* Inês Leça da Veiga é uma jovem estudante de 17 anos.
Oportunamente, como é nosso hábito, apresentá-la-emos à comunidade argonáutica.
“Resignação, não!”, o título deste seu texto, constitui, de certo modo, uma forma de apresentação.
Ainda que seja difícil saber o número exato dos sem-abrigo em Lisboa, os valores que encontrei na internet são incríveis. Segundo o Jornal Público (site consultado no dia 15 de Julho de 2014) foram identificados mais de 850 sem-abrigo em Lisboa no mês de Maio deste ano e, várias personalidades conhecidas nestes campos de ajuda, tem divulgado cada vez mais frequentemente casos de famílias inteiras que ficam nesta situação.
Eu acho importante refletir sobre esta situação e perceber que não se trata só e apenas de pessoas que querem viver na rua, viver de dinheiro mais fácil e que não querem ser ajudadas. As outras pessoas, que foram conduzidas para a rua, muitas das vezes fogem à ajuda porquanto têm vergonha da situação em que vivem, designadamente, aquelas que estão em situações graves de desemprego e perderam tudo, incluído as suas casas.
Para nós são coisas indiferentes não é? Não é conosco.
Acho que se não tentarmos imaginar o sofrimento e a angústia dessas pessoas vamos continuar a não ter uma visão verdadeira daquilo que eles passam. Fome, frio, medo. Eu, pelo menos, acho horrível.
Ora em primeiro lugar, cada um de nós, e repito, cada um de nós, tem o direito a ter um teto protegido por quatro paredes. E já nem digo uma casa!
E se está escrito na nossa Constituição e presente na nossa sociedade como um direito como é possível existirem mais de 4.450 sem-abrigo em Portugal?
Se é um “direito”, qualquer sem-abrigo podia exigir a sua casa certo?
Para mim é difícil compreender isto. O que é um direito afinal de contas? Porque é que num país supostamente “democrático” e respeitador dos Direitos Humanos são permitidas estas situações? A resposta será, “há disto em todo o lado” ou “as coisas custam dinheiro” (que eles não tem) e “os proprietários e donos das casas ou quartos têm que ganhar dinheiro”. O lucro é que predomina não é? Mas e depois?
Embora dalguns municipios venham indicações de quererem resolver o problema a experiência já mostrou que de boas intenções está o inferno cheio.
A minha ideia era, através de uma grande campanha (que deveria ter uma fonte de poder do tipo Santa Casa da Mesiricórdia ou Câmara Municipal) conseguir obter dinheiro, materiais e equipamentos suficientes e necessários para que os próprios sem-abrigo construíssem as suas habitações.
Os materiais e dinheiro teria que ser tudo doado e até podia ser muita coisa aproveitada nas obras que existem por aí em muitas zonas do País (tenho a certeza que não usam tudo o que compram).
Eu sei que parece impossível! Mas até seria um projeto 2 em 1.
Em primeiro lugar asseguraria aos sem-abrigo um direito e em segundo iria reconstruir e recuperar prédios antigos abandonados do Estado (das Câmaras Municipais).
Até podiam incluir-se estudantes universitários das Engenharias e Arquiteturas no “projeto”. Fazer desta obra social uma espécie de estágio para os estudantes (com a devida inspeção).
Os sem-abrigo ajudariam na construção das casas (assim como pessoas entendidas dessas áreas e voluntários).
E até acho que deveriam ser minimamente pagos por estarem a reconstruir um prédio abandonado do Estado, assim como qualquer pessoa é paga para pintar uma parede (por exemplo).
Eu sei que a maior parte das pessoas não quer saber da situação dos outros, nem dos seus problemas mas não custa nada ajudar. Eu sinto-me bem quando penso na alegria das pessoas que são amparadas de alguma maneira.
Nós temos e devemos, como seres humanos e cidadãos, defender e salvaguardar os direitos uns dos outros.
Se um não têm, então, ninguém pode ter a certeza que tem esse direito assegurado, nem ser egoísta perante aquele que não o tem.
E mesmo que pareça um disparate propor este “projeto” acho que muitos outros deveriam ser dos primeiros a ouvi-lo.
Lisboa, 16 de Julho de 2014
Inês Leça da Veiga
