EDITORIAL – Quem quer ser milionário?

logo editorialOs concursos do tipo de “Quem quer ser milionário?”, entre alguns aspectos negativos – como sendo o de assentar num conceito de cultura geral de duvidosa consistência, tem a vantagem de nos proporcionar um retrato instantâneo de como anda a bagagem   cultural dos portugueses. Quando nos referimos ao carácter duvidoso do conceito em que o programa se baseia, queremos referir a confusão entre cultura geral e armazenamento de conhecimentos inúteis – saber enunciar    o teorema de Pitágoras, faz parte da cultura geral; saber quem era o extremo-esquerdo do Beira-Mar na época de 2010—-2011, nada tem a ver com cultura. Mas, com uma ou outra boa surpresa, as respostas dos concorrentes revelam, na sua maioria, uma enorme incultura geral, digamos mesmo uma incultura generalizada. E, na sua grande maioria, são   gente apetrechada com diplomas do Ensino Superior – médicos, arquitectos, engenheiros, psicólogos… E professores.

Segundo um estudo hoje publicado no El País, um em cada três diplomados do ensino superior do estado vizinho, obteve o emprego com base no diploma – ou seja, um terço dos diplomados terminou o seu curso, conseguindo um emprego onde os estudos feitos não têm qualquer aplicação. Não sabemos se em Portugal a percentagem é semelhante. Mas sabemos que Portugal apresenta uma elevada taxa de diplomados no secundário, apenas igualada pela Eslovénia. Em média, nos 34 países da OCDE, cerca de 27% da população adulta apenas concluiu o 2º ciclo (5º e 6º anos) ou até ao 10º ano de escolaridade. A percentagem de população que concluiu o ensino secundário fica-se pelos 44% e os diplomados do ensino superior não vão além dos 30%.

No caso português, completar o 12º ano não significa aceder ao Ensino Superior, pois os diplomados desse patamar não atingem sequer os 20% – ou seja o diploma do 12º ano é o terminus do percurso para muitos estudantes. Considera-se que a elevada percentagem desta qualificação resulta directamente do programa “Novas Oportunidades” que arrancou em 2005. Um programa que a OCDE considera “uma segunda oportunidade àqueles que interromperam os estudos numa idade precoce ou que estão em risco de o fazer, ou ajudar aqueles que já estão activos mas que desejam aumentar o seu nível de qualificações”, lê-se no documento de 500 páginas.Para além disso, o estudo revela que Portugal está, também, entre os países onde há maior disparidade de género nos diplomados com o secundário: há cerca de 10% mais mulheres com esse nível de educação concluído. Porém, diplomas não conferem saber – a atribuição de créditos não confere aumento de conhecimentos – mas permite que ignorantes ascendam na escala social e política. O caso do ministro Relvas foi apenas a ponta de um icebergue.

Voltando ao tal concurso – predomina uma ignorância enciclopédica e a recorrência de uma resposta inacreditável em perguntas de História – «Não sei. Ainda não era nascido».

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