PORQUE NÃO HÁ UMA CULTURA DE ADOPÇÃO? por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

As Instituições para crianças até aos 18 anos, por vezes até aos 21 anos, é uma das alternativas encontradas para proteger as crianças de famílias violentas, negligentes, sem competências sociais para acompanharem o desenvolvimento dos filhos e para as crianças abandonadas.

As crianças institucionalizadas (abrigadas como dizem os brasileiros) perdem a “sua família”, mas têm esperança em voltar para ela, em muitos casos, mas também há crianças que crescem na Instituição e aí encontraram segurança e paz, preferindo ir a casa só para visitar a mãe que era, e continua a ser, alcoólica ou negligente, para visitar a família, os irmãos, tios e pai que continuam desagregados e agressivos.

Quando as famílias não conseguem manter os seus membros, com vínculos afectivos fortes, o desconforto interior é grande e “obriga” estas crianças a irem buscar um ponto de referência que lhes dê segurança e auto estima.

Mas o que são segurança e auto estima para estas crianças?

Não será propriamente procurar companheiros que andem na escola e que cumpram as regras sociais.

Não será propiamente procurar alguém que reconheça as suas qualidades positivas, mas sim aqueles que criam nelas uma necessidade de desafio para se integrarem num grupo para não se sentirem tão sós, mas importantes porque “arranjaram” uma vinculação colectiva.

Mas, felizmente, para estas crianças existem alguns Lares, Instituições que as recebem após decisão dos Tribunais de Família. Elas vão conhecer uma casa organizada, que tem tudo o que elas precisam, tudo não, falta-lhes um pai e uma mãe…

Não conhecem os seus companheiros, não conhecem os adultos que lá trabalham e o que fazem, e que passam a ser responsáveis pelo seu bem-estar.

Aqui vão estabelecer vínculos de fratria. Mas não nos podemos esquecer daquelas crianças que não querem estabelecer esses vínculos nem querem a amizade de ninguém. Já sofreram muito afectivamente e não querem voltar a perder alguém de quem gostam.

Não é fácil para nenhuma criança ir viver para um Lar ou Instituição, é uma mudança radical nas suas vidas e todos nós reagimos às mudanças. Os técnicos estão preparados para estes casos e tentam integrar estas crianças pelo afecto, pela presença, por fazer o que estabeleceram com elas.

Penso muitas vezes se esta mudança não é artificial demais, as crianças têm que viver segundo outras regras, é como se tivessem que tomar sumo de laranja em vez de coca-cola, tem de ser, é a melhor alternativa para as suas vidas. As crianças são sempre o elo mais fraco da sociedade, das famílias, das Instituições…

Há crianças que cumprem as regras com alguma dificuldade, mas não querem voltar para a rua onde passaram fome e frio, não querem voltar para casa e ver o pai alcoólico a bater na mãe e nos irmãos.

Estas crianças têm a alma cheia de lágrimas escondidas que um dia podem não caber mais e então não sabemos o que traz esta tumultuosa nascente.

Como é que as Instituições preparam estas crianças para a integração na vida adulta?

Que competências levam para viverem sem a protecção da sua casa, a Instituição?

Sabemos que há Instituições que as acompanham durante um tempo e até há Instituições que têm apartamentos de autonomia.

O que sentirão estas crianças, como se relacionam, consigo próprias, por não terem tido uma família? Será para elas um estigma?

A adopção não seria uma melhor alternativa?

Porque é tão difícil e demorado adoptar uma criança?

Porque não há uma cultura de adopção?

bia adopção

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