VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 10 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

café - XIV

Ainda se estava nos primeiros anos de vida dos grandes cafés de Lisboa e já o intendente Pina Manique dava caça aos frequentadores mais lestos de língua e mandava fechar os estabelecimentos mais desgarrados na discussão política. O célebre intendente-geral da polícia do Reino dizia que nessas casas se juntavam indivíduos não só para tomar qualquer coisa ou jogar ao bilhar, “mas também para falar com liberdade das sagradas pessoas de Suas Majestades”, como era o caso do café do Manuel José na Rua Nova de El-Rei.

café - XV

 

Para o intendente Manique tudo o que era café cheirava mais a conspiração do que à bebida tornada na circunstância. Do café na Rua dos Remolares, “onde se juntava muita gente palrando contra o príncipe regente e fazendo a apologia da liberdade”, até à taberna situada na travessa do mesmo nome, “que não era menos isenta dessa pecha e onde vários franceses tocavam rabeca e cantavam canções sediciosas”, tudo eram casas que não lhe inspiravam qualquer confiança. “Dos cafés do Rossio, então, nem é bom falar. Por lá tudo cheirava a jacobinice, a maçonaria, e outros nomes com que o intendente baptizava esta gafaria de sarampelho político, que atacara muito bom português.” Refere Pinto de Carvalho, em Lisboa D’ Outros Tempos.

Durante o mando de Pina Manique foram muitos os cafés que fecharam as portas, é certo, mas terão sido muito mais os que entretanto iam aparecendo por essa Lisboa em crescimento. “Por cada um que se encerrava surgiam sete – e à volta das mesas de mogno que o Império trouxera (as primeiras mesas que os botequins da capital conheceram, cobertas de mármore negro e pregadas de bronze) a liberdade ia tentando as suas asas, alargando as suas conquistas, organizando as suas actividades.” – Escreve Júlio Dantas. – “O café torna-se, por excelência, o órgão da soberania popular. Dele nascem as ideias generosas; nele se forjam as armas revolucionárias; no seu seio se produz, pela agitação dos Catões e dos Brutos do romantismo e do pré-romantismo, toda a efervescência política de 1789 e de 1820, de 1828 e de 1846. Casquilhos e apostólicos, archoteiros e casacas-de-briche, burros e malhados, patuleias e cartistas vieram, enxamearam, trovejararn, conspiraram no café Neutral de Belém e no Marcos Filipe do Pelourinho, na Casa da Neve e no Botequim das Parras – fugidos, agora, às «moscas» do Intendente, logo ao cacete dos «corcundas», hoje à perseguição dos franceses, amanhã à sola dos carrascos miguelistas.”

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