Camões recitado e cantado (II) – 7 – por Álvaro José Ferreira

Imagem4Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico do retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/06/camoes-recitado-e-cantado-ii.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Aquela triste e leda madrugada

Poema (soneto) de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011)

Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se duma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio
e dar descanso às almas condenadas.

Notas:  Triste e leda madrugada: “triste” por se tratar da despedida dos dois amantes; “leda” (alegre) porque de todas as madrugadas nasce um novo dia.
Ela viu as palavras = Ela ouviu as palavras. Desde a época medieval o verbo “ver” significava também “ouvir”.
Marchetada – vivamente colorida, matizada de tonalidades luminosas
Vontade – coração

* Direcção literária – Alberto Ferreira;  Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires; Montagem – Moreno Pinto;

Alma minha

Poema (soneto): Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1595)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP/CD “Obsessão”, EMI-VC, 1990, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.

Nota:
No manuscrito da “Década VIII”, atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas “Lusíadas”, como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: “Alma minha gentil, que te partiste…»

* Carlos Gonçalves e José Fontes Rocha – guitarras portuguesas: Jorge Fernando – viola; Joel Pina – viola baixo; Produção – João Belchior Viegas; Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos; Técnico de som – Hugo Ribeiro;  Montagem digital – Miguel Gonçalves;  Corte – Fernando Cortez.

1 Comment

Leave a Reply