NESTE DIA… EM 5 DE AGOSTO DE 1109, NASCEU D. AFONSO HENRIQUES

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Em 5 de Agosto de 1109, terá nascido D. Afonso Henriques. Onde?

Em  Guimarães? Em Coimbra? Ou em Viseu, no Paço Real que foi dos Reis de Leão. Eis uma história relacionada com esta dúvida. 

D. Afonso Henriques, Jorge Luis Borges e as origens do fado – por Carlos Loures

Hoje, no dia em que Afonso I, fundador da nacionalidade portuguesa talvez tenha nascido, não resisto à tentação de contar mais uma vez a história relacionada com o local onde terá nascido. Porque havendo também dúvidas quanto ao dia e até quanto ao ano, essas dúvidas sobre o quando? não levantam tanta celeuma como as do onde?

Há anos atrás, num Dicionário de História de Portugal cuja edição coordenei, a entrada sobre D. Afonso Henriques dava-o como nascido em 5 de Agosto de 1109 em Coimbra. Em Guimarães lavrou a indignação – não podia ser, a editora tinha de publicar um desmentido. Numa obra com mais de um milhar de páginas, muitos milhares de entradas e milhões de palavras, com prazos a cumprir, quem coordena não pode ler tudo. Mas, se li e estranhei, tive de aceitar, pois as entradas tinham sido entregues a especialistas. O autor da entrada era Luís Kruss, credenciado medievalista da escola de José Mattoso, um jovem mas prestigiado professor da Universidade Nova de Lisboa. De Guimarães começaram a chegar à editora cartas, postais, telefonemas e até uma entrevista telefónica em directo tive de dar à Rádio Fundação. Queriam desmentidos. Cheguei à fala com o autor e ele mostrou-se inamovível – não desmentia nada: se D. Afonso Henriques nasceu em 1109, não pode ter nascido em Guimarães – nesse ano a corte estava em Coimbra. Naquela época, não havia as «barrigas de aluguer» e os filhos nasciam onde as mães estavam. O Dr. José Hermano Saraiva, colaborador da editora, foi por esses dias a Guimarães fazer uma palestra à Sociedade Martins Sarmento. Um numeroso grupo de vimaranenses, estudantes na sua maioria, julgando-o responsável pelo furto do fundador à Cidade, fez uma manifestação em frente do hotel onde estava hospedado. Teve de sair escoltado pela polícia. A sociedade encheu-se para o ouvir e o conceituado historiador, depois de ter explicado que não tinha dirigido o tal dicionário, tranquilizou a belicosa assistência – «D. Afonso Henriques nasceu em Guimarães! Não há dúvidas a esse respeito!». Uma estrondosa ovação, que se repetiu depois ao longo da palestra. Ele que entrara protegido pela polícia, saiu quase aos ombros dos manifestantes. E a zanga de Guimarães desvaneceu-se: o que eram um dicionário e um texto de um professor desconhecido comparados com a opinião de um homem tão famoso? No regresso de Guimarães, almoçou comigo e quando lhe perguntei que elementos tinha ele para contrapor aos alicerçados argumentos do medievalista, respondeu-me: «Nenhuns! Só os do bom senso». Consolidou a sua tese – «O que interessa onde é que o D. Afonso I nasceu realmente? E se não nasceu em 1109? Porque se põe em causa o lugar e não a data? Há coisas em que não se pode mexer. Esta é uma delas. D. Afonso I nasceu em Guimarães. Assunto arrumado!».  O professor José Mattoso, na sua biografia sobre o primeiro rei de Portugal narra este acontecimento, com imprecisões, nomeadamente quanto ao nome da editora, mas isso não tem importância. E não esclarece onde nasceu o filho da bastarda de Afonso VI de Leão. Mais recentemente, surgiu a hipótese de o local do nascimento de Afonso I ser Viseu, hipótese secundada por alguns historiadores.

Estava já a esquecer o caso, quando me telefonam da RTP, pedindo-me para ir a um programa da tarde, dirigido pelo Raul Durão, falar no assunto do D. Afonso Henriques. E disseram-me o dia e a hora. Quando me prontifiquei a ir, disse que levaria comigo o professor, o medievalista: eu falaria sobre a prática comum da editora em matéria de escrúpulo científico e ele esclareceria a questão histórica. Da RTP concordaram. Foi numa segunda-feira. Passei pela Nova, encontrei-me com o professor e fomos até à 5 de Outubro, de onde era emitido o programa. Eu tinha estudado alguma coisa sobre o tema, porque embora não fosse essa a área sobre a qual iria falar, não queria estar «às escuras». Lembro-me que estive no domingo de manhã no Limo Verde da Parede, onde na altura morava, lendo e anotando, nas fotocópias de que me munira, o que me parecia interessante. Pelo meio, para descansar do tema afonsino, li num suplemento do DN um pequeno texto do Jorge Luis Borges, onde o genial escritor argentino, analisava com mestria as similitudes entre duas canções urbanas – o tango e o fado. Fomos, o professor e eu, para os estúdios, combinando estratégias pelo caminho. Fomos recebidos por uma secretária que nos levou à maquilhagem e, enfim, lá chegou o momento de entráramos no estúdio e de nos sentarmos em frente das câmaras, enquanto passavam um bloco de publicidade. Primeira surpresa: não era Raul Durão que nos ia entrevistar, mas sim Luís de Castro. Durão estava de férias, esclareceu Castro. Por nós não fazia diferença. Diferença fez, quando a entrevista começou em directo e vimos no teleponto aparecer a primeira pergunta, mais ou menos isto: «No vosso dicionário, na entrada Fado, diz-se que a chamada canção nacional teve origem no Brasil. É verdade?» Olhar de pânico entre mim e o professor. Fado? Resolvi dar tempo ao professor para alinhar ideias. Às vezes nem sei como continuo a ser ateu: então não é que o texto de <Borges, que li nos intervalos da consulta às fotocópias, estava quase todo na minha memória?

 Arrumei a questão – É verdade. Terá nascido de uma música popular que existia no Brasil no início do século XIX, proveniente de danças trazidas de Angola pelos escravos e que podiam ser acompanhadas por canto, conjunto a que se chamava fado; música que a corte de D. João Vi trouxe do Brasil, quando regressou a Lisboa. E acrescentei: Segundo Jorge Luis Borges… e debitei o sumo do texto lido na véspera. Entretanto o professor teve tempo para recuperar e fez uma excelente intervenção sobre as eventuais raízes árabes da canção, que teria passado a sua influência às famosas endechas e daí vindo até aos nossos dias ligado à tal dança chegada dos trópicos.

 A entrevista acabou e a secretária veio dizer-nos que tinha ficado fascinada com o tínhamos dito sobre o fado. Enquanto nos acompanhava até à saída, queixámo-nos – «convidam-nos para falar sobre o D. Afonso Henriques e entrevistam-nos sobre o fado? Desvalorizou. «- Ah sim? O Raul foi de férias e se calhar esqueceram-se de dar as notas que ele deixou ao Luís. São coisas que acontecem. E os senhores saíram-se tão bem…» – fiquei com a ideia, talvez injusta, de que fora ela quem se esquecera de dar os tais apontamentos ao Luís de Castro.

 Moral das histórias – nunca se pode dar nada por adquirido: O “Fundador” nasceu em Guimarães, Coimbra ou Viseu? O fado veio de África (via Brasil) ou os muçulmanos deixaram-no cá ficar? Para complicar, há quem fale na hipótese da origem celta… É rebuscado, mas quem sabe? Sobretudo não se pode forçar a verdade histórica privilegiando interesses estranhos à ciência.

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