A FRONTEIRA ONDE BORGES ENCONTRA O BRASIL – 5 – por Carmen Maria Serralta

(continuação)

3 – Conversações com o escritor – Borges conta a viagem.

  1. 1 – Para María Esther Vázquez

Maria Esther Vázquez conheceu Borges em 1957 e da relação de amizade que se seguiu nasceram muitos trabalhos conjuntos, entre os quais: “Introdução à literatura inglesa” e “Literaturas germânicas medievais”. No livro – Borges Esplendor y Derrota[1], no capítulo com o subtítulo Las Nubes, é narrada com detalhes a vinda do escritor até nossa fronteira. Vale a longa citação porque reproduz com fidelidade muitas outras que relatam com quase idênticas palavras a viagem em questão:

            A casa chamava-se Las Nubes porque se erguia sobre uma colina que dominava a cidade; era branca, confortável e moderna, e os anfitriões amáveis, carinhosos e inteligentes. Os três (Borges, sua irmã Norah, seu cunhado Guillermo) eram hóspedes do escritor uruguaio Enrique Amorim, casado com Esther Haedo, prima e companheira das brincadeiras e jogos da infância dos irmãos Borges.

            Durante a estada (…) naqueles campos do noroeste uruguaio, Borges viveu experiências inéditas oferecidas pela gauchada: violência cotidiana, um agressivo primitivismo anacrônico, que se advertia como disse o escritor: ‘nas cercas de pedra, no gado de chifres longos, nos adornos de prata para os cavalos, nos gaúchos barbudos; os palanques, os avestruzes, tudo era tão primitivo, inclusive tão bárbaro, que a viagem se converteu mais numa viagem ao passado do que numa viagem através do espaço’.

            Naqueles dias, a fronteira entre o Uruguai e o Brasil, perto do campo de Amorim, existia, salvo por alguns acidentes naturais, somente nos mapas. A cidade de Rivera se confundia com a brasileira de Santa Anna (sic) do Livramento; a fronteira era uma longa avenida aberta sem nenhum posto de aduana, igual à cidade do Chuí. Contrabandeava-se tudo, em especial gado. A vida própria e a alheia valiam tão pouco que se matava por uma irritação casual e momentânea; às vezes por menos. Borges só tinha observado este tipo de vida nos romances e nos filmes americanos de faroeste. Assim ele e Amorim viram num café de Santa Anna (sic) matar a um homem. Em uma mesa estava sentado, bebendo, o capanga[2] (guarda-costas) de um homem importante. Um infeliz bêbado, dizendo inconveniências dele se aproximou demasiado e o outro, sem sair do lugar, tirou o revólver e o matou com dois balaços. No dia seguinte, o assassino, intocável para a justiça, estava novamente no café jogando cartas.

            Também em Santa Anna (sic) e por intermédio de Amorim conheceu Borges um fazendeiro brasileiro. Acompanhava-o um negro gigantesco que levava à mostra uns revólveres muito grandes; o senhor, sem dissimular seu orgulho, apresentou-o dizendo: ‘Meu capanga!’, depois explicaram a Borges que isso indicava a importância e a riqueza do indivíduo.

            O ato de violência que presenciou alimentou de tal modo a imaginação de Borges, que pelo menos cinco contos seus, escritos anos depois, tiveram relação com este fato.

            Uma menção daquelas experiências de Salto aparece em ‘Tlön, Uqbar, Orbis Tertius’, em ‘A forma da Espada’ e em ‘O Morto’. Nesse último, Otálora, um guapo[3] argentino transforma-se no capanga de um contrabandista.  Borges, como todos os escritores, buscou nas suas vivências, no seu passado, na gente que o rodeava, temas e personagens. Otálora era  um antigo sobrenome de sua  família e O Suspiro,  lugar  onde  transcorre  a  ação de ‘O Morto’, era o nome do rancho, no qual passaram, ele e Amorim, uma noite. Em ‘A Outra Morte’ reaparece o homem primitivo e seus sentimentos. E por  último, em ‘O Sul’, Juan Dalhmann  protagoniza o assassinato do infeliz bêbado nas mãos do capanga. Agora o duelo se desenrola ao inverso e é a faca, mas o atroz pesadelo continua.

            Nunca uma visita tão breve (é provável que daquela vez não tenha chegado a duas semanas  sua  estada em Las Nubes) rendeu tantos frutos. (Vázquez, 1996, p.132-133)

Borges - X

 

 

 

  1. 2 – Para Roberto Alifano

             Um relato dos acontecimentos da viagem de 1934 é feito por Borges a Alifano, amigo pessoal, companheiro de viagem e colaborador em traduções de R. L. Stevenson e de Hermann Hesse. No livro Borges, Biografia Verbal, o escritor explica como lhe surgiu a ideia de escrever o conto “El Muerto”:

     A história ocorreu-me numa viagem que fiz à fronteira do Uruguai e Brasil em 1934. Eu tinha viajado a Salto à estância de meu amigo Enrique Amorim e depois fomos àquele povoado de fronteira; lá vi matar a um homem perto de mim e esse fato me impressionou muito. Tudo o que vi naquela viagem era primitivo: os adornos dos cavalos, os gaúchos com suas barbas descuidadas, as cercas de pedra, os arreios, os avestruzes, o gado de chifres longos. Foi como uma viagem ao passado… Quanto aos nomes, Otálora é um antigo nome de família meu, o mesmo que Azevedo, porém com c espanhol em lugar do z português. Bandeira era o nome do jardineiro de Enrique Amorim; também sugere os bandeirantes, ou conquistadores portugueses, que alguma vez nomeia Camões nos seus Lusíadas. (Alifano, 1988, p. 164)

 

Borges - XI

 

 

 

  1. 3 – Para Carlos Peralta

Em 1964, em Paris, Borges concede a Peralta uma entrevista em francês, L’électricité des Mots, na qual narra, em tom bem coloquial, a mesma cena da morte do homem:

     Em Sant’Anna (sic) do Livramento tive a oportunidade de ver matar a um homem. Encontrava-me em um café com Amorim e numa mesa próxima a nós estava sentado um guarda-costas de uma pessoa muito importante, um capanga. Um bêbado dele se aproximou demasiado, e aí então, o capanga lhe disparou dois balaços. Na manhã seguinte, o mencionado capanga estava no mesmo café bebendo um trago. Tudo tinha acontecido junto a nossa mesa, mas o que digo agora é o que me disseram posteriormente e essa lembrança é para mim mais clara que a realidade. Só vi um homem em pé e só ouvi o ruído dos disparos. (Revista Cahiers de L’Herne, p. 413).

 

(continua) 

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[1] Vázquez, 1996, cap. 6, p.132-133.

[2] Cabe a explicação entre parênteses do termo guarda-costas para capanga, porque esta palavra não existe em espanhol e foi introduzida pelo escritor em alguns de seus contos após sua vivência fronteiriça.

[3] Tipo popular, provocador, metido a valentão.

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