FRATERNIZAR: Bispo do Porto vai pavonear-se pelas 477 paróquias da diocese! – por Mário de Oliveira

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Faz questão de não abrir mão do tema “pobres”

 

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O tema “pobres” continua a marcar as homilias do actual Bispo do Porto. Desde a primeira homilia que proferiu, na entrada solene na respectiva sé catedral, báculo na mão, mitra na cabeça, anel no respectivo dedo da mão direita, cruz peitoral ao peito. Os grandes media do país ficaram logo de olho nele, ou ele não fosse, a partir de então, o Bispo do Porto. Não mais o desconhecido bispo de Aveiro, com quem nunca se (pre)ocuparam. Porque os grandes media gostam dos bispos que estão à frente de grandes igrejas-poder, e que, a partir dessas grandezas eclesiásticas, falam dos pobres que o poder financeiro, o senhor de todos os grandes, também dos bispos das grandes igrejas-poder, produz todos os dias. Sem que, entretanto, nenhum desses bispos das grandes igrejas-poder pergunte – mas como, se são os bispos de grandes igrejas-poder?! – Porque há pobres? E, Quem, o quê os fabrica? Muito menos, se atreva a romper e a rebentar com o sistema de poder financeiro, devastador e devorador de vítimas humanas ininterruptamente sacrificadas em sua honra. Pois bem. Meses depois dessa sua entrada solene no Porto, cheia de coisa nenhuma, no tocante a gestos outros que abrissem caminhos ainda por andar na pastoral da igreja, em actualizada sintonia com as mesmas práticas políticas maiêuticas de Jesus Nazaré, o novo Bispo do Porto propõe-se agora visitar, uma a uma, as 477 paróquias da diocese, das quais continua a pensar que é o senhor/ patrão mor, como se ainda vivêssemos na Idade Média.

 E o que se propõe o Bispo fazer, neste seu pavonear-se por cada uma das 477 paróquias? Ora, o que haveria de ser, senão “celebrar a Eucaristia com cada uma das comunidades cristãs” (palavras do próprio à Agência Ecclesia). Sim, porque os bispos, são especialistas em missas feitas com pompa e circunstância, com os grandes media a transmitir em directo, como acontece com o Bispo de Roma, o paradigma de todos os bispos, nada que se pareça com essas missas ditas a correr pelos poucos párocos que ainda restam no activo e que não têm mãos a medir, tantas são as empresas paroquiais a terem de gerir, ao mesmo tempo. Porque é nessas celebrações, com pompa e circunstância, que os bispos têm oportunidade de proferir homilias, mais ou menos longas, nas quais o tema “pobres”/ “o serviço aos pobres” é uma constante. O que seria, por isso, do actual Bispo do Porto (ex-bispo de Aveiro), se não houvesse pobres na diocese e no país, em número cada vez maior?! E o que seria de todas as igrejas cristãs, a católica romana e as protestantes? Para onde iam as suas inúmeras IPSSs e os seus Centros paroquiais e sociais, financiados pelo Estado, mas propriedade da Fábrica da igreja? De que haveriam eles de falar nas homilias das suas missas episcopais e papais com pompa e circunstância? Escrevi falar, não tocar/ abraçar/ cuidar, porque os pobres de que eles falam nas homilias não frequentam as suas catedrais e nunca vêem um bispo fazer-se próximo deles, para os tocar mão com mão. Coisa impensável num bispo das grandes igrejas-poder, cujas mãos estão ungidas para tocar exclusivamente nas hóstias-corpo-de-cristo, com ou sem glúten. E sempre mascarados por aquelas vestes de vaidade e de poder, que os impedem de dar voz e vez aos pobres, tal como os impedem de mexer uma palha que seja, para derrubarem o sistema financeiro que criminosamente produz os pobres e a pobreza em massa! Querem mais hipocrisia e mais cinismo?

 Para chegar a ser fecundo, o Bispo do Porto teria de começar por nascer de novo, mudar de ser. Teria de deixar de ser o Bispo do Porto, para ser simplesmente bispo da igreja-movimento clandestino de Jesus, sem nenhum daqueles caricatos símbolos do poder, com os quais se apresentou mascarado na sua entrada solene. Teria de fugir/ deixar definitivamente o palácio/ paço episcopal e aparecer, incógnito, em cada paróquia, sem se fazer previamente anunciar. Vestido, por isso, como outro ser humano qualquer sem poder, e fazer-se próximo das pessoas, nas suas casas e nas horas e locais de entrada e de saída nas empresas onde uma boa parte delas trabalha, a troco de uma códea. Conheceria, então, na carne o que é ser ninguém, entre outros ninguém, aos quais haveria de convencer apenas pela sua proximidade, pelo seu afecto, pelo seu olhar clarividente e lúcido, até ser convidado, como JESUS SEGUNDO JOÃO (capítulo 4) foi convidado pelos samaritanos, para um encontro mais prolongado na casa daquelas poucas pessoas que ele conseguisse cativar, sem as dominar, como faz inevitavelmente o poder às pessoas que cativa, antes, para as fazer crescer de dentro para fora em ser e em liberdade. Deste modo, o pároco acabaria por ser dos últimos a saber da presença do bispo no seu território administrado por ele como um feudo seu, só porque as respectivas populações, para seu mal, ainda o vêem como um dos braços compridos do poder clerical/ sacerdotal, com o qual é melhor estar de bem, do que assim-assim. E ficaria logo aos papéis, incrédulo, sem saber o que fazer. O mesmo se diga do presidente da junta desse território, do presidente da câmara desse município, dos empresários locais, dos professores das escolas e dos médicos do centro de saúde. Depois, todos à uma, haveriam de congregar-se e declarar “louco” o bispo que, em vez de ser o Bispo do Porto, cheio de pompa e circunstância, faz questão de ser simplesmente bispo da igreja-movimento clandestino de Jesus, por isso, politicamente, subversivo. E depressa conseguiriam que ele fosse destituído pelo Bispo de Roma, papa chefe de Estado do Vaticano e substituído por outro cheio de pompa e circunstância.

 É que isto de ser bispo da igreja-movimento de Jesus, tem o que se lhe diga. E o Bispo do Porto, apesar de, habitualmente, se apresentar sorridente e afável, na verdade é sempre o oposto disso, porque as vestes e o protocolo com que, certamente vai apresentar-se, como um pavão, nas 477 paróquias da diocese, matam cada dia mais o que de humano ainda possa haver nele. Provavelmente, já nada de humano há nele, para lá dessa máscara de sorridente e de afável. A verdade é que, junto dele, ninguém é. Como ninguém é junto do poder. Que o poder, em cada um dos seus agentes históricos, tem esse condão de reduzir a súbditos, ou na condição de pés descalço, ou na condição de elites, todos aqueles seres humanos que dele se aproximam, ou dos quais ele, em cada um desses agentes, se aproxima. Pior ainda, quando se trata de poder sagrado, como é o caso de Sua Ex.cia Reverendíssima, o Senhor Bispo do Porto, D. António Francisco!

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