CONTOS & CRÓNICAS – A reencarnação de Luís de Camões (ou o desacerto de uma parelha) -IV – por Manuela Degerine

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Frith é – como percebemos – uma personagem contrastada. Sábio e falhado, inútil e trabalhador, alienado e competente. Homem das sete partidas e dos sete instrumentos… que acabam por servir para nada. Ou servem onde não são valorizados: traduz “Os Lusíadas” numa plantação de noz-moscada no arquipélago de Kanda-Meira. Mas quem andou pelo Oriente, mesmo nos dias de hoje, conheceu pelo menos uma destas figuras cuja inadaptação encontrou algures um espaço de sobrevivência…

Na manhã seguinte o doutor Saunders começa a sentir-se feliz com aquelas férias, até as aparências – viver dos rendimentos, fazer figura de “gentleman” – agora o divertem quando, numa nuvem de poeira, pára à frente do hotel a carruagem puxada por uma pileca. Quem dela sai com um maço de folhas embrulhadas em papel pardo?… Passo a citar traduzindo (página 170).

“Gostava de lhe ler o “Canto III”, disse Frith. “Tem o lirismo que me convém. Deve ser do melhor que já fiz. Conhece o português?”

“Não.”

“Que pena… É quase uma tradução palavra a palavra. Diverti-lo-ia verificar como consegui obter o ritmo, a música, o sentimento, enfim, tudo o que constitui esta obra-prima. Evidentemente não hesite em criticar, quero ouvir tudo o que tiver para dizer, mas penso ter chegado à versão definitiva. Não acredito que possa vir a ser melhorada.”

Como a maioria dos criadores, pois um tradutor também o é, Frith pede críticas mas quer aplausos. O doutor Saunders escuta com toda a atenção; o texto começa por lhe parecer fácil e fluente, porém Frith mais sublinha o som do que o sentido e este acaba por se perder. O ritmo lembra o movimento de um comboio. Saunders crava os olhos no leitor, enruga a testa com o esforço, luta para não adormecer; de súbito nota o silêncio. Abre os olhos. Black explica que o encontrou a roncar e Frith recomendou que o deixassem dormir.

A tradução de “Os Lusíadas” pesa no retrato de Frith pelo evidente contraste entre o saber, o tempo, o talento, a técnica, o esforço, a criatividade que tal empreendimento lhe exige e a incerteza de ele vir a ganhar, como pensa, o dote da filha com um poema cujo autor morreu na miséria. Quando Saunders, antes de partir para Bali, se despede do compatriota, esta ilusão atinge, sendo repetida, o grau de delírio.

“Estou quase a chegar ao fim. Tem sido um trabalho árduo e não acredito que, sem o apoio da minha menina, chegasse a resultados satisfatórios. É pura justiça que ela se torne a primeira beneficiária.” (Tradução minha, página 242.)

Camões não terá de facto sido um homem muito diferente desta personagem de Somerset Maugham: na sua miséria, na sua solidão, na sua obscuridade, nas suas contradições, nas suas idas e vindas, nos seus altos e baixos. Talvez Camões na verdade possa ter sido Frith… Mais o génio que lhe permitiu operar a síntese poética da epopeia antiga com a vanguarda do conhecimento na sua época. Eis a maior diferença. Camões não é a reencarnação de Homero nem de Virgílio – é Luís de Camões.

E Frith não passa de um louco pensando ser Camões. Aliás “Os Lusíadas” seriam tão obscuros em português que precisassem de uma reencarnação para os universalizar?… A língua inglesa é um triturador de diversidade à escala planetária, por isso mais justas nos parecem as reencarnações (podíamos começar com Vasco Graça Moura: tem experiência) que bem traduzam em português as obras estrangeiras; tão massacradas na maioria das edições lusófonas. Mas não só… Por a anglofonia ser mais invasora do que o chorão-das-praias, igualmente precisamos de reencarnações que traduzam em português os ensaios dos nossos investigadores, muitas aulas das nossas universidades, alguns discursos dos nossos políticos e as canções de Miguel Esteves Cardoso na Antena 1. Talvez o além ultrapasse o espaço comunitário… Sendo urgentes tais reencarnações, cujo processo de todo ignoramos, cumpre solicitá-las de imediato. Os leitores sabem acaso onde se faz o requerimento?

(Continua)

 

 

 

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