CRIANÇAS ABANDONADAS por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Quando as crianças brincam

Quando as crianças brincam
E eu as ouço brincar,
Qualquer coisa em minha alma
Começa a se alegrar

E toda aquela infância
Que não tive me vem,
Numa onda de alegria
Que não foi de ninguém.

Se quem fui é enigma,
E quem serei visão,
Quem sou ao menos sinta
Isto no meu coração.”

 

Fernando Pessoa  –  05/09/1933

 Segundo a presidente da Comissão Nacional de Saúde da Criança e Adolescente (CNSCA) o número de crianças vítimas de maus tratos e “abandonadas” em hospitais está a aumentar, em Portugal, obrigando os menores a internamentos prolongados sem justificação clínica.

Muitas crianças que dão entrada no hospital vítimas de maus tratos ficam abandonadas, internadas no hospital porque a família não tem meios para a receber de volta.

Não é um problema de agora, mas tem vindo a acentuar-se com a crise.

 Através do registo feito nos hospitais verifica-se, ainda segundo a presidente da CNSCA, que a maior parte dos pais estão no desemprego e deu como exemplo o Hospital Amadora –Sintra que nos primeiros dois meses, deste ano, apareceram 150 casos que foram entregues à assistente social do Hospital. Todas estas crianças são filhas de famílias em risco.

No último ano foram abandonadas mais de 700 crianças em Portugal.

As crianças são abandonadas nos hospitais, na rua em caixotes do lixo, na soleira de porta, em sítios públicos…

A criança é o elo mais fraco da família, na relação mãe/filho. Muitas vezes esta decisão é feita na solidão de uma vida também abandonada pela sociedade, pelo Estado que não cria as condições necessárias para que todas as mães possam criar os seus filhos com o mínimo de bem estar.

Muitas destas mães cresceram sem amor, o afecto e o carinho são-lhes alheios. Quem não conhece o amor não o pode dar.

As mulheres, quando engravidam, não sabem o que é o amor por aquela nova criança, para elas é mais um problema que precisa de ser resolvido.

Muitas destas mulheres deixam os seus filhos à sorte da vida porque acreditam que alguém os encontrará e lhes dará uma vida melhor.

Não as deixam directamente em instituições porque têm vergonha, não querem que ninguém saiba. A vida se encarregará de as proteger.

Muitas mulheres passam pela situação, mais comum do que se poderá pensar, de Depressão pós parto.

A depressão pós parto não se manifesta só nas mulheres com vidas familiares desestruturadas, todas as mulheres, de qualquer classe social, estão sujeitas a passar por esta situação. Mas nem todas são tratadas e acompanhadas para a ultrapassar.

As mulheres com uma melhor vida social e económica, geralmente têm a ajuda da família e o acesso a tratamentos que diminuem e tratam a depressão pós parto, não as deixando chegar ao abandono e maus tratos aos seus filhos.

Quanto menor for a escolaridade e o nível sócio económico, maior é a prevalência de maus tratos e de abandono de crianças.

Todas as mães, de qualquer classe social, podem passar pela tristeza pós-parto, pela baixa auto-estima, pelo stress na vida, por ter um filho não desejado, pela tentativa de interromper a gravidez e por sentimentos negativos em relação à criança.

Mas nem todas estas mães são ajudadas quando padecem destes sintomas.

Na escola tive três crianças que foram abandonadas, todas de maneiras diferentes.

Uma delas foi deixada num caixote do lixo, foi encontrada por acaso quando um homem, vendedor de fruta, ia lá deitar a fruta que já não era vendável. Ouviu um bebé a chorar, estava enroladinho numa manta. Pegou nele e levou-o para casa. A criança sempre soube a verdade e convivia, pelo menos aparentemente, sem problema com essa realidade. Os colegas da turma, nunca, nunca se referiram a isso. Ele era amado pelo casal que ficou com ele e bem aceite no bairro onde vivia.

Outra, uma menina, foi dada a uma mãe, já com quatro filhos, num café. Trazia um saco plástico com algumas fraldas. Esta menina sempre soube a verdade. Foi criada com amor por todos. Nunca foi segregada pelos colegas na escola.

O outro foi encontrado num passeio, no Intendente, por uma mulher que se sustentava com o dinheiro da prostituição. Esta mulher, muitas vezes, fazia lembrar ao filho que ele tinha que se portar bem senão voltava para a rua…

Não sei como estes casos foram legalmente resolvidos, só sei como o foram em termos familiares, escolares e na comunidade. Todos foram bem aceites.

Quantos de nós seríamos capazes de criar uma criança abandonada nestas circunstâncias?  Não me estou a referir à parte legal, mas sim à disponibilidade do afecto.

 bia crianças abandonadas

 Muito haveria para contar sobre estes três casos, porque é que estas mães não biológicas, criam estas crianças como se fossem seus filhos? Porque foram abandonadas pelas suas mães?

Como reage a sociedade perante as crianças abandonadas? E as instituições terão os meios adequados, materiais e humanos, para receberem tantas crianças?

Porque não a adopção plena pelos casais homossexuais?

Porque não se agiliza o processo de adopção?

Porque não se investiga e pune as redes de tráfico de menores?

Como é que em corpos tão pequeninos cabe tanto sofrimento!!

 

 

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