VIERAM-ME À MEMÓRIA TANTAS DISCRIMINAÇÕES por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Começo por agradecer a Catarina Gomes, a Daniel Roca e a Vera Moutinho o excelente trabalho que fizeram sobre a “infância de vitrine”, numa reportagem do jornal Público a 20 de Julho. (Reportagem sobre portadores de lepra e de seus filhos.)

A lepra, assim como outras doenças contagiosas deve-se quase sempre, à pobreza, à desnutrição, à falta de água potável e à ausência de higiene.

 Há múltiplas organizações não governamentais que, inspirando-se na mensagem de Raoul Follereau, desenvolvem acções de tratamento e cura de leprosos por todo o mundo.

Raoul Follereau deixou o mundo mais sensibilizado para esta doença e para a sua cura.

Em Portugal, existe a Associação Portuguesa Amigos de Raoul Follereau (APARF)  que colabora com ajuda material e social, apoia projectos que privilegiam o tratamento, cura e reinserção de leprosos.

Raoul Follereau era jornalista, poeta, e anti-nazi.

A lepra era a doença da “sujidade, da impureza”.

O professor Bissaya Barreto, médico prestigiado, considerou que o tratamento da lepra passava pelo internamento compulsivo dos adultos e pelo afastamento dos filhos, logo à nascença, para ele esta era a única forma de proteger toda a população. Começou então uma grande campanha, à qual não foi alheia a Rádio Nacional, para que todos os portadores desta doença, por livre vontade ou denunciados pelos vizinhos, fossem para a casa Rovisco Pais (1947). A campanha tinha como lema ” a nossa luta não é contra os leprosos, mas contra a lepra”. O sentimento de exclusão estava patente nas comunidades… A campanha desenvolveu-se contra os leprosos, os diferentes porque doentes.

A ONU instituiu o Dia Mundial dos Leprosos, em 1957 a pedido de Raoul Follereau.

Os depoimentos dos adultos, que foram essas crianças na Casa Rovisco Paiva, são impressionantes pelo sentimento de sofrimento e de revolta que transmitem.

As crianças que aí viveram foram maltratadas, foram crianças vítimas de castigos corporais, foram privadas do amor e do carinho dos pais, passaram frio e fome…tudo isto “para o seu próprio bem”, tudo isto porque eram discriminadas e segregadas socialmente.

A doença e a pobreza andam, muitas vezes, de mãos dadas. Ser pobre é ter que aguentar todas as vicissitudes da vida, incluindo a doença.

A reportagem do Público trouxe-me à memória a Casa Pia, instituição, também, criada para o “bem da criança” que não tinha uma família que pudesse tomar conta dela, por pobreza ou negligências várias.

A vulnerabilidade das crianças era reconhecida face à doença e à pobreza, mas a Criança não era reconhecida como Pessoa. Foram precisos muitos anos para que se pensasse nos seus direitos e deveres que, sabemos, não são respeitados em muitas partes do mundo incluindo o nosso país.

A reportagem do Público trouxe-me à memória a discriminação que foi feita, nos anos oitenta, aos filhos dos doentes com HIV.

Na escola estes meninos eram postos de lado, em casa os pais diziam aos seus filhos para não brincarem com eles, os adultos tinham receio de lhes tratar dos arranhões ou das feridas que faziam no recreio. Estas crianças eram excluídas por serem filhos, não de pais com lepra, mas de pais com HIV.

 A reportagem do Público trouxe-me à memória o “menino de Rio Tinto” (fiz um texto para o JL na altura). Este menino foi excluído, foi vítima de troça, de afastamento, por colegas, professores e pais. Desta vez não foi porque fosse filho de alguém com doença estigmatizante, mas porque tinha tido um cancro e feito quimioterapia. O pouco cabelo, a magreza, a fragilidade física provocadas pelo tratamento foram motivos de exclusão. Crianças e adultos segregaram este menino de todas as maneiras, mas a força que lhe vinha da fraqueza falou mais alto do que a discriminação.

A reportagem do Público trouxe-me à memória tantas discriminações de que são vítimas adultos e crianças, por serem portadoras de doenças estigmatizantes ou serem filhas de pais doentes, ou serem elas próprias doentes ou diferentes fisicamente.

As crianças, vítimas destas e de outras exclusões, são crianças maltratadas. O reconhecimento positivo do diferente começa em casa, na comunidade. Quando vão frequentar a Escola todas as crianças e pais já deviam estar sensibilizados para viverem com o diferente. A Escola serviria para sustentar a inclusão escolar e social.

bia 26.7

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