, um dia destes, deixarmos todos ao mesmo tempo, de pagar à banca, de entregar impostos e até deixarmos de votar.
    Aí sim, vamos poder implementar uma nova ordem política, social e económica com base na sustentabilidade e na justiça social.

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