A IDEIA – LUSOGNOSE, MITOLOGEMAS E A ROSA ENLAÇADA NA CRUZ – 1 -por António de Macedo

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Os exemplos abundam, mas detenhamo-nos neste, epitómico do que se acabou de dizer: em contraponto com o quadro O Encoberto, com um rei D. SebastiãoImagem2 trespassado de setas como o mártir S. Sebastião, de olhos fechados e de manto branco sobre a cabeça numa alusão ao Cristo do Ecce Homo português do século XV11, LF propõe-nos uma descodificação do Mistério Rosacruz num acrílico intitulado Calmo na falsa morte, representando Christian Rosenkreuz — também de olhos fechados — tal como o teria vislumbrado Fernando Pessoa no seu famoso tríptico de sonetos: No túmulo de Christian Rosenkreuz. Nestas duas pinturas de LF, O Encoberto e Calmo na falsa morte, se entrecruzam várias vias da meta-visionaridade perseguida pelo artista. Desde logo o mitologema do Encoberto, ou do Salvador Oculto, na esteira de Sampaio Bruno, e que o filósofo e antropólogo Gilbert Durand inclui na sua classificação do que ele considera os quatro grandes grupos míticos, ou mitologemas, do imaginário profundo do povo português: 1. O Fundador vindo de fora; 2. A Nostalgia do impossível; 3. O Salvador oculto; 4. A Transmutação dos actos. (1)

 A intersecção daquele Salvador Oculto com o mítico fundador da Ordem Rosacruz, operada por LF não só nestes dois quadros mas em muito do que desvendou nas últimas etapas da sua obra plásmica, constitui simultaneamente uma cifra e um programa: a

Geometria como chave e a Lusomitia como destino, mediadas pelo trovadorismo da Rosa enlaçada na Cruz.

 No terceto final do terceiro soneto do mencionado tríptico de Pessoa, alude-se à casual descoberta que os Irmãos da Fraternidade Rosacruz fizeram do túmulo do Fr. C. R.-C. (Frater Christianus Rosae Crucis) em 1604(2), e que é descrita no primeiro manifesto rosicrucista publicado em Kassel em 1614, Fama Fraternitatis: Contudo ainda não tínhamos visto os despojos mortais do nosso Pai, tão escrupuloso e tão sábio. Por isso, deslocámos o altar e levantámos uma espessa placa de cobre. Vimos então um belo e glorioso corpo, ainda intacto e incorrupto, absolutamente conforme ao retrato que o representava revestido de todos os seus ornamentos e adereços. Segurava na mão um pequeno livro de pergaminho, com letras de ouro, chamado T., depois da Bíblia o nosso tesouro mais precioso, que convém não submeter imprudentemente à censura do mundo.(3)

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Notas

1 – Gilbert Durand, “O Imaginário Português e as Aspirações do Ocidente Cavaleiresco”, in Cavalaria Espiritual e Conquista do Mundo, VvAa; org. Yvette K. Centeno. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1986; págs. 11 e segs.

2 –  Segundo a lenda tradicional preservada na Fama Fraternitatis (1614), o corpo de Christian Rosenkreuz foi descoberto, em perfeito estado de conservação, 120 anos após a sua morte, que teria ocorrido em 1484. Esta data não vem explícita nos Manifestos Rosacruzes, mas é facilmente deduzível a partir de duas frases na Confessio Fraternitatis (1615) onde se diz que 1378 é o ano de nascimento “do nosso amado Pai Christian”, e que ele viveu 106 anos.

3 – Fama Fraternitatis, trad. integral em: Bernard Gorceix, La bible des Rose-Croix. Paris: Quadrige/PUF, 2ème éd., 1998; pág. 15. — O investigador e esoterista Sédir revela-nos que

o Livro T. escondido no túmulo de Rosenkreuz era o Tarot (Sédir, Histoire et doctrines des Rose-Croix. Rouen: Bibliothèque des Amitiés Spirituelles, 1932; pág. 177).

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