Camões recitado e cantado (II) – 10 – por Álvaro José Ferreira

Imagem4Retrato de Luís de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende. Este é considerado o mais autêntico do retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.

Nota prévia:

Para ouvir os poemas (os recitados e os cantados), há que aceder à página

http://nossaradio.blogspot.com/2014/06/camoes-recitado-e-cantado-ii.html

e clicar nos respectivos “play áudio/vídeo”.

Eu cantei já, e agora vou chorando

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP “Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos”, Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; “Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz”, CNM, 2011)

Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.

Cantei; mas se me alguém pergunta: “Quando?”
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.

Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.

De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?

* Direcção literária – Alberto Ferreira;  Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires;  Montagem – Moreno Pinto

Com Que Voz

Poema (soneto): Luís de Camões [?] (excerto) [>> texto integral abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP “Com Que Voz”, Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; LP “O Melhor de Amália: Estranha Forma de Vida”, EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 1995; “Amália 50 Anos”: CD “Os Poetas”, EMI-VC, 1989; Livro/4CD “O Melhor de Amália”: CD 2, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; “Com Que Voz” (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010)

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa;  Pedro Leal – viola;  Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos;  Técnico de som – Hugo Ribeiro;  Remasterização – Joel Conde, com Frederico Santiago, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores

Com que voz chorarei meu triste fado

(Luís de Camões ?)

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dela aventuro.

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