A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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Parte IV

(CONTINUAÇÃO)

E a terminar esta análise na base do trabalho da Standard and Poor’s vejamos o último gráfico que aqui vamos utilizar:

“O gráfico 3 mostra em quanto é que a alavancagem total (em percentagem do PIB) aumentou desde a adopção do euro e desde o início de 2006 até Dezembro de 2013 (último trimestre para o qual o BCE apresentou dados comparáveis) e de quanto (muito ou pouco) é que o rácio global da alavancagem relativamente aos seus respectivos picos terá descido. Claro, o nível de alavancagem vigente no momento da introdução do euro é uma referência um tanto arbitrária. Pode-se argumentar que o nível de dívida sustentável é agora maior do que era no tempo que antecedeu a formação da UEM. O desaparecimento do risco de redenominação desde o início da UEM e a alta credibilidade que o BCE goza (comparado a alguns dos seus antecessores nacionais) poderia, por exemplo, contribuir para uma maior tolerância quanto à dívida entre agentes económicos na periferia e relativamente a antes de 1999.”

Encontro Acidental - VIII

E em forma de conclusão dizem-nos os analistas de Standard and Poor’s:

O fraco crescimento e a polarização política poderiam seguir-se na crise instalada enquanto as políticas de austeridade, de consolidação das contas continuam a ser aplicadas

Na nossa opinião, a verdadeira escala da subida dos rácios de dívida em muitas nações da periferia mesmo a partir dos níveis de 2006 e a reversão relativamente muito pequena desde os valores de pico sugerem-nos fortemente que o processo de desalavancagem, de desendividamento, apenas começou. Enquanto que para Portugal, Espanha, Grécia, Itália, Irlanda e Eslovénia, a dívida como proporção do PIB aumentou numa média de 106 pontos percentuais do PIB entre o início de 2006 e o valor de pico trimestral verificado em 2013, o rácio terá decrescido apenas 3 pontos percentuais do PIB a partir daquele pico. A disparidade entre esses dois valores assinala no nosso ponto de vista a lentidão dos progressos realizados na periferia em conseguir a redução conjunta do endividamento privado e público, mesmo admitindo que o crescimento nominal do PIB (o denominador desta equação) terá melhor desempenho no futuro do que tem tido desde 2006.

Nesse sentido, consideramos que a recuperação económica já frágil da zona euro provavelmente irá continuar a ser moderada. Além disso, se as expectativas de recuperação se tornarem decepcionantes achamos que isso poderá vir a agravar a polarização política e, portanto, representa uma ameaça crescente para a sustentabilidade do crescimento, e em que se trata muito frequentemente de reformas impopulares. Temos observado o crescente descontentamento público, mais recentemente, evidenciado por muitos eleitores ao optarem pelos partidos eurocépticos nas eleições parlamentares europeias de Maio de 2014. Sem uma mais rápida recuperação económica e crescimento ao nível do volume de emprego, pensamos que a insatisfação popular poderia mesmo aumentar. Em última análise, porém, o crescimento permanecerá dependente das exportações líquidas, uma vez que a procura interna irá enfrentar ventos continuamente adversos. Os nossos ratings soberanos, portanto, reflectem a nossa opinião cautelosa sobre as perspectivas de crescimento da zona euro a médio prazo”

Acabo de ler o texto da Standard and Poor’s e relembro a senhora cujo nome nem sequer fiquei a saber. Vejo-a distanciar-se, de ombros levemente inclinados como quem suporta uma carga que não é capaz de aguentar, ou ainda, vejo-a caminhar de olhos no chão, senti-a por dentro como alguém que se sente projectada  no vazio em que se tornou a sua vida. E o gráfico anterior  da Standard and Poor’s é implacável quando nos mostra que todo um continente está a ser destruído por políticas de austeridade absurdas para se alcançar o desendividamento das economias em questão e o resultado alcançado quanto a esse objectivo  é,  pura e simplesmente, vizinho de ZERO, de três por cento segundo a Standard and Poor’s, organização que de modo algum pode ser acusada de esquerda!.

Necessariamente assim, necessariamente assim é o que é explicado  pelos muitos economistas de referência internacional e que por opção não navegam nas águas sujas de Bruxelas. Citando um deles, Satyajit Das:

A Europa agora assemelha-se a um doente mental crónico, a receber o tratamento apenas suficiente para se manter viva. A recuperação total e completa é altamente improvável no presente plano médico de saúde. A Europa assemelha-se a uma economia de zombies, que funciona de forma deficiente, com graves crises periódicas de saúde económica. O risco de uma falha súbita de órgãos vitais é desconfortavelmente elevado.

Na sua canção “Road to Nowhere”, David Byrne e os Talking Heads falam de um passeio para lado nenhum. Byrne canta sobre  “onde  o tempo está do nosso lado”. O tempo da Europa está quase  que  esgotado. A incapacidade de diagnosticar correctamente os problemas e de agir de forma decisiva colocou seguramente a Europa numa estrada que não leva a lado nenhum. E é uma caminhada que a economia mundial poderá ser forçada a partilhar, pelo menos em parte. (Satyajit Das,  The Road to Nowhere” – Europe’s Debt Crisis. 9 Janeiro de 2012).

Ou ainda, diz-nos o mesmo autor:

Os problemas da Europa estão bem documentados. Muitos países europeus têm elevados níveis de endividamento e, em alguns casos, diremos mesmo que estes níveis são insustentáveis, compostos por um conjunto de maturidades e de pressões de notação feita a partir das agências de rating. (…)

Reduzidas mesmo antes da crise, as taxas de crescimento da Europa são demasiado baixas para sustentar os níveis de dívida atuais. Muitos países europeus adicionalmente não têm estruturas de custos competitivos em termos globais. (…)

A crise expôs o modelo social europeu baseado na despesa pública e nos serviços públicos ditos de Estado-providência que não são sustentáveis com as atuais taxas de crescimento e de impostos. Isto foi clarificado pela inflexibilidade da taxa de juro e da moeda comum que limita as opções em termos de políticas a seguir. A situação também mostrou as complexas inter-relações que conduzem a uma rápida transmissão das pressões financeiras. E expôs também a ausência de acordos institucionais capazes de poderem lidar com uma crise, porque o quadro teórico que lhe está subjacente é o de que isso nunca poderia acontecer. (…)

A austeridade por causa da dívida é auto-destrutiva. Os cortes na despesa e os aumentos de impostos levam a contrair a actividade económica, levando-se assim ao efeito perverso de se ter depois aumento do défice orçamental e da dívida. A austeridade adicional só vem agravar um ciclo vicioso negativo em que a economia se vai afundando até mergulhar numa profunda recessão e com um claro aumento do desemprego (…) – Satyajit Das, Europe’s Debt Crisis Endgames—Stealth Solutions, 24 de Janeiro de 2013,

Tudo logicamente explicado, tudo o que  Standard and Poor’s nos fala hoje está escrito, tudo está previsto nos bons  textos de Economia. E ninguém acredita que tudo o que está a ser feito o seja por  ignorância dos homens que conduzem as políticas cujos resultados catastróficos estão escritos até mesmo no vento que nos sopra aos ouvidos, estão sentidos na dor de milhões de europeus, sem emprego, sem casa, sem futuro, sem direitos que ontem eram tomados como universais e hoje considerados como privilégios imerecidos, estão marcados na alma de todos nós como o mais hediondo crime contra a Europa cometido desde os  tempos de Hitler.  E não sendo esta então o resultado da ignorância, trata-se pois de uma situação explicável somente pela ganância pessoal e pela maldade quer dos que dirigem os destinos deste nosso continente quer ainda   dos seus vassalos a nível nacional. Os exemplos são muitos.

De repente, relembro-me de  um texto da Cruz Vermelha Internacional onde se dizia:

“Quando as pessoas pedem ajuda, é muitas vezes como um último recurso. Elas estão a pedir comida ou medicamentos ou dinheiro para pagar os serviços públicos ou o aluguer de casa para não serem despejadas das suas casas. Milhões são afectadas pela pior crise desde há seis décadas; uma crise que tem visto as pessoas estarem a perder os seus empregos e as casas, e isto quando elas nunca tenham imaginado que alguma vez uma tal situação lhes poderia acontecer; uma crise que fez com que os pobres fiquem ainda mais pobres. ‘Crise’ era suposto significar dificuldades temporárias, um solavanco na estrada da vida e que iria, em breve, passar. Quem teria imaginado que isso duraria tanto tempo e que iria afectar tantas pessoas e em tão grande profundidade? Actualmente existem mais de 18 milhões de pessoas que receberam ajuda alimentar financiada pela UE, 43 milhões que não recebem o suficiente para comer todos os dias e 120 milhões em risco de pobreza no conjunto dos países abrangidos pelo Eurostat. E enquanto isso, ainda esperamos que a crise vá acabar em breve, quando para muitos a crise apenas começou. Ou está ainda prestes a começar.” Dito ainda de uma outra maneira, ainda no mesmo relatório diz-se que “ o pior está ainda para vir”.

(continua)

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Para ler a Parte III desta crónica de Júlio Marques Mota, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A PROPÓSITO DE UM ENCONTRO ACIDENTAL, A PROPÓSITO DA CRISE NA EUROPA, A PROPÓSITO DA APRESENTAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE UMA NOVA BOLHA A REBENTAR EM BREVE: ALGUMAS REFLEXÕES – por JÚLIO MARQUES MOTA

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