CONTOS & CRÓNICAS – IMPRESSÕES DE UMA VIAGEM AOS ESTADOS UNIDOS EM 1986 – 10 – por José Brandão

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No novo edifício da Embaixada dos Estados Unidos na Avenida das Forças Armadas, junto a Sete Rios, John Kelley explicou antes da minha partida que o sindicato dos camionistas não era o melhor contacto que eu poderia ter no seu país.

Kelley indicou-me o nome dum sindicalista dos transportes que eu deveria procurar logo que chegasse aos Estados Unidos. Num cartão pessoal, escreveu o nome de Jack Otero e colocou a seguir as iniciais BRAC.

Não tive oportunidade de falar com o sindicalista indicado pelo adido da embaixada americana em Lisboa nem nunca cheguei a saber o que queriam dizer aquelas quatro iniciais.

Mais tarde vim a saber que Jack Otero é um diminutivo de Joaquim Otero, o representante interamericano da Federação Internacional de Trabalhadores dos Transportes (ITF). Mais tarde, também, vi num livro escrito por um ex-funcionário da CIA, o nome de Jack Otero metido numa lista de agentes daquela organização.

Não sei se Jack Otero é mesmo da CIA tal como desconheço se Jimmy Hoffa estava de facto ligado á Mafia.

O que me parece, é que tanto num caso como noutro, está demonstrado que os trabalhadores americanos dos transportes não têm muita sorte com a fama e com a honorabilidade dos seus dirigentes sindicais.

*

Depois dos Teamsters deslocamo-nos á sede do Partido Social Democrata Americano onde fomos recebidos por vários dirigentes deste pequeno partido ligado ao movimento sindical dos Estados Unidos e com fortes tradições na luta operária do país.

Embora de reduzidas dimensões é provável que seja a terceira organização política americana, apresentando-se alinhada ideologicamente pela Internacional Socialista.

Dwight Justice não esconde a sua satisfação por estarmos neste local. É a sede do partido em que milita e com visível orgulho assume a sua ligação a esta modesta organização socialista.

Dwigth é na verdade um excelente companheiro. Não porque seja socialista e se afirme de esquerda. Mais do que isso, ou talvez por via disso, é um dos raros americanos com quem é possível falar além de cinco minutos com a garantia de que estamos a ser efetivamente escutados. Como se sabe, a maior parte desta gente desliga as pilhas cerebrais a partir do quinto minuto de palestra mediterrânica. Ou temos a capacidade discursiva para explicar o que queremos dizer em menos desse tempo ou arriscamo-nos a ficar a falar para as paredes dado que o nosso amigo americano a partir desse momento é como se já lá não estivesse. Fica a olhar-nos muito fixamente, parecendo estar a escutar tudo com a maior atenção, mas, em boa verdade, já desligou as pilhas de receção e está só educadamente à espera que fechamos a boca.

Com Dwigth não é assim. Quer conversa e quanto mais for melhor. Gosta de conviver, de falar de tudo e com todos. É diferente até no modo de vida. Não usa gravata; não anda com pasta à executivo; não tem limousine com motorista nem esconde que é militante de um pequeno partido socialista.

Dwight é amável, não desliga pilhas. Interessa-se por saber o que outros sabem. Preocupa-se com o seu semelhante, é solidário com os pobres, é companheiro e sindicalista, é também americano.

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