CONTOS & CRÓNICAS – O ORGULHO VENEZIANO OU A BELEZA EFÉMERA – por Manuel Simões

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À memória de Sílvio Castro

Para quem viveu trinta anos em Veneza, voltar à cidade dos doges não constitui propriamente uma surpresa. E todavia esta cidade acaba sempre por nos seduzir: um pórtico ou um pátio (como o da família de Marco Polo) que insistentemente passaram inobservados, uma rua que parece nunca ter existido, um palácio com pormenores sempre surpreendentes. E sobretudo a praça de S. Marcos, a basília quase bizantina e o palácio ducal, que emocionam e comovem como se fosse a primeira vez; a magia das noites calmas, em que se sente o rumor do silêncio, o ritmo vital, ou o sol de Maio transfigurando o ar persistente do longo inverno lagunar.

Veneza é uma cidade de contrastes. Parece-nos superficialmente a mais cosmopolita das cidades históricas mas, conhecendo-a por dentro, revela-se no seu provincianismo inesperado que se reflecte no mau gosto dos objectos propostos como “souvenirs”, que, ao fim e ao cabo, corresponde ao gosto do turista da classe média que tem de levar uma prenda para cada membro da família: consumismo, a quanto obrigas!

De qualquer modo, não é a cidade ideal para se viver: o clima é frio e húmido, com os longos dias (ou semanas) de nevoeiro de Outubro a Abril; quente e asfixiante no Verão; e há ainda os turistas, cada vez mais numerosos, ainda que a maior parte, a dos grupos das agências de viagens, fique em Mestre, por ser mais barato, seja trazida de autocarro atè à entrada da cidade, metida nos “vaporetti” até S. Marcos, visite a praça, a basílica e às vezes o palácio, regressando a Mestre passando pelo Canal Grande; e parta de novo, com o dever cumprido: Veneza está vista.

E, todavia, só pode dizer que conhece Veneza quem já alguma vez se perdeu no labirinto de ruas, dos pequenos canais atravessados por infinitas pontes. Quem já teve esse privilégio fica a conhecer in loco que o plano arquitectónico não obedece à estrutura das cidades ditas normais, porque aqui parte-se com o nosso sentido de orientação para alcançar um determinado lugar e, depois de algum tempo, reconhece-se que se voltou ao sítio inicial.

Os venezianos, esses, são fechados em si próprios, orgulhosos e algum tanto desconfiados, como acontece com os florentinos, isto é, com os habitantes das cidades com uma história e um poder económico que pertencem, porém, a um passado longínquo. Um veneziano que sai da cidade para ir, por exemplo, a Milão ou Roma, diz que vai ao estrangeiro, memória certamente da Sereníssima República de Veneza, dos seus tempos áureos e da recente unidade política da Itália (1862). Mas nas outras cidades não se verifica este nacionalismo de província, porque aqui até os outros italianos são considerados estrangeiros (“foresti”).

Para quem vive nesta cidade reconhecidamente única, a relação ódio/amor deve-se em grande parte ao facto de tudo ser pensado e projectado em função do turismo. Neste aspecto, a indústria cultural é florescente porque obedece ao critério de atrair cada vez mais turistas (regata histórica, regata aberta a todos os tipos de embarcações, carnaval, etc.) através de manifestações por vezes de nível duvidoso e que correspondem ao fenómeno de massificação.

A população residente decresce, até porque, como já escreveu Michel Tournier (o autor de Sexta-feira ou os limbos do Pacífico), «toda a gente vem a Veneza, ninguém aqui fica. A não ser que aqui se venha para morrer». De facto não foi por acaso que Thomas Mann escreveu Morte em Veneza acerca da beleza efémera. Como eu próprio, salvando as devidas proporções: «A imagem do poder reflecte-se/ na pedra que alastra/ poderosa, contínua,/ ao longo da memória dividida/ entre fulgor e margem,/ alegria e desprazer,/ os oxímoros da paixão».

3 Comments

  1. Que belo texto, poeta Manuel Simões! Veneza e seus mistérios estão aí para quem apenas a pressentiu, como eu que a vi algumas vezes e muito me comovi. Veneza é dos artistas e dos poetas, como Alfred de Musset e George Sand, como Henry James, e Thomas Mann e o grande Visconti que transcreveu Morte em Veneza num filme lindo.,E Simone de Beauvoir a adorava.. No outono e no inverno, com menos turistas é, sim, mais poética e secreta .
    Bela homenagem, Manuel Simões, ao argonauta “veneziano” Silvio Castro, que eu gostaria de ter conhecido.

    um abraço solidário e afetuoso.
    da Rachel

  2. Bela homenagem à memória do amigo e a cidade de Veneza, ambas tão próximas do escritor. Receba, Manuel Soares, minha homenagem por seu texto delicado e sólido, sensível e inteligente: completo.
    Obrigada,
    Carmen Maria Serralta.

  3. Perdão pelo equívoco ao digitar o sobrenome – Manuel Simões.
    Obrigada!
    Carmen Maria Serralta

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