A IDEIA – LIMA DE FREITAS E A SURREALIDADE DO GRAAL – A LANÇA E O CÁLICE – por António de Macedo

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As imagens da Lança Sagrada (Bauhütte) e do Cálice (Graal) repetem-se quase se diria ansiosamente na obra de LF, não apenas como símbolos mas sobretudo como portais abrindo para uma supra-realidade que, mais do que surrealidade, é uma ascese (alpha) e uma gnose (ómega) que o artista foi escalonando ao longo da sua vida terrena por uma (interminável?) escadaria de Jacob.31

A Lança e o Graal… Não resisto à tentação de registar alguns exemplos: A asna e o Graal (1965-1973), óleo em que uma asna romana com a forma de esquadro maçónico avulta sobre o cálice sagrado; O amante de fogo (1971), em que o Ovo Filosófico emerge do cálice, à esquerda do quadro; O anjo do Graal (1980), em que o anjo de peito feminino segura o santo cálice na horizontal, vazio, provavelmente após ter vertido todo o seu esfíngico conteùdo; Os guardiães (1985), acrílico com o cálice na base, entre o casal alquímico cujas mãos seguram uma Rosa de Luz; O Jardim das Hespérides (1986), cujo gigantesco cristal poliédrico ao centro ilumina o cálice sagrado donde emerge um pequeno dragão; O Preste João (1986), acrílico que parte de uma filactera inferior com o dístico “Et dixit qui sedebat in throno: Ecce nova facio omnia”32, e cuja refulgente figura central se senta num trono entre o Ancião dos Dias, que lhe oferece o mundo armilar, e a mulher coroada do Apocalipse, que lhe apresenta a taça do Graal donde emerge um cavalomarinho; O Encoberto (1987), acrílico sobre madeira pleno de elementos de múltiplossimbolismos referenciais, entre eles as duas colunas maçónicas do Templo de Salomão33 e à direita do Encoberto a taça do Graal; O cavaleiro da aurora (1994), onde a par da incandescente taça graálica, vemos a Lança ao ombro do cavaleiro… A Lança, por sua vez, tão-pouco falta nesta prodigiosa galeria de visionaridades, como por exemplo em Cegada nas ruínas do Carmo (1986); nos óleos sobre tela A árvore em fogo (1974) e S. Francisco Xavier na Índia (1967); no tríptico Sol Justitiae (1983); nos acrílicos O milagre das rosas (1987), A pluma ou o Infante das 7 partidas (1989), O Infante das 7 partidas do mundo com anjo feminino (1989)… Longe de mim a ideia de pretender ser exaustivo nesta lista, que não é mais do que uma sumária amostragem da riqueza simbólica de todo este maravilhoso universo. E já que falámos em símbolos, concluamos, enfim — ainda que provisoriamente —, chamando a atenção para os simbolismos maçónicos que por diversas vezes assinalei nos quadros de LF. Não são casuais, como é claro de intuir, e prendem-se com as preocupações iniciáticas do artista e a sua relação com a superior Ordem Maçónica de que nos falava Fernando Pessoa. Um segredo maçónico tal como maçónico é o segredo do Ponto de Bauhütte.

 

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NOTAS

24 Em hebraico, o nome de Adão, símbolo da humanidade, escreve-se com as letras aleph, daleth, mem, cujos valores numéricos são, respectivamente, 1, 4 e 40, e cujo somatório é 45. Ora, 4+5=9, daí dizer-se que 9 é o número da Humanidade, a um passo de alcançar, por progressiva evolução perfeccionante, o 10 da Divindade.

25 0Vontade-Sabedoria-Actividade. Ver: Max Heindel, The Rosicrucian Cosmo-Conception.

Oceanside: The Rosicrucian Fellowship, 1977; págs. 177-182.

26 Romanos 8, 9; 1 Coríntios 3, 16.

27 Bauhütte significa, tradicionalmente, uma Loja de construtores maçons operativos.

28 Citado em: Matila C. Ghyka, Le nombre d’or. Paris: Gallimard, 1931, vol. I; págs. 71-72.

29 Lima de Freitas, Almada e o número, 2.ª ed. revista. Lisboa: Editora Soctip, 1990; p. 53.

30 Lima de Freitas, Pintar o Sete: Ensaio sobre Almada, o Pitagorismo e a Geometria

Sagrada (op. cit.); págs. 151 a 179. — Posteriormente, LF relata como foi conduzido a essa

descoberta pelo misterioso número 515, por ele encontrado em emblemáticas obras

portuguesas de arquitectura e de pintura. Ver: Lima de Freitas, 515: O Lugar do Espelho —

Arte e Numerologia [515: Le Lieu du Miroir — Art et Numérologie, 1993], trad. port. do Autor.

Lisboa: Hugin Editores, 2003.

 

 

 

 

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