VAMOS BEBER UM CAFÉ? – 13 –  por José Brandão

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DO BOTEQUIM AO CAFÉ (PEQUENA HISTÓRIA DOS GRANDES CAFÉS DE LISBOA – cont.)

Do botequim dos Parras ao Café Nicola

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Remonta à década de 1780 o primeiro Nicola que o Rossio conheceu e de cuja fama ainda hoje se perpetua no magnifico salão existente no mesmo local do primitivo botequim Nicola onde se reunia a boémia politica literária da época e que teve entre os seus clientes mais assíduos o grande poeta Bocage.

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Situado originalmente nos números 22 e 23 do Rossio, o Nicola é um dos cafés de Lisboa com maior história. Do estabelecimento de Bocage passou a depois a livraria, voltando, nos nossos dias, a servir a bebida de origem italiana. O nome Nicola, segundo se sabe, tem as suas origens no nome de um italiano, Nicolau Breteiro, que viveu em Lisboa e que foi o primeiro proprietário do estabelecimento. Depois, Breteiro trespassou-o a Rosa Maria de Athayde, em 1824, e o negócio não durou muito. Treze anos mais tarde, em 1837, o café de Bocage e de tantas tradições passou a albergar a livraria de Francisco Artur da Silva, e assim permaneceu até ao final do século XIX. Em 1880 o espaço que noutros tempo fora de convívio e de inspiração poética, transformou-se num elegante «salon de mode» Passou depois por ser uma ourivesaria, até que 1929 voltou à sua atividade de origem e de vocação: um café. O Nicola acabava de enriquecer a sua história. No passado ficaram Bocage e todos os boémios que o frequentaram. Ficaram os livros de Artur da Silva e as joias de Xavier de Carvalho. Quanto ao futuro uma única certeza: o estabelecimento voltaria a se chamar Nicola, em homenagem ao seu fundador.

Terá sido novamente um italiano, de nome Nicolau Breteiro, o fundador deste café lisboeta que serviu de esteio a muito do que foi a inspiração arrebatada do grande poeta Sadino.

Paredes meias com o Botequim das Parras, o Nicola e este seu vizinho eram nos alvores de Oitocentos os locais favoritos de muitos dos escritores e políticos que os espiões de Pina Manique traziam debaixo de olho.

Acusados de jacobinos, maçónicos, ou lá o que fosse, muitos dos frequentadores destes dois cafés do Rossio conheceram os calabouços do Palácio da Inquisição, mesmo ali â mão de semear, no topo norte da Praça.

Os livros da Intendência da Policia são bem explícitos. Espionando os cafés de mesa a mesa iam metendo os suspeitos na Intendência, à Cruz dos Anjos, ou no Santo Oficio, ali logo no Rossio.

Bocage foi um dos que não escapou a essa saga perseguidora indo também bater com os costados às tarimbas do Santo Ofício. Porque escrevera como sentia, esteve preso no Limoeiro e depois remetido para a Inquisição e dali para os conventos de S. Bento e das Necessidades.

Pina Manique e a Santa Madre Igreja nunca viram com bons olhos estes cafés onde se falava de tudo e contra tudo. O Nicola bastava ter Bocage na lista de clientes para merecer a atenção especial dos esbirros da polícia politica que não largava o local um único instante.

Mas se a Policia já não gostava muito do Nicola, muito menos suportava o café ao lado, onde o atrevimento do dono ia ao ponto de mandar iluminar a fachada do estabelecimento sempre que se passava algo que tivesse a ver com o patriotismo dos portugueses e até mandara construir uma espécie de gabinete reservado para as reuniões dos seus clientes poetas, antes mesmo da cozinha e da arrecadação para as garrafas. O dono do Botequim das Parras era um ex-gerente do Nicola conhecido como o José Pedro das Luminárias, por razões óbvias numa época em que o Rossio, como quase toda a cidade, viviam as noites sem ver ponta do que fosse.

Em 1808 ao festejar a retirada das tropas francesas o José das Luminárias pôs toda a gente de boca aberta com o espetáculo de uma imensidão de lanternas de chamas coloridas a encherem o prédio do botequim até à altura do terceiro andar. Nesta pomposa iluminação a porta principal do café apresentava um enorme quadro de dez palmos de altura por oito de largura representando a Inglaterra, Espanha e Portugal com o rio Tejo por baixo. Na base do quadro estavam escritos dois versos de Bocage. Calcula-se que o José Pedro das Luminárias não terá gasto menos de seiscentos mil réis nesta iluminação que durou durante as três noites de 15, 16 e 17 de Setembro de 1808.

Durante a ocupação francesa todas as tabernas foram obrigadas a cerrar portas às 5 horas da tarde. Esta ordem acabou por ser igualmente extensiva aos cafés de Lisboa e manteve-se até a retirada dos ocupantes. Em Abril de 1810, o José Pedro pedia licença para ter a loja aberta até às 11 horas da noite, alegando entre outros motivos o seu denotado patriotismo. O intendente indeferiu o pedido, mas pouco depois um ofício de Lord Wellington concede a licença pretendida.

Foi ainda no Botequim das Parras que em 1820 serviu de centro revolucionário e onde se preparou em grande parte o movimento vintista. O gabinete dos poetas da casa do José Pedro era um laboratório literário, conforme nos conta Pinto de Carvalho. Alcunharam esse cubículo de Agulheiro dos Sábios. Nele se planeavam obras, se improvisavam versos, se discutiam todos os aspetos de tudo quanto eram factos políticos ou escândalos que valessem a pena. “Políticos, curiosos, indagadores da vida alheia, mexeriqueiros de ofício, rnás-linguas encartados, todos corriam ao Botequim das Parras a fim de perguntarem ao José Pedro o que é que diziam os poetas.”

Depois da Abrilada contrarrevolucionária de 1824 o Botequim das Parras foi obrigado a fechar as portas e o José das Luminárias vai parar à prisão tendo por companhia o visconde de Laborim. Ainda no tempo da usurpação de D. Miguel teve de homiziar-se em casa de amigos, entre os quais se contava Manuel Fernandes Tomás com direito a retrato na sala nobre do botequim.Em 1848, já a rondar os 75 anos de idade, José Pedro serviu como soldado no batalhão da Carta onde ocupou o lugar de ordenança andando normalmente de baioneta e muleta. Morreu com 90 anos, no mesmo prédio onde então não existia já o seu café.

Com a sua clientela politica e literária, o Nicola e este seu vizinho Botequim das Parras eram para Lisboa o que o Procope e o Foy eram para Paris. Os melhores escritos sobre o passado lisboeta reconhecem que apesar de os fundadores terem morrido na miséria e de ambos os cafés lhes terem sobrevivido durante pouco tempo, “a memória destes locais é indelével nas páginas escritas sobre Lisboa”. (Marina Tavares Dias, in Lisboa Desaparecida.

O Botequim das Parras existiu de 1790 a 1850 e nunca mais viria abrir portas. No lugar que ocupou, está hoje o Pic-Nic, ao lado do novo Nicola reaberto em 1929, depois de um interregno que começou em 1837 com o encerramento do café, nessa data na posse da nova proprietária Rosa Maria de Athayde.

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