CARTA DO RIO – 9 – Rachel Gutiérrez

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O horror da guerra e do massacre das populações civis na Faixa de Gaza, na Síria e no Iraque, a explosão que matou todos os passageiros e tripulantes do avião da Malaysia Airlines no céu da Ucrânia e, mais próximo de nós, a notícia chocante da morte de um homem, que agonizou durante uma hora diante de um hospital que se negou a atendê-lo, em São Paulo, nos levam a pensar no quanto é suicida e trágica a nossa civilização.

Porém, para não ficar só nas tristezas, decidi evocar aqui pensadores e ativistas que procuram mudar o quadro da realidade a partir de suas visões de mundo e de seus engajamentos. Em primeiro lugar, duas mulheres: uma norte-americana nascida na Áustria, e uma espanhola, nascida na Argentina. A primeira, Riane Eisler, a celebrada autora de O Cálice e a Espada, um estudo multidisciplinar que complementa os nossos conhecimentos da História e da Antropologia desde a mais remota antiguidade, e de The Real Wealth of Nations , ainda não traduzido em português, que trata de incluir na economia e na política o papel fundamental dos que exercem o que ela chama de caring, que podemos traduzir como cuidado. É a valorização do que tem permanecido oculto, ignorado e em geral não remunerado: os trabalhos domésticos, o cuidado com as crianças, com os velhos e com os doentes, atribuições quase exclusivamente femininas sem as quais a humanidade não sobreviveria. Dito assim, parece uma visão simplória da realidade, mas Eisler discute sistemas econômicos, questões de mercado, desenvolvimento sustentável e democracia participativa, tudo o que atrai e congrega os intelectuais e cientistas que preconizam as indispensáveis transformações sociais. A segunda pensadora igualmente admirável é a filósofa do ecofeminismo, Alicia H.Puleo que, na defesa do planeta na qual inclui os que chama de animais não humanos, denuncia “ a evidente irracionalidade do complexo econômico tecno-científico globalizado que conduz à catástrofe ecológica e aprofunda as injustiças sociais…”. Puleo faz agudas críticas a determinados aspectos patriarcalistas da cultura e aos “integrismos” religiosos que considera retrógrados não só em relação às mulheres, mas em relação à própria Natureza. Defende a liberdade, a igualdade e a sustentabilidade.

Evoco também dois brasileiros, cujos trabalhos em defesa do meio-ambiente os tornam cidadãos exemplares: o primeiro, Hugo Penteado, economista que se transformou num dos maiores estudiosos e defensores da vida quando se deu conta de que “duas variáveis foram excluídas dos modelos econômicos: as pessoas e toda a natureza…” Em suas conferências pelo país e no exterior, empenha-se em demonstrar que tudo está interligado e que se não defendermos o meio-ambiente, estaremos acelerando a nossa própria destruição, “o que não fará a menor diferença para o planeta”. Um simples exemplo que o estudioso dá é que sem as abelhas, toda a água da terra poderia acabar. “A ideia de sustentabilidade começa pelo reconhecimento da interdependência.” Outro ativista importante é Marcos Pontes, o primeiro e único astronauta lusófono e brasileiro que ao compreender a devastação da terra, olhando-a do espaço, resolveu fundar o primeiro Ecoestado na Amazônia e criou em Roraima uma fundação, onde agora desenvolve um extenso trabalho de preservação da floresta.

Pessoas como essas nos ajudam a renovar as esperanças no que Alicia Puleo chama de “outro mundo possível”.

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