VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 6 –  por José Brandão

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Um fenómeno social

 

Mas afinal de onde veio esta bebida que se enraizou um pouco por todo o mundo? Reza a lenda que, enquanto se passeava por um prado perto de um mosteiro na Etiópia, um monge reparou que as cabras alimentadas com as bagas do café saltavam plenas de vitalidade. Será que nas pessoas o efeito é idêntico? Nada como passar à fase experimental. Ainda que a cor da infusão preparada com as sementes fosse considerada infernal, logo o abade desse mosteiro a utilizou para evitar que alguns monges dormissem durante o ofício religioso. Fosse como fosse, o café resultava mesmo como estimulante. Estas propriedades estimulantes do café mais tarde divulgadas por um viajante italiano, Pietro delia Valia. Para além do café propriamente dito, isto é, a bebida, no século XVII foram vulgarizados os estabelecimentos com o mesmo nome.

Devemos o encanto decadente dos Cafés europeus ao italiano Procopio que, em 1686 abriu um estabelecimento na rua parisiense Fossés Saint Germain. Num abrir e fechar de olhos, os intelectuais apoderaram-se desse estabelecimento, onde passavam largos períodos de tempo conspirando. Assim, os estabelecimentos com o nome de Café foram, durante muito tempo, conotados como locais de encontro de intelectuais e com um cariz algo revolucionário.

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Na época da Revolução Francesa, Paris contava com cerca de dois mil Cafés, locais onde se comentavam as notícias exibidas em grandes cartazes afixados um pouco por todas as paredes da cidade. Em Espanha, o Café também foi introduzido pelos italianos. Centro de reunião de políticos, poetas e artistas, muitos dos encontros sociais da vida espanhola aconteciam em Cafés.

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Na sua primeira novela, Pérez Galdós imortalizou o Café La Fontana de Oro e García Lorca tornou famoso o Café de Chinitas.

Lisboa não fugiu à regra. Ainda hoje os Cafés Nicola, Martinho da Arcada e Brasileira vivem um pouco do prestígio criado pelos intelectuais que, principalmente nas últimas duas a três décadas do século XIX, passavam longas tardes que invariavelmente se prolongavam noite dentro. Locais de tertúlia e de intenso intercâmbio cultural, estes Cafés mantêm-se hoje como ex-libris da capital portuguesa. O Porto também não foi exceção e ainda hoje o Majestic mantém o aspeto que o tornou célebre no findar do século passado. De qualquer modo, este fenómeno não é exclusivo das grandes cidades. Em qualquer terreola portuguesa há um Café Central ou algo que o valha, o local de encontro das pessoas lá do sítio. É um pouco como a sala de visitas da terra. De certeza que o italiano Procopio nunca pensou que a abertura do seu estabelecimento em Paris fosse originar um movimento social tão alargado.

 

A seguir – DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA)

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