A IMPULSIONAR O CARRINHO DA FANTASIA, por BILL MITCHELL

Temaseconomia1

Selecção de Júlio Marques Mota. Tradução e revisão de Flávio Nunes e Júlio Marques Mota.

A impulsionar  o carrinho da fantasia

Publicado a 25 de Fevereiro de 2010

Por Bill Mitchell

Parte IV

 (CONCLUSÃO)

Portanto, a hipótese a reter aqui é a de que o governo dos EUA irá aumentar as taxas,  (o que, consequentemente, levará a um aumento do rácio impostos/PIB medido pelo prisma do PIB potencial) em 2011 e 2012 para compensar a totalidade da despesa extra.

É claro que a receita fiscal aumentará tanto quanto a economia entra em retoma, contudo não é nisso em que se baseia o multiplicador via impostos. Este requer taxas de imposto a subir para reduzir o Yd dos consumidores.

Enquanto a Administração Americana se encontra no presente deveras obscura e se curva às exigências neoliberais, não obstante é ainda muito improvável que este se venha a aproximar do perfil fiscal e orçamental que Barro impõe na sua análise. Duvido muito que o governo americano venha a aumentar as taxas de imposto marginal, no montante mencionado, em 2011 e 2012.

Dessa forma, é evidente que as perdas na despesa privada no 1º e 2º ano não possam ser razoavelmente explicadas. Quanto ao 3º ano, é totalmente arbitrário – Porque é que os agentes privados não continuam a reduzir os seus gastos de forma a poupar para uma possível subida, eminente, dos impostos?

Relativamente aos efeitos do 4º e 5º anos, são ficção, na realidade não se registarão.

Hipoteticamente, e se nós assumíssemos que o multiplicador da despesa fosse de 1,5 (portanto, um valor mais próximo do que a literatura indica) e o multiplicador de impostos fosse 0 (como os estudos acima nos indicam)?

Por este prisma, ao longo dos 5 anos, a injeção de USD 600 mil milhões originariam USD 900 mil milhões em bens e serviços, o que levariam ao aumento do PIB, e a um aumento na despesa privada de USD 300 mil milhões, que são exactamente a diferença entre o valor da produção adicional criada e o pagamento do défice criado. É bem mais provável que isto venha a acontecer, mesmo que o governo dos EUA possa vir a seguir a obcecada estratégia de impostos de Barro, pois estas estimativas são muito mais prováveis do que as estimativas, divergentemente manipuladas, fornecidas por Barro.

Eis que conclusões se podem então retirar da tese de Barro:

“O pacote de estímulo orçamental de 2009 foi um erro. Todavia, um outro pacote de estímulo adicional em 2010 seria outro erro.”

(…) Posto isto, porque não adicionar 1 grão de sal.

Trata-se, pois, de uma ideologia pura que empurra um carrinho de mão repleto de fantasias, apinhado de mentiras dos Novos-Keynesianos. O absurdo de Barro foi reproduzido num documento publicado em Setembro de 2009 pelo BCE – New Keynesian versus Old Keynesian Government Spending Multipliers – redigido pelos notáveis economistas neoliberais, os anti-estímulos orçamentais, John F. Cogan (Stanford University), Tobias Cwik (universidade de Goethe), John B. Taylor (Stanford University) e Volker Wieland (Universidade de Francoforte).

Dentro destes princípios neoliberais, em Janeiro de 2009, R&B realizaram um paper, que era parte integrante da estratégia orçamental da nova administração americana, intitulado – The Job Impact of the American Recovery and Reinvestment Program.

Neste paper eles modelizaram os efeitos sobre o PIB (rendimentos) de um estímulo permanente de 1 % do PIB utilizando uma injeção de despesa pública e/ou um corte equivalente nos impostos (igual a 1% do PIB). Os dois multiplicadores estimados foram 1,55 para a despesa pública e de 0,98 para os cortes sobre os impostos, o que é, de resto, consistente com a abordagem usual.

Portanto, se o governo aumenta a despesa pública em 1% do PIB, traduzir-se-á num aumento de 1,55% do PIB total

Incapazes de lidarem com a realidade de que o seu mundo de “anti-política de estímulos orçamentais” se está a desmoronar à sua volta , alguns dos ideólogos chave dos Novos-Keynesianos, tais como Barro e John Taylor tiveram então que inventar uma outra alternativa.

A Fevereiro de 2009, Taylor, entre outros, publicaram um paper que foi subsequentemente publicado em Setembro de 2009 pelo BCE como já mencionado em cima.

Estas ilustres personagens pretendem contestar a existência dos efeitos provocados pelos estímulos orçamentais que R&B encontraram, expondo-os a um “exame”.

[Acontece que estes senhores na verdade não contestam os resultados de R&B, dado que eles inventaram a sua própria análise [1]]. A diferença é que eles assumem que o BCE aumenta as taxas de juro para impedir a hiperinflação decorrente do aumento da despesa pública.

De toda a maneira, de acordo com o que faz Cogan e todos os outros, será que eles nos explicam quais as razões que os levaram a mudar as regras da análise? A este respeito dizem-nos:

“R&B assumem que o Fed une a taxa de juro a uma âncora – a taxa dos fundos federais – ao atual nível zero e tanto quanto as suas simulações funcionam a esse nível. Dada a sua hipótese de que o aumento da despesa é permanente, isto é, para sempre, nenhum outro sentido se encontra nesta hipótese. Na verdade, uma tal ligação de taxa de juros pura é interdita nos modelos dos Novos-Keynesianos com as famílias e as empresas de olhos virados para o futuro porque se estão a construir consequências económicas desastrosas. Como Thomas Sargent e Neil Wallace sublinharam há mais de 30, uma taxa de juro ancorada à taxa dos fundos federais levará à instabilidade e não à unicidade dum modelo de expectativas racionais, dado que as expectativas de inflação dos agregados familiares e das empresas quebram essa união,  e o nível de preços pode explodir numa espiral ascendente.”

Da má qualidade só pode sair má qualidade, ou como dizem os americanos, Garbage-in, garbage-out.

Assim, porque os modelos matemáticos dos Novos-Keynesianos prevêem a hiperinflação se o governo aumenta as despesas públicas, podemos então nitidamente não ter este comportamento público como uma opção de política económica. Para aqueles que não são muito conhecedores  nas questões económicas, esses modelos matemáticos são exactamente feitos para refletirem os preconceitos dos indivíduos que os criam. Estes modelos, particularmente, usados por Cogan, etc. não têm nenhuma aderência à realidade. Garbage-in, garbage-out, portanto.

Portanto, porque a sua imaginação é ofendida, é duramente atingida, os neoliberais recusam-se a reconhecer o que está a acontecer no mundo real.

Conclusão

Pobres dos estudantes de Harvard. Entre outros, estes têm de lidar com professores como Mankiw e Barro.

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[1] Deixemos em inglês a introdução dos autores citados no texto que o BCE patrocinou, para que se evite a crítica, sempre possível, de se tratar de uma eventual distorção de tradução, mesmo que involuntária. Dizem-nos então estes economistas, possivelmente pagos a peso de ouro:

“Macroeconomists remain quite uncertain about the quantitative effects of fiscal policy. This uncertainty derives not only from the usual errors in empirical estimation but also from different views on the proper theoretical framework and econometric methodology. Therefore, robustness is a crucial criterion in policy evaluation. Robustness requires evaluating policies using other empirically-estimated and tested macroeconomic models.

In this paper, we consider two such models for comparison, the multi-country model of Taylor (1993) and the model of the U.S. economy by Smets and Wouters (2007). Both models allow for an important role of nominal rigidities in price and wage-setting, but also account for forward-looking behavioural decision making by households and firms. Thus, they can be characterized as New-Keynesian macroeconomic models. In these models, households and firms consider the implications of fiscal stimulus on future taxes and interest rates. Consequently, expectations of lower wealth and higher funding costs dampen private sector economic activity.

We consider more realistic assumptions regarding the likely paths of interest rates. Contrary to Romer and Bernstein, who assume that the nominal interest rate remains pegged, our analysis allows for the return to a stabilizing monetary policy after one or two years. Finally, we consider a more realistic path of government expenditures. (…)

The estimates reported here of the impact of such packages are much different from those reported in the paper by Christina Romer and Jared Bernstein. They report impacts on GDP for a broad fiscal package that are six times larger than those implied by government spending multipliers in a typical new Keynesian model and our calculations based on generous assumptions of the impacts of tax rebates and transfers on GDP. They also report job estimates that are six times larger than these alternative models. At the least, our findings raise serious doubts about the robustness of the models and the approach currently used for practical fiscal policy evaluation.”

É evidente a desonestidade destes “grandes”  economistas  quando querem contestar os resultados em que Obama se apoiava para defender a sua política, ao criarem um outro modelo, outras hipóteses, e assim, outros resultados!

Repara-se, por contrapartida, na seriedade dos autores que desmontaram os trabalhos de Reinhart & Rogoff. Pediram-lhes os dados, refizeram os cálculos e mostraram ao mundo os erros feitos e a incoerência nas metodologias usadas por estes dois defensores das políticas de austeridade. Nada disto se passa neste trabalho publicado pelo BCE que, na verdade, pretende ser um ataque à administração Obama e uma defesa das políticas que a Troika veio a seguir impor em todos os países em dificuldade.

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Para ler a Parte III deste trabalho de Bill Mitchell, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas, vá a:

A IMPULSIONAR O CARRINHO DA FANTASIA, por BILL MITCHELL

 

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