AS OPERÁRIAS DE ALCÂNTARA E AS SUAS LUTAS ANTES E DEPOIS DA I REPÚBLICA por Clara Castilho

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É um livro que resulta de um trabalho de investigação de Maria Augusta Seixas inserido nos Roteiros Feministas da Cidade de Lisboa. É uma edição da UMAR/Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães e tem o apoio da Junta de Freguesia de Alcântara, em 2012.

Pode ver-se que se trata de uma investigação demorada, minuciosa e preciosa para o entendimento da história de Portugal, da história dos movimentos operários e do papel das mulheres na sociedade portuguesa. A leitura é fácil e deixa muitas portas para se ir saber mais sobre determinados aspectos de que se levanta o véu.

Alcântara é a freguesia onde trabalho há mais de vinte anos. Ainda conheci algumas “vilas” onde a vida era miserável. A deslocação dos seus habitantes para zonas de habitação social distantes é assunto para outra altura. Fiquemos com alguns dos aspectos apresentados no livro.

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[…] “O movimento socialista teve aqui uma implantação significativa.

Em 1890 o Centro Socialista de Alcântara encabeçava a manifestação do 1º de Maio. Foi a primeira vez que se comemorou o 1º de Maio em Portugal. (p.16)

[…]Pode-se dizer que as lutas das operárias Alcântara foram singulares como singulares são as lutas das mulheres.

Duma maneira geral, as revoltas das trabalhadoras de Alcântara encerram em si muitas das características dos protestos femininos, ao arrepio das formas mais comuns do activismo sindical.

Iam em cortejo pedir audiências, não recusavam redigir pedidos de forma cortês em que solicitavam a boa intervenção das entidades para benefício de todos; quando denunciavam os abusos sexuais de que eram vítimas por parte dos capatazes e directores, deixavam ver, ao mesmo tempo, como se faziam e desfaziam as promoções de outras operárias, sem qualquer relação, a mais das vezes, com o bom desempenho profissional; abandonavam o trabalho como forma de greve.

Conseguiam transformar as greves numa festa, de grande convívio e solidariedade, capazes de congregar a simpatia da comunidade local. Foi assim na greve de Agosto de 1913 na fábrica Conde da Ponte em Alcântara um dos pontos altos do protesto do operariado feminino.

Intervinham em grupo nos conflitos laborais e foi com os seus xailes, braços e mãos, que se bateram e se defenderam, a si e aos seus, enfrentando quer os patrões armados quer a guarda a cavalo. (p.18)

[…] Incitavam os maridos a manterem-se firmes «Deixem-se estar. A tropa não faz mal. Se for preciso a gente põe-se à frente dos soldados, como as nossas companheiras  fizeram em Aldegallega e eles não avançam!»

Não se calavam facilmente. Gritavam e insultavam. Numa situação de greve em que o gerente não deixava entrar o jantar para os operários afim de os obrigar a sair, eles não arredaram pé graças à “barulheira” das mulheres «principiando as mulheres a protestar. De tal modo que o comandante da guarda republicana ordenou que se fizesse entrar a comida!»

Não foram nem submissas, nem apáticas. […] A má qualidade da matéria – prima vai estar no cerne das reivindicações das mulheres trabalhadoras. (p.19)

[…] Ao associarem-se entre si, as mulheres operárias também eram feministas.

E se as feministas burguesas foram pioneiras no uso da palavra, quer escrita, quer oral, a pouco e pouco, também, as operárias tomaram a palavra nas suas reivindicações como trabalhadoras, nos congressos operários, nas reuniões, nas assembleias, nas manifestações, nos cortejos, em todas as manifestações públicas. (p.24)

[…] Estas primeiras aproximações vão ser varridas pela concessão do voto só às mulheres instruídas e com famílias a cargo”. (p.27)

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