A IDEIA – O PONTO DE BAUHÜTTE E O MISTÉRIO DO SEXTO ESTIGMA – 2 – por António de Macedo

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Com o golpe de lança naquele ponto, o grande vórtice do “corpo astral”(1) do candidatoà Iniciação, localizado no fígado, é libertado, imprimindo um impulso ascendente às energias contidas no nosso corpo emocional, ígneas e marciais — adequadamente figuradas pelo soldado e pela lança, ou seja, pelo planeta Marte e pelo elemento ferro.

Para encontrar o Ponto de Bauhütte Almada-Negreiros e LF concentraram-se no triângulo, no quadrado e no círculo, porque assim está escrito na formulação do enigma que veremos a seguir. De facto, o triângulo, o quadrado e o círculo são os três polígonos basilares de toda a Geometria, se considerarmos o círculo como um polígono com um número infinito de lados. Mas sendo o Ponto de Bauhütte um ponto ex-cêntrico, tal como o sexto estigma, não será mais acertado relacionaá-lo com o passo seguinte, o passo     pentagramático? Misticamente, o quadrado corresponde ao Quadrado Universal dos quatro elementos, do Tetragrama sagrado e do “quadrado de Adão”, ou seja, 9=3×3 (2), o que nos esclarece sobre os 33 anos simbólicos de Jesus e o porquê das 9 IniciaçõesMenores da Ordem Rosacruz. É um quadrado que se contém no círculo representativo do Espírito e do Sol divino, sendo impregnado pelo triângulo da Trino Espírito de Deus25 que “habita o corpo-Templo do homem”, como nos esclarece S. Paulo.26 Esta misteriosa intersecção do quadrado, do círculo e do triângulo é a solução longamente demandada por Almada e por LF, e consiste no traçado do enigmático ponto dessa intersecção impossível — o Ponto de Bauhütte.

O que era a Bauhütte? Designava-se por este nome(3) uma federação medieval de todas as Lojas de canteiros (talhadores de pedra) do Sacro Império Romano-Germânico, e durou até aos fins do século XVII — federação que se constituíra sob a forma de associação autónoma de ritos secretos. Esses maçons de Arte Gótica transmitiam de boca a ouvido (de Mestre a Discípulo, entenda-se: Discípulo no estágio final de candidato a Mestre) uma misteriosa quadra que assim rezava: Ein Punkt der in dem Zirkel geht, / Der im Quadrat und Dreyangel steht, / Kennst du den Punkt, so ist es gut, / Kennst du ihm nit, so ist’s umbsonst!28

No seu livro Almada e o número, LF transcreve a tradução tal como Almada-Negreiros a propôs: Um ponto que está no círculo / E que se põe no quadrado e no triângulo; / Conheces o ponto? Tudo vai bem. / Não o conheces? Tudo está perdido.29

Para além das engenhosas soluções geométricas que Almada e LF encontraram para aquele enigma maçónico30, tal ponto é adequadamente representado pelo golpe de lança de Longinus, verdadeiro “Ponto de Bauhütte” por onde o aspirante crucificado encontra a intersecção comum do quadrado (matéria, quaternário dos quatro elementos) de que se liberta, com o triângulo, ou luz do seu Triplo Espírito, e com o círculo solar do Reino de Cristo aonde se eleva. É, na realidade, “um ponto que está no círculo e que se põe no quadrado e no triângulo”.

Notas

1 – Lima de Freitas, Pintar o Sete: Ensaios sobre Almada-Negreiros, o Pitagorismo e a Geometria Sagrada. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1990; pág. 155.

2 -Os evangelhos canónicos não referem o nome do soldado que, segundo o Evangelho de João, “trespassou o lado” de Cristo com uma lança (João 19, 34). O nome de Longinus élhe atribuído num apócrifo tardio, a primeira parte do Evangelho de Nicodemos (Acta Pilati XVI, 7).

3 -Os antigos hermetistas, na sequela de Paracelso, designavam por “astral” a parte subtil do ser humano, sede dos desejos e das emoções, constituída por uma substância de luz e de energia supradimensionais que diziam ter a aparência de jóias cintilantes como estrelas — daí a designação de astral (lat. astralis, de aster, estrela, astro).

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