BISCATES – “O Estado é meu inimigo”- por Carlos de Matos Gomes

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O Estado, através do governo e este através do Diário da República é meu inimigo. O Diário da República é um trilho armadilhado que o Estado me obriga a percorrer. Todos os dias um ministro, um secretário, um “alguém de direito do Estado” coloca lá uma mina, uma armadilha para me arrancar um pé, uma perna, para me cegar, com a forma de um decreto-lei, de uma lei, de um despacho a impor-me mais um dever de apresentar uma certidão, de entregar um manifesto, de pedir um comprovativo, de mostrar e provar que eu sou eu, que eu não sou um vigarista que vende produtos contrafeitos, que recebe benefícios indevidos, que anda por aí a fazer a sua vida.

O Estado quer que eu passe 24 horas por dia a trabalhar para o Estado, a provar que não engano o Estado, a reclamar quando o Estado se engana contra mim, a defender-me das acusações do Estado.

O Estado dispara a esmo sobre os cidadãos e depois obriga cada um a provar que não é um infratator.

Para o Estado todos os cidadãos são em princípio tipos que fogem aos impostos, que recebem benefícios indevidos, que conduzem sem carta, que compram medicamentos sem receita, que fazem trabalhos sem fatura, que metem baixa sem estarem doentes, que andam pelo país sem autorização do Estado.

O Estado rega todos os cidadãos com a sua desconfiança. Cada cidadão tem de ir provar que foi mal molhado. O Estado não se responsabiliza por nos ter molhado com as suas desconfianças, nem nos indemniza por nos ter acusado, entende que foi magnânimo por não nos ter condenado.

Para o Estado, um cidadãoque não cometeu um crime de que o Estado o acusa não é um inocente: é apenas um malandro que conseguiu escapar à justa penalização. O Estado fica a remoer de ódio: escapaste desta, mas para a próxima não escapas porque vou fazer uma lei infalível.

Um ministro das finanças, um ministro da segurança social, um ministro da justiça é, antes de tudo, um inquisidor: não só quer saber tudo da minha vida, como já me tem condenado antes de abrir a boca.

O inquisidor – os Torquemadas dos ministérios – não querem saber se o cidadão tem razão, querem saber se ele cumpre os mandamentos que estão no latim diário do Diário da República.

O inquisidor do Estado não quer saber se eu trabalho, se como, se vivo: quer saber se eu cumpro o que o inquisidor escreveu no DR e se pago sem bufar aquilo que entende que me deve extorquir.

O inquisidor do Estado não quer saber do bom senso, nem da presunção de inocência nem na ideia de que a maioria dos cidadãos é gente de bem. Não, para os inquisidores do Estado todos os cidadãos são feitos à imagem e semelhança dos filhos da puta que publicam leis, decretos leis, portarias, despachos no DR.

Para o Estado, todos os cidadãos são corruptos como o Estado. Com a diferença de que o Estado é mais forte e mais corrupto do que os cidadãos.

Para mim, quem escreve no Diário da República é um assaltante.

Carlos de Matos Gomes

3 Comments

  1. Subscrevo na integra com o que descreve na perfeição. Mais uma vez os meus parabéns por disseminar a lucidez dos factos.

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