OS MEUS DOMINGOS – ELOGIO DA MÁ EDUCAÇÃO – por ANDRÉ BRUN

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1881 - 1926
1881 – 1926

II

 

Bem sei que, ao cabo de alguns anos, o bicho homem voltará a querer civilizar-se. Aqueles que cultivam o sadismo espiritual de mal encaminhar os seus semelhantes hão de, pouco a pouco e cinicamente, tornar a propinar-lhe o veneno da Boa educação. Os meus vizinhos, o Ribeirinho dos Bairros Sociais e a D. Viriata do Mercado de S. Bento, têm um menino de seis anos, o Alfredinho, que, aos modos que já tem quando sai na limousine de seus pais, é muito capaz de vir a produzir rebentos que não cuspam nos oleados e falem às mulheres de chapéu na mão como se fazia no século passado, em 1914.

Entretanto, vamo-nos regalando de observar o nosso semelhante sem coleira nem açamo e tratemos de aproveitar os tempos que vão correndo para, enquanto ele comete o que os antigos chamavam grosserias, contentarmo-nos ao menos em ser mal educados.

Doravante, mal bisparmos ao longe um maçador, trataremos de passar lepidamente para o passeio oposto ou, se não tivermos tempo de o fazer, fingiremos que somos míopes. Quando nos não apetecer ir a qualquer parte, iremos a outra e não explicaremos nada para não perder o nosso rico tempo. Se alguém nos pedir uma opinião, daremos a nossa e não a que o parceiro estimaria que tivéssemos. Se houver uma verdade a dizer, trataremos de gritá-la nas bochechas do próximo e quando calhar, em vez de a contar, em segredo e fechados a sete chaves, aos atilhos das nossas próprias ceroulas. Que um burro seja para nós um burro e toca a sacudir as grilhetas que dantes nos conseguia impor A arte de viver na sociedade! Libertemo-nos dos importunos e dos tolos e dispensemos aquela estima superficial que os bem educados de outrora granjeavam com a doblez do seu proceder e do seu pensar!

Aqui há anos, se tomássemos todas estas liberdades, nunca mais nos convidariam para jantar e nenhuma mãe nos confiaria a sua filha para a arrastarmos no turbilhão da valsa a três tempos.

Hoje, contanto que não exageremos e não limpemos a boca, depois de jantar, aos reposteiros da sala de visitas, podemos perfeitamente perguntar ao dono da casa, que casou com uma velha antipática e endinheirada: – Esta serpente é que é o asilo de V. Ex.ª? – Dado o que se ouve por esses boulevards, a nossa pergunta não deixará de passar por um dito de espírito.

Igualmente, quando a dona da casa nos disser: – Desculpará. Isto é um jantar sem pretensões – poderemos comentar com um sorrido duro: – Pois então, para jantar mal, ficava em casa…

Se se arma soirée e uma senhora um tanto gorda e decotada nos desafia para um two-steps, calhará bem mirar-lhe o seio e piscar o olho, acrescentando: – Sim, senhora! Desde que andei na ama nunca mais tornei a ver tanto e de tão boa qualidade!…

Finalmente, se a mais arrojada discípula da mais simpática professora de canto da nossa capital se dispuser a agredir-nos com uma romanza, poderemos exclamar: – Mau! E eu que não trouxe a capa de borracha!

Tudo isto, que será, aliás, a expressão exacta do nosso pensar, ficará muito aquém do que diriam em igualdade de circunstâncias o Sousa das madeiras, o Lopes das conservas e o Santos dos Transportes Marítimos.

 

05 de Março de 1923

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