BARACK OBAMA, DEMOCRATA E ASSASSINO? QUANDO DA MORAL DOS DIREITOS DO HOMEM SE FAZ UM TAPETE DE PALHA – por JEAN BONNEVEY

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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BARACK OBAMA, DEMOCRATA E ASSASSINO?

Quando da moral dos direitos do Homem se faz um tapete de palha

Jean Bonnevey, revista Metamag, 12 de Junho de 2012

 

Não se deixará cair uma só lágrima  sobre presumidos terroristas, confirmados ou aprendizes, prematuramente felizes por terem ganho a afeição de obscurantistas islamitas, devido aos múltiplos ataques e bombardeamentos americanos no mundo. Isto significa sempre alguns parasitas a menos. Mas será que se pode aprovar o assassinato político, quando este é pretendido por aquele que se quer como a voz do representante na Terra dos valores nunca ultrapassáveis? O que acabamos de saber sobre o comportamento do Presidente Obama prova que a hipocrisia é o motor das sociedades democráticas ocidentais

A leitura de um artigo recente no New York Times sobre a ‘pequena actividade semanal’ do Presidente é mesmo de espantar e é até mesmo muito surpreendente para os admiradores do ocupante da Casa Branca. Ficamos a saber que, todas as terça-feira, Barak Obama estende à sua frente mapas de um tipo muito especial que contêm fotos e biografias dos alegados terroristas, para escolher qual será a próxima vítima de um ataque a ser feito por um drone. E é só a ele que cabe a decisão: a probabilidade de matar alguém próximo do alvo ou civis que estejam nas proximidades merece ou não que se pare com o procedimento? Aprendemos de forma detalhada a forma como é que Barak Obama gere pessoalmente a campanha de assassinatos teleguiados.

Não devemos ser ingénuos. Estas revelações não são o resultado de fugas de informação, são antes o resultado de uma operação de comunicação bem preparada, uma operação de propaganda que tem finalidade eleitoral. Trata-se de mostrar aos eleitores, a poucos meses da eleição presidencial, que o Presidente é um homem duro e que é eficaz. Tornou-se necessário.

Porque, hoje em dia, o inquilino da Casa Branca parece singularmente enfraquecido: parece impotente enquanto milhares de pessoas estão a ser massacradas na Síria; ele sente-se a rolar na farinha que é atirada pelo Irão como é mostrado pelo fracasso das últimas negociações sobre a energia nuclear em Bagdad. Vladimir Poutine trata-o com um profundo desprezo, bloqueando qualquer intervenção sobre estes dois países e ainda o colocou numa situação de afronta pública ao decidir ser substituído por Medvedev, o seu primeiro-ministro, durante as últimas cimeiras do G8 e da OTAN.

D0047142_Frame58.tifCharles Krauthammer

O jornalista conservador Charles Krauthammer condena veementemente a estratégia de combate ao terrorismo, adoptada por Obama. O uso massivo dos drônes está em total contradição com a imagem da rectidão moral que o Presidente tem mostrado pensa ele. “No que é que se tornou este artesão da paz, premiado com o Nobel, este presidente favorável ao desarmamento nuclear, este homem que se desculpou aos olhos do mundo para as acções vergonhosas dos Estados Unidos que infligiam interrogatórios sobre tortura essas mesmas pessoas que ele agora não hesita em mandar matar? O homem de paz foi substituído – exactamente a tempo para a campanha eleitoral de 2012-por uma espécie de Deus vingativo, sempre pronto a desencadear a sua ira.

Que senso estranho da ética. Como se pode andar orgulhosos por afirmar que os Estados Unidos como país escolheu a rectidão moral ao levar e manter no poder um presidente profundamente ofendido com o belicismo e a barbárie de um George W. Bush e ao mesmo tempo revelar publicamente que a sua actividade favorita é a de ser simultaneamente juíz e carrasco dos combatentes que nunca viu e em que pouco importa se pessoas inocentes estão nas suas proximidades e podem ser igualmente vítimas. »

Eis pois o que podemos ficar a saber com a leitura do livro que revela o outro lado de Obama, “Matar ou capturar” de Daniel Klaidman. ” Trata-se de uma mudança altamente improvável para um dos advogados de entre os mais respeitados sobre direitos humanos na sua geração. Na Universidade de Yale, ele havia memorizado os nomes e rostos dos seus alunos, idealistas de olhos brilhantes que queria utilizar a lei para melhorar o mundo. Agora, ele estuda as listas que lhe são apresentadas pelo governo, memoriza os perfis de jovens militantes de olhares frios e ajuda a identificar aqueles que podem ser levados à morte. »

Klaidman - I   Klaidman - II

 

 

 

Mesmo as gentes da revista Marianne se encheram de calafrios. «300 páginas de uma história que se lê como um verdadeiro thriller e uma chuva de revelações disponibilizadas por duas centenas de testemunhas privilegiadas do exercício do poder praticado pelo 44º presidente dos Estados Unidos. Daniel Klaidman, correspondente especial da Newsweek no Médio Oriente, é considerado um jornalista de investigação, premiado pela profissão pela sua cobertura do 11 de Setembro de 2001 e das suas consequências. Acima de tudo, é um dos melhores especialistas americanas sobre terrorismo e sobre questões de segurança nacional. E é por isso que este livro começa a produzir ondas de choque através de meios de comunicação americanos.”

E desde o início, Daniel Klaidman levanta a questão que permanece o maior tabu de todas as questões que se podem levantar desde a chegada do sucessor de Bush à Casa Branca em 2008, simultaneamente nos Estados Unidos, mas também entre as potências ocidentais, aliadas deste país: “Barack Obama é um idealista ou um pragmático impiedoso e cruel?” O autor diz secamente: “ele prometeu fechar Guantanamo Bay, de acabar com os interrogatórios coercivos e com os tribunais militares, para restaurar os princípios americanos da justiça; no entanto, durante o seu primeiro mandato, ele recuou em cada uma destas promessas, fez subir drasticamente a guerra secreta feita com drônes e por operações clandestinas. »

Obama será ele o Putin da América, pergunta o jornal? Putin utilizaria ele drônes contra os seus adversários? Poder-se-ia levantar a questão de forma diferente: quem, entre o autoritário Presidente e o presidente democrata terá morto mais inimigos através dos assassinatos? Já não há poder limpo, já não há guerra limpa até para um democrata, mesmo para um presidente “normal”. A prova é dada por Obama, o utilizador de drônes assassinos.

Jean Bonnevey , Barak Obama, démocrate et assassin? Quand la morale des droits de l’hommes fait office de paillasson,  revista Metamag, 12 de Junho de 2012

http://metamag.fr/metamag-884-Barak-Obama–democrate-et-assassin–Quand-la-morale-des-droits-de-l-hommes-fait-office-de-paillasson.html

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